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Érika dos Reis

ESPECIAL DIA DAS MÃES: Com muito amor em outra frequência, mães solos autistas e de filhos autistas revelam os desafios da maternidade atípica

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Por Érika dos Reis / Imagens e Edição de Vídeo: Leandro Silveira

O Dia das Mães não é, ou não era para ser, somente uma data comercial, pois é essencial para lembrarmos da importância que essas mulheres têm na vida de cada membro da família. Além do fato de serem mães, elas carregam também dificuldades, inseguranças e lutam pelos direitos e pela felicidade dos seus filhos e, muitas vezes, de toda sua família. Quase sempre acabam deixando de cuidar de si mesmas enquanto sustentam suas proles.

E nesta dia tão especial, celebrado aos segundos domingos de maio, conversamos com dois exemplos claros e especiais destes alicerces em Imbituba: o primeiro é uma mãe solo de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e também é afetada pela condição, e o segundo trata-se de uma própria mãe autista. São os casos de Viviane Alves, de 45 anos, e de Silvia Cristina Serão, de 53. Elas enfrentam, diariamente, os percalços da maternidade atípica e as particularidades de uma vida com o espectro.

Maternidade atípica

Viviane é mãe solo do pequeno Lorenzo, um menino que foi diagnosticado aos 4 anos com o TEA, nível 1 de suporte e com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Moradora do bairro Sagrada Família, e com o apoio de sua mãe Josefa, e de sua filha mais velha, Raiane, ela consegue superar cada barreira de uma maternidade atípica.

“Quando eu descobri que ele era autista, com 4 anos, fiquei confusa, com medo, com vários sentimentos. Ele não falava, também não comia nada, ele só brincava de enfileirar os brinquedos. A gente o levou no médico e aí ficou constatado o autismo”, lembra Viviane.

Ela conta que ao descobrir que o filho era neurodivergente, o pai teve resistência em aceitar a condição e decidiu se separar dela: “Ele não aceitou o autismo do Lorenzo”. Apesar disso, ela não desistiu. “É difícil, bem difícil. Esta semana recebi um chamado na escola dizendo que ele tinha mordido a professora”, destaca. Em outro momento, ele ainda mordeu a avó na perna, por conta de uma crise nervosa, característica do espectro.

Josefa, Lorenzo e Viviane na Caminhada pelo Autismo de Imbituba

Mesmo com os medicamentos e as terapias da Associação de Amigos dos Autistas de Imbituba, que agora estão reduzidas a uma vez na semana, a família acaba passando mais trabalho com a criança.

“Eu me sinto feliz por ter ele, mas também um pouco cansada, esgotada. A minha sorte é a minha mãe e a minha filha, que me ajudam muito. Mas, apesar disso, me sinto muito feliz, porque se Deus me deu ele, é porque Deus me deu a missão de ter ele, cuidar dele“, destaca.

Vínculo e conexão entre mãe e filho

Apesar dos desafios, Viviane conta que os momentos mais simples são os que mais fortalecem o vínculo entre ela e o filho. “De felicidade assim é quando a gente passeia, vai à praia com ele, no parquinho, vai tomar um sorvete com ele, que ele gosta. Quando a gente brinca com ele assim, aí sim, é um momento de felicidade”, relata, emocionada.

A mãe do menino autista também afirma que existe uma conexão entre eles que poucas pessoas conseguem compreender. “Muitas vezes quando ele tá em crise, tanto eu quanto a minha mãe, a avó dele, abraça ele, ele se acalma. Muita gente não entende isso, quando a gente olha na cabecinha dele, ele também se acalma”, explica. Segundo Viviane, essa ligação vem desde a gestação. “É uma conexão desde a minha barriga. Ele é muito forte comigo e com a avó, que a avó sempre esteve por perto, né? E a mana também”.

Viviane e a filha Raiane comemorando o aniversário de Lorenzo

A avó, Josefa, conta que ele tem uma forte conexão com a irmã também, sentindo inclusive ciúmes dela com o namorado. Mas conta também que a maior dificuldade que elas enfrentam é justamente o fato de ir atrás das terapias, sendo que muitas delas são pagas. Por já ser idosa e com limitações físicas, ela ajuda a filha do jeito que pode: cuidando do neto, fazendo algumas tarefas de casa, entre outras atividades leves.

“Hoje eu estou aqui, amanhã eu não sei, porque eu tenho problema de coração… Então, a gente nunca sabe… Mas eu vou levando do jeito que Deus quer. E a gente segue em frente… Eu faço muita oração pra ele…. Eu sou católica, muito católica, e a gente vai indo aí, na luta”, explica.

Josefa e Lorenzo na formatura da creche

Mesmo com todas essas questões complicadas, Viviane, Josefa e a própria Raiane são fortes exemplos de mulheres que seguem unidas na missão de acolher, cuidar e lutar diariamente pelo bem-estar de Lorenzo. Entre desafios, crises, inseguranças e momentos de cansaço, elas encontram no amor, na paciência e na conexão construída dentro de casa a força necessária para continuar enfrentando a realidade da maternidade atípica.

Veja a história de Viviane

Silvia Cristina, uma mãe atípica

A moradora do bairro São Tomás, Silvia Cristina é uma mãe que, aos 38 anos de idade descobriu que era autista através de exames de fertilidade, para verificar se era a melhor hora para ter um filho, já que os outros dois já eram adultos.

“Eu estava na condição e no lugar certo para ter o Mateus, meu mais novo. Então eu estava sondando para ver se ainda era possível”, relata Silvia.

Silvia na formatura do Ensino Fundamental de seu filho Mateus

Após alguns exames, foi diagnosticado o TEA (na época, ainda era conhecido como Síndrome de Asperger, que hoje equivale ao autismo de nível 1 de suporte). Ao receber o laudo, Silvia entendeu muitas coisas do comportamento e manias dela.

“A minha cabeça é um turbilhão. Tudo para mim é mil. Se eu tô brava, se eu tô triste, é tudo mais intenso. A dor é mais forte”, conta. “Eu não sou muito de aglomeração. Me dou bem com bebês e animais porque são mais silenciosos. Então, cada um com seu mundo, mas é um mundo que se conecta”.

Segundo ela, a maternidade sempre foi um sonho realizado, mas a experiência com o filho mais novo foi diferente, já que conseguiu acompanhar mais de perto o crescimento dele. “Esse meu último foi melhor, porque eu só tinha ele. Eu pude curtir mais ele, ver ele crescer. Os outros eu tinha que trabalhar”, lembra. “Se eu pudesse, fazia tudo de novo”.

Izadora e Stella, filhas mais velha e do meio de Silvia

Mesmo convivendo com algumas limitações sensoriais e emocionais causadas pelo autismo, Silvia afirma que sempre encontrou conforto na convivência com crianças. Ela explica que o excesso de barulho, desorganização e aglomerações costumam deixá-la sobrecarregada, principalmente dentro de casa.

“Eu enlouqueço muito com desorganização e sujeira. Não consigo ver areia dentro de casa, na cama. Isso me irrita muito”, comenta. “Mas eu gosto de cozinhar, gosto de lavar roupa, gosto de fazer as tarefas domésticas. O problema é quando tudo sobra para uma pessoa só”, reclama, mas com bom humor.

Izadora, filha de Silvia

Apesar das dificuldades, Silvia procura enxergar a vida de maneira leve e sincera. Para ela, honestidade é uma das coisas mais importantes nas relações humanas.

“O certo e o errado me bugam muito. O que mais me deixa feliz é ser receptiva com qualquer pessoa, qualquer ser vivo. Seja grande, pequeno, uma joaninha, um besourinho, é uma vida. E eu amo viver”, revela emocionada.

Um diálogo além das palavras

A conexão com Mateus também chama a atenção de quem convive com os dois. Segundo Silvia, muitas vezes eles conseguem se entender apenas com olhares, pequenos gestos ou poucas palavras.

“As pessoas falam muito isso: ‘eu não entendo vocês dois’. Mas a gente se entende. Até hoje temos esse diálogo de bebê, esse diálogo secreto. Um olhar, um ‘ai’, um gesto, e a gente já sabe o que o outro quer dizer”, explica.

Ela acredita que essa comunicação mais sensível acontece porque os bebês se conectam muito através do toque, das expressões e das sensações, algo que ela sente de forma muito intensa por conta do autismo.

No fim da entrevista, Silvia também deixou uma mensagem para outras mães autistas e mães solo, reforçando que um diagnóstico não define a capacidade de ninguém.

“Nada é impossível. A gente é tão normal quanto qualquer outra pessoa. Todo mundo tem limitações. Eu descobri meu autismo aos 38 anos, depois de casar e criar meus filhos. Então, eu digo: foquem no que precisa ser feito e sigam vivendo. A gente é capaz”, finaliza.

A força por trás da maternidade atípica

Mesmo com rotinas cansativas, limitações, inseguranças e desafios diários, Viviane, Josefa e Silvia seguem encontrando forças no amor pelos filhos e na conexão construída dentro de casa.

Entre crises, terapias, olhares silenciosos e pequenos momentos de felicidade, elas representam tantas outras mães que vivem a maternidade atípica longe dos holofotes, mas com coragem, sensibilidade e dedicação todos os dias.

Neste Dia das Mães, mais do que homenagens, histórias como essas reforçam a importância do acolhimento, da empatia e do apoio às mulheres que transformam cuidado em resistência.

De toda a equipe do Portal AHora, um Feliz Dia das Mães a todos os tipos de mães: atípicas, convencionais, solo, adotivas, avós que também são mães, mães de coração e todas aquelas que transformam amor, cuidado e força em presença diária na vida de seus filhos.

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