A abertura da 6ª Festa Literária Júlia Nascimento (FLiJuN), prevista para as 9h desta sexta-feira (3), em Laguna, foi marcada por um cenário que revoltou organizadores, convidados e público. O evento, considerado uma das principais iniciativas de incentivo à leitura e à formação cultural da região, teve sua programação prejudicada pela ausência da estrutura prometida pela Prefeitura de Laguna.
Conforme apurou o Portal AHora, no horário em que as primeiras atividades deveriam iniciar, nenhuma das tendas previstas para abrigar as atrações havia sido montada, isso cerca de 30 minutos após o horário oficial de abertura. E somente depois dos questionamentos feitos pela reportagem aos gestores municipais foi equipes da prefeitura iniciaram a instalação de estruturas.
Ainda assim, apenas duas das cinco tendas que, segundo a organização, haviam sido garantidas pelo município foram efetivamente montadas.
A redução da estrutura compromete diretamente a realização da programação, que reúne escritores, pesquisadores, professores, contadores de histórias, oficineiros, estudantes e visitantes de diversas cidades. Para a organização, o problema ultrapassa uma simples questão logística e representa um desrespeito com um evento planejado durante meses e voltado ao fortalecimento da literatura e da formação crítica da sociedade.
Segundo os organizadores, o pedido de apoio estrutural foi formalizado junto ao poder público, este comando pelo prefeito Preto Crippa (PL), há mais de um mês. Em vídeo gravado na praça onde ocorre a FLiJuN, o idealizador da feira, Arnaldo Russo, lamentou a situação.
“Estamos aqui na estrutura da festa literária, que ainda não foi montada, e esperamos que a prefeitura cumpra com o seu combinado. A solicitação já foi realizada há mais de um mês. Infelizmente, alguns eventos que acontecem em cima da hora, a infraestrutura aparece e é montada. Então nos causa bastante estranheza a gente não ter tido ainda infraestrutura para esse evento. Nos entristece também.”
O contraste chamou ainda mais a atenção porque outra estrutura, destinada a um evento musical que também ocorrerá concomitantemente na praça, já estava completamente instalada, enquanto a Feira Literária permanecia sem as condições mínimas para receber suas atividades.
Prefeito admite falhas e atribui problema a dificuldades com fornecedores
Procurado pela reportagem, o prefeito de Laguna, Preto Crippa (PL), afirmou que a administração enfrenta dificuldades relacionadas aos processos licitatórios e aos fornecedores responsáveis pelas estruturas dos eventos.
Segundo ele, a montagem deveria ter iniciado às 7h da manhã, mas houve um problema cuja causa ainda estava sendo apurada pela prefeitura. O prefeito ressaltou que a situação também é negativa para a administração municipal e negou qualquer favorecimento entre eventos.
Preto Crippa argumentou que a estrutura já instalada na praça pertence a outro processo licitatório, conduzido por outro fornecedor, razão pela qual foi entregue dentro do prazo. Acrescentou que o município é parceiro da FLiJuN, mas depende do cumprimento de diversas etapas por empresas contratadas e que basta uma delas falhar para que toda a responsabilidade recaia sobre a prefeitura.
O prefeito também afirmou que a administração sempre manteve diálogo aberto durante a organização do evento. Por fim, declarou que compreende as cobranças, mas garantiu que não houve má-fé da gestão, apenas falhas que fugiram ao planejamento.

Organização da FLiJuN rechaça justificativas: “completo desrespeito com o evento de literatura”
As explicações apresentadas pelo prefeito, entretanto, foram imediatamente rebatidas pelo organizador da FLiJuN.
Arnaldo Russo contestou a versão de que o problema decorreu apenas de dificuldades com fornecedores e afirmou que as tendas destinadas ao evento sequer chegaram a ser incluídas no processo licitatório mencionado pela prefeitura.
“A mentira é que as tendas estavam garantidas no mesmo certame da emenda parlamentar que veio para os 350 anos da cidade. E não! As nossas tendas sequer foram licitadas e a FLiJuN foi atropelada de goela abaixo, com show noturno no sábado e um evento de baterias (apresentação de bateristas e percussionistas), no domingo. Um completo desrespeito com o evento de literatura e com infraestrutura garantida com antecipação para estes dois eventos paralelos no mesmo local.”
A declaração reforça a insatisfação da organização, que entende que a Feira Literária perdeu prioridade na agenda municipal justamente diante de outros eventos previstos para o mesmo espaço público.
Fundação Lagunense de Cultura
Questionada pelo AHora, a diretoria da Fundação Lagunense de Cultura enviou uma nota oficial, de “esclarecimento”. Confira o texto na íntegra:
“NOTA DE ESCLARECIMENTO
A Fundação Lagunense de Cultura vem, por meio desta, prestar os devidos esclarecimentos à organização da Festa Literária, à imprensa e ao público em geral acerca do atraso ocorrido na montagem da estrutura de tendas para o evento.
Informamos que o item referente à locação de tendas não possuía cobertura em nossa ata de registro de preços vigente. Para atender a essa demanda, a Fundação deflagrou um novo processo licitatório no dia 10 de junho, o qual foi devidamente homologado na última terça-feira (30/06). O contrato com a empresa vencedora foi assinado no dia de ontem, momento em que seria emitida a Solicitação de Fornecimento.
No entanto, fomos notificados de que a empresa contratada exigia um prazo contratual de 7 (sete) dias de antecedência para o atendimento da solicitação, o que inviabilizou a entrega a tempo para o início das atividades de hoje.
Diante desse imprevisto burocrático e com o intuito de não prejudicar o evento, a Fundação mobilizou-se prontamente e, na tarde de ontem, viabilizou a contratação de uma empresa local parceira para o fornecimento da estrutura. O acordo firmado previa o início da montagem para as 7h da manhã de hoje. Infelizmente, a empresa teve contratempos e não conseguiu fazer a montagem no horário estipulado.
Ressaltamos, contudo, que a equipe responsável já se encontra no local neste momento, trabalhando de forma ininterrupta na montagem das tendas para que a programação da Festa Literária possa ocorrer da melhor forma possível.
A Fundação Lagunense de Cultura reafirma seu compromisso com a valorização da cultura em nosso município e lamenta os transtornos causados por estes contratempos logísticos.
Atenciosamente,
Francisco Algarves
Presidente da Fundação Lagunense de Cultura”
Um patrimônio cultural que resiste
Apesar do impasse e dos prejuízos causados à abertura, a programação da FLiJuN segue até domingo (5), reunindo escritores, leitores, professores, pesquisadores, editores e produtores culturais em uma extensa agenda gratuita voltada ao incentivo à leitura e à valorização da produção literária.

Neste ano, o tema da feira é “Livrarias se fecham, livros se abrem”, propondo uma reflexão sobre a crise enfrentada pelo mercado editorial e pelos espaços dedicados aos livros no Brasil e em Santa Catarina.
Entre os convidados confirmados estão Carlos Schroeder, Marcelo Labes, Fabiana Gibim, Demétrio Panarotto e Thales Guaracy, nomes reconhecidos da literatura nacional, que participam de palestras, rodas de conversa, oficinas e encontros com o público.

A Festa Literária Júlia Nascimento presta homenagem à educadora lagunense Júlia Nascimento, mulher negra nascida em 1884 que enfrentou o preconceito racial para fundar sua própria escola em 1903, tornando-se uma das principais referências da educação na história de Laguna.
A 6ª FLiJuN é realizada pela Livraria Coruja Buraqueira, com patrocínio do Angeloni, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Ministério da Cultura.
Os problemas registrados na abertura da feira, entretanto, acabam lançando uma discussão que vai além da montagem de tendas. Para organizadores e participantes, o episódio evidencia a necessidade de que eventos voltados ao livro, à educação e à formação cultural recebam do poder público o mesmo planejamento, respeito e prioridade dispensados a outras manifestações. Afinal, investir em literatura é investir na construção do pensamento crítico, da cidadania e da própria identidade cultural de uma cidade.











