Redação e Edição de Vídeo: Érika Reis
O que começou com o desejo de reunir mulheres que já se conheciam, mas quase nunca conseguiam parar para conversar, transformou-se em uma rede formada por 64 integrantes em Imbituba. Criada em 2025, no bairro Boa Vista, a Rede Popular de Cuidado nasceu com a proposta de criar espaços de convivência, escuta, autocuidado e troca de conhecimentos entre mulheres da região.
Ao longo do primeiro ano, o coletivo promoveu quatro atividades abertas ao público e alcançou cerca de 60 pessoas, entre adultos e crianças. Escalda-pés, vaporização uterina, bordado, plantio, ervas e troca de sementes estiveram entre as experiências realizadas. Mais do que oferecer atividades, porém, a iniciativa passou a construir vínculos que continuam mesmo nos períodos em que os encontros deixam de acontecer.
A organização é conduzida por Ariane Rodrigues, Gabriela Giannini e Suelen Santos. Segundo elas, a ideia surgiu de maneira espontânea, a partir da vontade de criar um espaço onde as mulheres pudessem estar juntas com mais tempo e liberdade.
“Cada uma, se consegue ver rapidinho, tudo. Então eu sentia falta disso, desses encontros de troca mesmo. Onde a gente pudesse estar ali, pudesse desabafar, pudesse estar juntas”, conta Ariane.

Foto: Arquivo da Rede Popular de Cuidado
Primeira atividade: Escalda Pés
A primeira atividade da Rede foi uma roda de escalda-pés, realizada em maio de 2025. Depois, vieram uma vivência de vaporização uterina, uma oficina de bordado e um encontro voltado ao plantio e às ervas medicinais. As atividades foram realizadas com preços populares e vagas gratuitas. Em alguns casos, a participação também foi viabilizada por meio de trocas e colaboração entre as próprias participantes.

Foto: Arquivo Rede de Cuidado
Uma rede construída aos poucos
A expansão do grupo surpreendeu até mesmo as organizadoras. Gabriela conta que a adesão aconteceu de forma orgânica, sem uma grande estrutura de divulgação. “Foi uma surpresa para a gente, porque a cada encontro foi uma crescente. Foi tudo muito orgânico, entre nós”, relata.
Com o tempo, a Rede deixou de ser apenas um conjunto de encontros presenciais. Um grupo criado para reunir as participantes passou a funcionar como um ponto permanente de apoio. Mesmo durante meses em que as atividades não puderam ser realizadas, as integrantes permaneceram conectadas.

Foto: Arquivo Rede Popular de Cuidado
Suelen lembra que, quando um novo encontro foi anunciado depois desse período, a reação das participantes mostrou que o vínculo continuava presente.
“Quando eu mando a primeira notícia do café, todo mundo: ‘Que saudade, que bom’. Estava esperando. Estava só esperando”, conta.
Para as organizadoras, esse é um dos principais resultados da iniciativa: a criação de um espaço ao qual as mulheres sabem que podem recorrer quando precisam de ajuda, informação ou simplesmente de alguém para conversar.
“Se eu precisar de alguma coisa, eu vou mandar lá. E vai ter ajuda”, resume Ariane.

Foto: Arquivo Rede Popular de Cuidado
Conhecimentos que circulam
A proposta também passou a estimular que as próprias participantes assumissem o papel de facilitadoras e compartilhassem conhecimentos.
Foi o que aconteceu com Ariane. Ligada ao bordado, ela inicialmente trabalhava com criação e venda de peças, mas nunca havia conduzido uma vivência da atividade. A experiência surgiu dentro da Rede.
Na oficina, realizada em agosto de 2025, as participantes aprenderam os primeiros pontos e, depois de dominar a técnica, começaram a conversar enquanto bordavam.
“Depois que todo mundo já tinha pegado o jeito de fazer, a gente foi se apresentando durante o bordado. Cada uma se apresentando e foi rolando as conversas ali”, lembra.

Foto: Arquivo Rede Popular de Cuidado
Para ela, a experiência abriu uma possibilidade que não estava planejada.
“O bordado foi me levando para esses lugares que não foi planejado. Só foi acontecendo. Me abriu essa possibilidade de criar essas vivências”.
A própria visão sobre o bordado também ganhou novos significados. Ariane conta que, durante muito tempo, a atividade foi associada à ideia de uma tarefa doméstica destinada a manter mulheres dentro de casa. Na Rede, a prática passou a ser trabalhada como expressão criativa e espaço de convivência.
A experiência foi tão significativa que Ariane passou a pensar em novos projetos. Atualmente, trabalha na elaboração de uma proposta para levar o bordado a estudantes do ensino médio, como forma de apresentar possibilidades criativas e de aprendizagem por meio da prática.
Veja a reportagem
Cuidado que também cabe no bolso
Outro princípio que foi sendo construído pela Rede é a tentativa de manter as atividades acessíveis.
No início, as organizadoras estabeleceram valores populares para as vivências, mas perceberam que mesmo uma contribuição considerada baixa poderia impedir algumas mulheres de participar. A solução foi buscar outras formas de troca.
“Uma vinha e limpava, a outra pedia para o marido roçar o terreno, a outra vinha e trazia uma comida para o encontro. A gente foi criando essas estratégias para que ninguém deixasse de participar por conta do dinheiro”, explica Suelen.
A lógica também busca valorizar quem compartilha seu conhecimento. Quando uma facilitadora é convidada, a organização procura garantir uma contrapartida possível, mesmo que pequena, além de cobrir os custos necessários para a realização da atividade.
Para Suelen, a experiência mostra que a circulação de conhecimento pode beneficiar tanto quem participa quanto quem conduz as atividades.
“Eu acho que esse lugar do popular, popularizar o conhecimento também, e ter um valor acessível de troca”, afirma.

Um espaço de acolhimento
Com o crescimento da Rede, o conceito de cuidado também foi se ampliando. Além das atividades relacionadas ao autocuidado, o grupo passou a se tornar um espaço de escuta e apoio entre as participantes.
As organizadoras contam que muitas mulheres procuram umas às outras diretamente para conversar sobre dificuldades pessoais, buscar orientação ou simplesmente serem ouvidas.
Suelen diz que esse acolhimento acontece principalmente de maneira individual, entre as integrantes.
“Todo dia eu falo para a Gabriela: todos os dias eu estou com uma mulher duas, três horas no telefone, videochamada, conversando, escutando”, relata.
Ela ressalta, porém, que a Rede não funciona como uma clínica ou serviço de atendimento. A ideia é construir uma rede de apoio formada pelas próprias participantes.
“É uma rede de afeto nesse sentido, de construir um lugar seguro”, define.

Da rede para outros territórios
A experiência também começou a ultrapassar os limites do Boa Vista. Atualmente, a iniciativa reúne mulheres dos bairros Boa Vista, Roça Grande e Itapirubá, além de participantes de outras cidades da região.
Uma das próximas propostas é a realização de um encontro voltado à população LGBTQIAPN+, pensado como um espaço de acolhimento e escuta para pessoas trans, não binárias e outras integrantes da comunidade.
Outra possibilidade surgiu após a participação de mulheres de Florianópolis em um dos encontros. Uma parteira tradicional que participou da atividade se interessou em levar a experiência para a comunidade onde vive.
Para Suelen, esse movimento representa justamente a característica principal da Rede: cada encontro pode gerar outro.
“Ela saiu motivada daqui. Outras mulheres que vieram daqui também saíram muito fortalecidas daquele encontro. Parece que a gente não está fazendo nada de mais, estamos nos encontrando e nos reunindo, mas essa é a força das mulheres e das comunidades”, afirma.

Foto: Rede Popular de Cuidado
Uma rede que continua mesmo quando ninguém se reúne
Em pouco mais de um ano, a Rede Popular de Cuidado passou por diferentes formatos, reuniu dezenas de mulheres e levou suas atividades para outros espaços. Mas, para as organizadoras, o resultado mais importante não está necessariamente no número de encontros realizados.
Está naquilo que permanece depois deles.
Uma técnica de bordado que passa de uma mulher para outra. Uma muda que é levada para casa. Uma conversa que continua por telefone. Uma participante que decide compartilhar o próprio conhecimento. Um grupo de mensagens que permanece ativo mesmo quando a rotina impede novos encontros.
Ariane resume esse sentimento ao lembrar do período em que as atividades ficaram paradas: apesar do silêncio, ninguém abandonou o grupo.
“Foi criada essa base de segurança. Ninguém sai de lá.”
É nesse espaço entre o encontro e o cotidiano que a Rede pretende continuar crescendo: não necessariamente como uma estrutura formal, mas como uma comunidade em que o conhecimento circula, os vínculos permanecem e uma mulher pode encontrar outra quando precisar.

Foto: Érika Reis










