Existem várias versões para o Dia das Mães. A maioria comercial e como já vamos receber presentes mesmo… Tratemos da maternagem nossa do dia a dia.
Uma vez anunciada a gravidez, viramos santas endeusadas por conhecidos e desconhecidos. E são várias mãos sendo passadas em nossas barrigas: “Ai, que barriga linda! Benza, Deus!”. E é medição da barriga para ver se é menino ou menina, mandingas, bençãos e tudo que pode ajudar a mãe a se agarrar na Nossa Senhora da Boa Hora e, enfim, ter seu parto “quiabo” (aquele em que a contração parece um espirro de tão fraca, e o bebê já aparece no próximo espirro, deslizando feito um quiabo. Um sonho, não?).
Mas e depois de parido? Aí que o bicho pega. O filho, que é neto, e a mãe que é filha choram, e a mãe, no caso avó, não vê.
Esqueçamos a maternidade e mãezinhas do Instagram, pois lá todas moram no condomínio cor de rosa da Barbie. Aliás, vamos abandonar o termo mãezinha. Somos Mães. Com um enorme “M” maiúsculo.
Mãe é um bicho “foda” (com as devidas desculpas já que nada nos define tão bem). E criar filho é como jogar uma eterna partida de Pac-man (sim, sou velha, lembro quando o icônico jogo do Atari foi lançado).
Quando o filho nasce, somos jogadas, impiedosamente, no mundo de cólicas, fraldas, fome intermináveis e a cobrança: “não é o amor mais puro do mundo?”. Perfeito, quando não está chorando, de fralda limpa e dormindo por mais de 1 hora.
Mas, isso de amor mais profundo do mundo é algo que não acontece de imediato com todas as mulheres, como nos é praticamente cobrado assim que o cordão umbilical é cortado. Claro que já existe um amor, mas um amor diferente. Amamos o ato de gerar, de sentir alguém crescer dentro de nós e é difícil diferenciar o amor de durante a gestação do “amor mais puro do mundo” pós-nascimento.
Após o nascimento, ama-se o filho, mas é um amor de convivência, de conhecimento, de pequenos gestos dos dois porque, apesar dos nove meses juntos, sem se conhecerem, a mãe também está vivendo um momento novo, completamente confuso e cheio de emoções diferentes. É um amor de um conhecer o outro, sem cobranças. E está tudo bem o amor começar assim. Eu sou daquelas que foi aprendendo a amar com o tempo e me sentia culpada por isso. Tive algo chamado “baby blues”, é uma tristeza, um choro sem razão. Eu amamentava minha filha em lágrimas porque eu ainda não a amava como a moça da propaganda do O Boticário falava que deveria ser. Mas passa. O amor vem, sem cobranças, incondicional, puro e gentil como o amor deve ser.
Outro ponto muito importante para uma mulher, mãe ou não, foi o que aconteceu há algumas semanas em um programa de tv, durante uma discussão entre duas mulheres, quando foi falado que uma mulher só é plena se tiver um filho. A sociedade é cruel com mulheres. A felicidade da mulher não está ligada à maternidade, mas no que a mulher pode conquistar e quer conquistar. E dentre as conquistas, se for de sua vontade, a maternidade. Mãe é uma das infinitas coisas que uma mulher pode ser ao mesmo tempo.
Existem milhões de mulheres que não podem engravidar por inúmeros fatores, outras que, simplesmente, não querem filhos e, mesmo assim, podem se sentir realizadas em suas vidas. Inclusive, por vezes mais realizadas que uma mulher com filhos.
A fala foi cruel, sem sensibilidade alguma e algo que jamais deveria ter sido falado para uma mulher, principalmente, vindo de outra mulher.
Agora as partes mais práticas: vamos falar dos maridos, companheiros e afins. Ô, meus senhores… Que pane dá em vossas cabecinhas que vocês viram mais bebê que o próprio bebê? “Ah, mas eu não sou assim!”. Parabéns! És um em um milhão. Vou tentar explicar de maneira simples: depois que o papai e a mamãe namoraram e a mamãe fica grávida com a bolinha mágica que o papai colocou na mamãe, a mãe e os hormônios entram em surto, faltam uns, sobram outros… Olha, é uma loucura que dura 9 meses, depois mais 1 ou 2 anos.
Biologicamente, neste momento, a mãe é preparada para cuidar da cria e só. Maridos precisam entender isso, aliás, não só entender, mas também e, principalmente, lembrar que pai não é só um título e assumir os cuidados do bebê junto com a mãe.
A cabeça de uma mãe recém parida é um lugar estranho: a gente acha que o bebê vai morrer dormindo e passa a noite espiando o bebê (eu tenho medo de babá eletrônica, não me arrisquei a ver um fantasma no quarto da filha e carregava a criança para minha cama), do nada a gente cutuca a cria só para ver se ela chora e ter certeza de que está tudo bem… Isso sem conseguir escovar os dentes e tomar um banho decente há uns 3 dias.
Como vocês, senhores pais, acham que uma pessoa com esse nível de estresse e loucura vai ter condições para um chameguinho? Vamos nos contentar com uma conchinha de leve, com paradas para amamentar o bebê a cada três horas?
Agora dicas práticas da experiente tia Richelly para mães que recentemente tiveram filho:
Conselhos: faça o pinguim de Madagascar: acene e sorria. Filtre os que te fazem sentido e coloque os outros naquele quartinho cheio de cacarecos que temos no cérebro.
Óleo de rícino: Por mais que seja tradição na tua família e a tua vó faça uma ligação “Imbitubinha-Errejota” para mandar tu oferecer meia colher de chá de óleo para uma criança de 7 dias, não faça. Não é pecado desobedecer a tua avó num momento assim.
Café no umbigo: jamais!
Visitas: (como eu agradeço por morar longe, e não ter visita no puerpério).
Para o grupo doravante denominados visitantes, as regras são rápidas e fáceis: se não for para levar o almoço ou o jantar, dar um tapa na casa, cuidar do bebê para a mãe tomar um longo banho e fazer cocô (juro, dá saudade de fazer cocô quando se tem filho pequeno), cuidar do bebê enquanto a mãe tira um cochilo, não vá.
Visita que vai só para visitar, pode ir depois de 3 meses.
Ah, e obedeça ao pedido das mães: álcool, máscara, pular amarelinha, qualquer coisa que aquela mulher pedir para evitar que seu filho espirre.
E o principal: o presente do Dia das Mães.
Utensílios para casa não são presentes e flor é complemento, não conta como presente.
Espero ter ajudado.
Feliz Dia das Mães e sejamos todos felizes!
Richelly Ramos
Eu dedico este texto a Kiany, uma mãe que aqui representa todas as mães de UTI, a dedicação de vocês é sobre-humana e a todas as milhares de mães solo que criam o filho sem a ajuda do genitor.
SOBRE A COLUNISTA

Richelly Ramos: Nascida e criada em Imbituba. Raízes e alma na terrinha, mesmo o destino levando para longe. Casada, mãe de uma jovem adulta, curiosa, cheia de defeitos, qualidades e opiniões. Imbitubense orgulhosa e feminista. Por que Papo de Boteco? Boteco é uma instituição nacional. Lugar de rir, fazer amizade (já diz o ditado: “Ninguém faz amigo bebendo leite!”), filosofar, opinar sobre até o que não se sabe o que é e, claro, ser antropólogo – estudar a humanidade baseada em fatos – reais ou não – ou seja, só fofocar mesmo.
Isto posto, cachaça de Butiá para quem é de Butiá e água para quem é de água. Sejamos todos felizes! Aproveitem a leitura e espero que gostem.










