
Ei, pilotos de sofá, cola no cinto que o TiozãoF1 está abrindo o coração no quadro MINHAS CORRIDAS HISTÓRICAS, vamos te levar de volta para 1993, para o GP da Europa no circuito de Donington Park.
O relógio de parede na sala de estar marcava pouco mais de oito da manhã, mas para o pequeno Tiozão, de apenas treze anos, o tempo parecia ter parado. O domingo não era um dia comum, era um dia de Fórmula 1. Ele estava sentado de pernas cruzadas, a menos de um metro da televisão, na tela, as imagens começavam a ganhar forma e cor, revelando o asfalto encharcado e o céu cinzento de Donington Park, na Inglaterra. Era o dia do GP da Europa, um evento que ficaria gravado para sempre na memória do garoto e nos anais da história do automobilismo.
Tiozão usava uma camiseta gasta, que um dia fora branca, mas que agora ostentava com orgulho um capacete amarelo. Aquele capacete era o seu escudo, sua bandeira e sua crença. Pertencia a Ayrton Senna, o herói que fazia o coração do menino bater no ritmo dos motores V8 e V12. Para Tiozão, Senna não era apenas um piloto, era uma entidade quase mítica, um super-herói de carne, osso e fibra de carbono que desafiava a lógica e a física em cada curva.
O cenário em Donington Park era desolador para a maioria, mas para Tiozão, a chuva era um sinal de esperança. Ele sabia, com a intuição pura que apenas as crianças e os fanáticos possuem, que quando o céu chorava, seu ídolo sorria. A temporada vinha sendo dominada pelas imbatíveis Williams, máquinas que pareciam ter vindo do futuro, repletas de eletrônica e suspensões ativas. Alain Prost e Damon Hill eram os senhores do asfalto seco. A McLaren de Senna, por outro lado, era valente, mas tecnicamente inferior. Contudo, a água que caía sobre a pista inglesa era o grande equalizador. A chuva lavava a vantagem tecnológica e deixava exposta apenas a alma, a coragem e o talento puro de quem segurava o volante.
A voz do narrador na televisão transbordava tensão e os carros alinhavam-se no grid de largada. A cortina de água levantada pelos pneus nos treinos de aquecimento já prenunciava o caos, Tiozão fechou os olhos por um segundo, fazendo uma prece silenciosa que misturava fé infantil e paixão esportiva. “Vai, Beco”, sussurrou ele, usando o apelido carinhoso que ouvira em alguma reportagem e adotara como se fosse um amigo íntimo da família.
As luzes vermelhas acenderam e o ronco dos motores invadiu a sala de estar, fazendo vibrar os vidros da janela, Tiozão prendeu a respiração e a luz verde apareceu, foi largada foi dada.
O coração do menino despencou, a McLaren número 8 tracionou mal e Senna, que largara em quarto, foi espremido por Michael Schumacher e caiu para a quinta posição. A frustração ameaçou tomar conta de Tiozão, “Não, não, não”, murmurou ele, aproximando-se ainda mais da tela, como se pudesse empurrar o carro vermelho e branco com a força do seu pensamento. A pista estava traiçoeira, uma pista de patinação onde qualquer erro milimétrico significaria o fim da corrida contra o muro de proteção ou caixa de brita.
Mas o que se seguiu nos próximos minutos foi algo que Tiozão jamais esqueceria, poesia em movimento, uma sinfonia de controle absoluto sobre o caos, a volta que os deuses do automobilismo desceram à Terra para assistir.
Ainda na primeira curva, Senna mergulhou por dentro, com uma precisão cirúrgica, ele retomou a quarta posição de Schumacher. Tiozão deu um pulo do chão, os olhos do menino brilhavam, refletindo a luz da TV. O jovem alemão da Benetton não teve sequer tempo de reagir, Senna simplesmente encontrou aderência onde não havia nada além de água e perigo.
A caçada havia começado o próximo alvo era Karl Wendlinger, Sauber, na descida para as curvas em um trecho de altíssima velocidade e coragem cega, Senna posicionou sua McLaren por fora em um movimento impossível que ninguém ultrapassava por fora na chuva em uma curva de alta velocidade exceto o ídolo de Tiozão. O carro deslizou suavemente, dançando no limite da física, e tomou a terceira posição. O menino soltou um grito contido, com medo de acordar a mãe que ainda dormia, mas a energia dentro dele era a de um estádio lotado.

A chuva continuava a castigar Donington Park, mas na sala de estar do Tiozão, o sol parecia brilhar. Agora, restavam apenas as duas Williams, Damon Hill estava logo à frente, na curva McLean’s, Senna jogou o carro para o lado de dentro, foi um bote rápido, limpo, letal. Hill foi deixado para traz como se estivesse em uma categoria inferior, Tiozão já estava de pé e seu pensamento gritando. “Falta um! Falta um!”, com os olhos fixos no capacete amarelo que cortava a névoa d’água como um farol de esperança.
A chuva continuava a castigar Donington Park, mas na sala de estar do Tiozão, o sol parecia brilhar. Agora, restavam apenas as duas Williams, Damon Hill estava logo à frente, na curva McLean’s, Senna jogou o carro para o lado de dentro, foi um bote rápido, limpo, letal. Hill foi deixado para traz como se estivesse em uma categoria inferior, Tiozão já estava de pé e seu pensamento gritando. “Falta um! Falta um!”, com os olhos fixos no capacete amarelo que cortava a névoa d’água como um farol de esperança.
O líder era Alain Prost, o eterno rival, o “Professor”, rivalidade entre os dois era a força motriz da Fórmula 1 naqueles anos e para Tiozão, Prost era o vilão perfeito da sua história em quadrinhos dominical. A aproximação foi vertiginosa, no grampo Melbourne, a penúltima curva antes do fim da primeira volta, Senna não hesitou. Ele mergulhou por dentro de Prost com uma autoridade que beirava a insolência. O francês não pôde fazer nada além de assistir à McLaren assumir a liderança.
Em menos de uma volta, sob condições torrenciais, Ayrton Senna havia caído para quinto e ultrapassado quatro dos melhores pilotos do mundo para assumir a ponta. Tiozão explodiu em uma comemoração silenciosa, ele havia acabado de testemunhar o que o mundo mais tarde chamaria de “A Volta dos Deuses”.
O clima em Donington Park era bipolar, alternando entre chuva forte e pista secando, enquanto os outros pilotos entravam em pânico, parando nos boxes inúmeras vezes, Prost chegou a fazer sete pit stops, Senna parecia ler o céu, sentia a pista através do volante, comunicando-se com o asfalto em uma linguagem que só ele entendia. A cada volta, vantagem aumentava, cada manobra, Tiozão sentia um orgulho indescritível, uma conexão profunda com aquele esporte que moldava seus domingos.

Houve momentos de pura genialidade tática em uma das passagens, Senna entrou no pit lane, acelerou por dentro dos boxes, na época não tinham limite de velocidade e marcou a volta mais rápida da corrida. Foi um drible nas regras, uma demonstração de astúcia que fez Tiozão rir alto, maravilhado com a inteligência do seu ídolo.
As horas passaram, mas para o menino, pareceram minutos e quando a bandeira quadriculada finalmente foi agitada, Ayrton Senna cruzou a linha de chegada com mais de um minuto de vantagem sobre o segundo colocado, Damon Hill. Prost, o terceiro, havia tomado uma volta, foi uma humilhação esportiva, uma vitória tão acachapante que redefiniu os padrões de excelência no automobilismo.
Naquela sala de estar, com a televisão ainda zumbindo e o som do hino nacional brasileiro começando a tocar, Tiozão sentou-se no sofá, exausto e imensamente feliz.

Ele viu Senna erguer o troféu, exausto, quase sem forças para levantar a taça, mas com um sorriso que irradiava a satisfação do dever cumprido. O menino olhou para a própria camiseta, tocou o capacete amarelo desbotado e sentiu que, de alguma forma, ele também fazia parte daquela vitória.
Aquele GP da Europa não foi apenas mais uma corrida de Fórmula 1, foi uma aula magistral de superação, um testemunho de que o fator humano ainda é a variável mais poderosa em um esporte dominado por máquinas. Para Tiozão, e para milhões de outros fãs ao redor do mundo, aquela manhã em Donington Park cristalizou a lenda de Ayrton Senna. Ensinou a um menino de treze anos que não importa o quanto forte seja a tempestade ou quanto poderosos sejam os adversários, coragem, habilidade e a fé inabalável em si mesmo podem fazer o impossível acontecer.
Aquele GP da Europa não foi apenas mais uma corrida de Fórmula 1, foi uma aula magistral de superação, um testemunho de que o fator humano ainda é a variável mais poderosa em um esporte dominado por máquinas. Para Tiozão, e para milhões de outros fãs ao redor do mundo, aquela manhã em Donington Park cristalizou a lenda de Ayrton Senna. Ensinou a um menino de treze anos que não importa o quanto forte seja a tempestade ou quanto poderosos sejam os adversários, coragem, habilidade e a fé inabalável em si mesmo podem fazer o impossível acontecer.
Pilotos de sofá, qual sua memória mais louca de corridas na chuva? Me conta nos comentários, que o circo está armado!
Autor: F1 Tiozão – “Pit stop de notícias, sem enrolação.”

SOBRE O COLUNISTA
Fillipe Miranda é o TiozãoF1 — fã de Fórmula 1 há quase quatro décadas, engenheiro civil e comentarista de arquibancada raiz. Na coluna TiozãoF1, traz resumo do que importa, contexto, opinião e zoeira responsável sobre a F1. Um verdadeiro pit stop de notícias, sem enrolação. TiozãoF1 com notícias antes das corridas (aquecimento) e pós corridas (resumo + polêmicas). Sem enrolação, só adrenalina!











