“Nem todo homem, mas sempre um homem.”
Esta frase tem tantas camadas que eu nem sei por onde começar. Vamos pelo começo: qual menina nunca reclamou que apanhou ou foi incomodada por um colega na escola e ouviu dos pais, professores ou responsáveis: “Ah, mas ele faz isso porque gosta de ti”?
Alguém já presenciou um menino ouvindo o mesmo discurso?
Então, meninos que apanham de outro não podem ficar felizes e aliviados porque receberam uma demonstração de amor e amizade do amiguinho?
Não! Isso é o que ensinam às meninas.
Aos meninos, ensinam que homem tem que ser forte; bravo; não chorar; não demonstrar emoções; que apanhar e não revidar é “coisa de menina”; que não pode perder jamais; que deve tomar para si aquilo que julga ser seu por direito; que é superior à mulher; que mulher serve somente para servi-lo; que o corpo delas – os nossos corpos – lhes pertence.
A nós, mulheres, ensinam o papel de apanhar do coleguinha e ficar quieta, porque é apenas uma demonstração de afeto; a não reclamar; a sentar comportada; a não falar palavrão; a ser submissa ao companheiro (ou proprietário – parece-me que essa palavra deixa tudo mais claro); e a nunca, jamais, de modo algum, se defender.
E assim, lapidados desde a infância, surgem nossos abusadores e assassinos. Hoje, eles exercem as mais diferentes profissões, vivem em diferentes classes sociais, são membros de diferentes religiões, são pais, avós, tios, primos, amigos. Eles nos rodeiam.
E são todos iguais.
“Ah, mas eu sou homem e não sou assim!”
Exatamente, meu senhor. Não é todo homem que age assim, mas é sempre um homem.
Mulheres são caladas e convencidas a não denunciarem seus agressores, inclusive dentro de igrejas, que deveriam ser lugares de aconselhamento e acolhimento da vítima, não do agressor, como muitas fazem.
Mas o pior, o que mais dói, é saber que toda mulher já foi abusada.
Toda!
Algumas, infelizmente, desde a infância.
E, quando falo em abuso, falo de todos os tipos: físico, psicológico, moral, sexual e patrimonial, os quais, segundo a Lei Maria da Penha, abrangem comportamentos que prejudicam a integridade, a saúde e a dignidade feminina.
A sociedade nos mata tanto todos os dias que foi preciso uma mulher ficar paraplégica, depois de ser vítima de violência doméstica praticada pelo próprio marido, para que fosse criada uma lei que estabelecesse mecanismos específicos de proteção às mulheres vítimas de violência.
A Lei Maria da Penha foi um passo enorme para a proteção da mulher, mas ainda não resolve tudo. Infelizmente, a sensação de impunidade do agressor mata mais mulheres todos os dias.
E então chegamos ao feminicídio.
Segundo o site do Tribunal de Justiça do Paraná:
“O feminicídio é todo homicídio praticado contra a mulher, caracterizado por violência doméstica/familiar e/ou menosprezo/discriminação à condição de mulher.”
São duas situações principais:
- Violência doméstica e familiar: quando o crime resulta de violência doméstica ou familiar praticada contra a mulher. Nesse caso, a morte é consequência da ação de um familiar ou de uma pessoa com quem a vítima conviveu ou manteve laço de afetividade;
- Menosprezo ou discriminação à condição de mulher: quando o crime resulta do menosprezo ou da discriminação contra o gênero feminino, manifestados pelo ódio, pela aversão ou pela objetificação da mulher.
O incentivo a violência contra a mulher não tem limites. Temos um candidato à Presidência do Brasil que, em um jogral com sua caterva, ameaçou estuprar uma colega do movimento do qual faz parte. Acabamos de ter uma lista de “estupráveis” feita dentro de uma universidade. A cada cinco horas, uma mulher é morta no Brasil.
É dever de toda a sociedade não deixar que mais nenhuma mulher morra.
Não merecemos perder mais Isadoras, mais Vivianes. Não precisamos perder mais ninguém.
Nós precisamos de justiça. Precisamos de homens “humanos”, não dos animais que nos matam. Precisamos de um Legislativo que realmente trabalhe.
Qual é o medo de aprovar a Lei da Misoginia? E por que, pela Deusa, há deputadas contra?
Ser mulher não é uma tarefa fácil. Somos os pilares das famílias, e o patriarcado só funciona bem quando se trata de violência. Mas nossas conquistas são lentas, e não vamos deixar que nos roubem novamente.
“A emancipação da mulher no Brasil foi construída por marcos legais e sociais fundamentais. Entre eles estão o acesso à educação superior, em 1879; a conquista do voto feminino, em 1932; o Estatuto da Mulher Casada, em 1962; e a criação da Lei Maria da Penha, em 2006.”
Vocês, homens, já se imaginaram vivendo em um mundo em que um homem precisa da autorização de uma mulher para trabalhar “fora”? Já se imaginaram tendo que pedir autorização da esposa para fazer uma vasectomia? Já se imaginaram em um mundo em que homens são estuprados, violentados, abusados e mortos porque as mulheres precisam demonstrar seu poder sobre vocês?
Loucura, não?
Pensem a respeito.
Desde rir da piada machista do amigo até matar uma mulher, o caminho pode ser trilhado por uma mancha de sangue e imagino que ninguém queira um respingo de sangue em seu currículo.
Enfim, vamos parar de criar homens e passar a criar seres sociáveis e conscientes de que não moram sozinhos no mundo e que TODAS precisam ser respeitadas?
Um dia. Um dia, Beyoncé, poderemos te responder sem medo:
“Who runs the world?”
GIRLS!
Abraços,
Richelly Ramos

Richelly Ramos: Nascida e criada em Imbituba. Raízes e alma na terrinha, mesmo o destino levando para longe. Casada, mãe de uma jovem adulta, curiosa, cheia de defeitos, qualidades e opiniões. Imbitubense orgulhosa e feminista. Por que Papo de Boteco? Boteco é uma instituição nacional. Lugar de rir, fazer amizade (já diz o ditado: “Ninguém faz amigo bebendo leite!”), filosofar, opinar sobre até o que não se sabe o que é e, claro, ser antropólogo – estudar a humanidade baseada em fatos – reais ou não – ou seja, só fofocar mesmo.
Isto posto, cachaça de Butiá para quem é de Butiá e água para quem é de água. Sejamos todos felizes! Aproveitem a leitura e espero que gostem.











