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O SURF QUE ABRAÇA GAROPABA: Duas décadas com orgulho de ser a Capital Catarinense do Surf

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Seja qual for a estação do ano, todo dia é dia de surf em Garopaba. A cidade é abençoada por condições geográficas e climáticas que a destacam entre outras do Litoral Sul do Brasil. Com qualidade e constância de ondas,  oito praias banham a costa do município, que celebra 20 anos de Capital Catarinense do Surf, nesta segunda-feira (22). Um título conquistado em 2004, de uma história que começa em 1974, com a compra da primeira prancha. Na época em que Garopaba era mais uma vila de pescadores, comerciantes e agricultores, por onde Djalme Ignacio da silva filho passava com ela debaixo do braço, chamava atenção.

“Na casa onde eu morava dava pra ver o mar. Acordava e “expiava” o tempo. Tinha Vento Sul fraquinho. Já me jogava. Sem tomar café. Não chamava ninguém, mas não tinha jeito. Todo mundo vinha atrás. Gente que eu nem conhecia. Uns 20″, relembra. E no corpo, não havia proteção, roupa de neoprene de última geração. “Dia de sol e dia de frio, a gente ficava sem camisa. E sem short também, pelado, pra não molhar o short, e voltar com ele seco”. No fim do banho, uma coisa era certa. “Comer muita banana, pão e leite moça na padaria do Seu Jaci. Ah! E tomava pó de guaraná, pra dar uma segurada”, completa. 

A prancha que os rapazes usavam era uma Gledson e não custou quase nada. “Eu namorava a prima do rapaz que fez. Aí foi barbada!”, conta Djalme. O preço maior pagou na estrada. “Fui buscar a prancha em Imbituba com uns amigos. Só que eles tomaram um p****.  O mais aquele carro balançava!”. Um outro desafio foi conseguir o leash e a parafina. Não tinha loja que vendia em Garopaba. A solução era conseguir na capital Florianópolis, ou pedir para os turistas, na maioria das vezes hippies e surfistas. E sabe o que foi fácil? Surfar. Os rapazes já tinham a “manha”, a ideia do equilíbrio, pois antes da prancha usavam  a tal da estiva. “São os paus que colocam pra puxar os barcos”.

O primeiro sleeve feito à mão 

Dr. Morongo 

E foi assim, na década de 70,  que o surf surgiu na vida dos nativos. Entretanto, as altas ondas já atraíam a atenção de Garopaba afora. Além da comunidade local, quem vinha e ia se estabelecendo como novos moradores eram, em boa parte, surfistas. No tempo da luz de lampião e das estradas de chão, primeiro chegaram os gaúchos. Entre eles, Marcos Aurélio Raimundo, o Morongo – o primeiro médico do município. Quando chegou, havia recém se formado, e uma anemia assolava o povo garopabense. No consultório à beira-mar,  salvou muita gente, de jaleco e pé descalço. Não cobrava dinheiro, ganhava peixe.  No tempo livre, surf! Um dos pioneiros na Praia do Silveira.  

Depois de alguns anos em Garopaba, Morongo percebeu que as melhores ondas eram no inverno.  Todavia, o frio o incomodava. Nem com pó de guaraná aquele mar aguentava.  Aí lembrou de umas roupas que usou quando foi instrutor de mergulho, na Argentina. Não pensou duas vezes. Deu uma pausa nos atendimentos como médico, e foi até o país vizinho de carro buscar neoprene. De forma artesanal, costurou o primeiro sleeve à mão. Funcionou! Para ele, e para dezenas, centenas e milhares de outros surfistas. “Vi que aquilo poderia gerar emprego, o que ajudaria no desenvolvimento do vilarejo”. Em 1979, nasce em Garopaba a primeira empresa de roupas de neoprene no Brasil: a Mormaii. 

Desenvolvendo uma surf city 


Então, a partir da década de 80, nativos e novos moradores da cidade encontraram na indústria um novo caminho para sustentar a vida como surfista. O gaúcho Tales Hartmann é um deles. Em 1983, com 15 anos, chegou em Garopaba para surfar. “Vim para pegar onda, mas acabei me matriculando sozinho na escola. Liguei pra casa dos meus pais e avisei que não ia voltar”. A saudosa mãe foi lhe visitar. “Onde será que esse guri se meteu?”. E a Dona Edir se surpreendeu. “Consegui um trabalho com o Morongo. Ela viu eu estudando e trabalhando”. E já fazem 40 anos que o surfista encontrou morada em Garopaba, tornou-se até um empresário do ramo. 

Em 1986, a Associação de Surf de Garopaba (ASG) foi fundada.  “Trouxe a revelação de atletas em escala, do  municipal ao mundial, e continua sendo uma das bases na realização de competições e acordos com pescadores”, destaca um dos fundadores, Ricardo Sefton. Com mais representatividade e organização, Garopaba se consolidava, cada dia mais, como uma surf city. Novos moradores do município chegaram para engatar no empreendedorismo. As oportunidades de trabalho aumentaram, e a infraestrutura também evoluiu. Tinha indústria, lojas, hospedagem, alimentação – e claro, altas ondas! Graças ao surf e à beleza paradisíaca das praias, o turismo se tornou a nova fonte de renda de Garopaba, que viu um “boom” de crescimento a partir da década de 90. 

O título

Em 1988, a entrada de um swell trouxe uma direita de até 4 metros de altura na Praia do Silveira, bem na janela do campeonato da Mormaii, que integrou o Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Foi de arrepiar! Garopaba ficou nos olhos do Brasil na disputa que foi televisionada para todo o país, pelo Jornal Nacional e no Esporte Espetacular. Naquele mar, nem todos se arriscaram, ou sequer se molharam. Para se ter ideia, Teco Padaratz, atual presidente da Confederação Brasileira de Surf, na época estava entre os competidores naquele que poderia ter sido a última bateria da vida. Quando ia tentar chegar no outside pelas pedras, a cordinha enroscou no fundo. Não deu outra. Levou na cabeça uma série sinistra. Netuno rogou por ele, que sobreviveu com muito esforço. 

O Silveira ainda foi palco de outro espetáculo: o World Championship Tour (WCT) Brasil, em 2003. Nomes da elite mundial como Andy Irons, Kelly Slater, Peterson Rosa,Taj Burrow e Taylor Knox quebraram as valas na competição que reuniu centenas de espectadores.  Um marco na história do surf garopabense. Uma disputa crucial para Garopaba receber, em 2004, o título de Capital Catarinense do Surf. Superou cidades como Florianópolis e Imbituba que também cobiçaram a conquista. O reconhecimento aconteceu na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), no dia 22 de janeiro daquele ano. “Quando a lei foi aprovada, fizemos uma algazarra. Pulamos. Dançamos. A comunidade que é ligada ao surf comemorou demais”, recorda o então secretário de Esportes e Turismo, Marcos Roberto Pacheco.

Fortalecimento do protagonismo feminino 

As mulheres no (do) surf vem firme! Mais tardiamente, despontaram também no cenário municipal, estadual, nacional e mundial. De forma recreativa e competitiva, em todas as modalidades. Tem longboard, bodyboard até o clássico shortboard. Em 2023, a Associação de Surf Feminino de Garopaba (ASFG) foi fundada, com o objetivo de fortalecer o cenário do esporte. “A gente tem encontrado as portas abertas de patrocinadores e apoiadores”, afirma a presidente da ASFG, Fernanda Espíndola. Mas alguns desafios ainda continuam. “No mar, os homens ainda não são muito cavaleiros. Já foi pior. Hoje em dia está melhorando, mas ainda continua bem difícil”. Respeito dentro e fora do outside. É isso que elas querem. 

Big Surf 

Ondas gigantes - Luizinho

De um beco no Centro Histórico de Garopaba para o mundo. O big rider Luiz Henrique da Silva, o  Luizinho, foi o primeiro nativo garopabense a encarar as ondas gigantes de Nazaré. O lugar tem um point break sinistro, que requer algo para além da técnica e habilidade. É necessário muita coragem para encarar na remada o Everest do Oceano  “A maior onda que já surfei tem 15 metros, 50 pés. É surf sem jetski. Surreal”. . Ano após ano o surfista se prepara para o inesperado. Mesmo com capacete, preparo físico e colete de cilindro, o big surf continua sendo um dos mais arriscados. Diante das variáveis, a maior e melhor escolha de Luizinho é no quintal de casa: a Laje do Silveira. “E claro muita conexão com o mar, porque lá debaixo d’água só isso e a fé em Deus podem te salvar”. 

Surf adaptado 

SURF ADAPTADO 

Seria possível surfar sem os pés? É o que Paulo Renato tem a nos ensinar. Surfista da Praia do Ouvidor, o paratleta é o protagonista do Surf deitado em Garopaba. Paulo conheceu a modalidade no processo de reabilitação, após sofrer um acidente e ficar paraplégico, em 2010. A benção foi encontrar o esporte no meio do caminho. “Experimentei a sensação de surfar e nunca mais parei”.  Não que seja fácil. “Até hoje é desafiador entrar no mar sozinho para pegar ondas na minha condição”. Mas não tem obstáculo que ele não esteja disposto a enfrentar. É movido pela coragem de quem sabe onde quer chegar. “Não há limitações para quem aprendeu a se adaptar”. 

Paulo diz que o surf adaptado é um esporte que cresce a cada ano. “Está na pauta para virar um esporte Paraolímpico”. Para realizar o sonho de ser campeão brasileiro, e chegar no mundial, o ambiente municipal precisa se tornar mais acessível. “Com certeza esse é o lugar certo para evoluir. Nós temos ondas, uma rotina de treino, mas precisamos de mais atenção”. Ações que direcionam o município para mais inclusão. “Estamos estudando caminhos e projetos para tornar as praias de Garopaba mais acessíveis, e assim proporcionar o primeiro contato das pessoas com deficiência com a modalidade. Queremos nos tornar, também, a Capital Catarinense do Surf Adaptado”, garante o diretor de Esportes do Governo de Garopaba, Vitor Hugo. 

Para além das ondas

O surf não é só na água, em Garopaba. Através do desenvolvimento dos potenciais humanos, o desejo é que todos os cidadãos possam se experimentar na modalidade e, assim, se tornarem mais conscientes e atuantes no cuidado e preservação de tudo que pulsa na cidade. Essa é a missão do projeto Ser Humano Surf. “Nossa intenção é tornar o movimento da vida no surf cada vez mais acessível e natural na cidade”, revela uma das idealizadoras Kalinka Moz Silveira. É mais que uma rotina. São momentos de presença plena, convivência, cultura e educação. “Queremos despertar a curiosidade de mundo, o fortalecimento das relações e estimular o autoconhecimento das crianças, jovens e suas famílias, e desta forma, reforçar um espírito comunitário onde o cuidado com a saúde física, mental e das relações sejam o caminho para uma vida com mais sentido”, explica.

E no caminho para além das ondas, há ainda a preservação do meio ambiente. A ONG Eco Garopaba descobriu uma maneira de retirar o lixo das praias e incentivar a prática de esportes: confeccionar pranchas de surf a partir de garrafas PET. Por meio de palestras e oficinas, os idealizadores  Carolina Scorsin e Jairo Lumertz têm atravessado as fronteiras de Garopaba e levado a ideia para todo país. São iniciativas assim, que empreendem socialmente, que trazem a essência do surf em um outro tipo de swell: que enriquece o ser para se tornar ainda mais vivo e consciente. 

Garopaba abraça o surf

Praia da Ferrugem - Acervo Djalme 

Desenhos em ondas. Ondas que desenham. O toque do corpo no mar. O mergulho que chacoalha. Submerge. Rema. Dropa. Podem até ter ações rotineiras, mas o surf nunca é rotina.  É ritual. Tempo. Olhar. Meditação. Medir-ação. O surf ensina sobre o viver. Sobreviver. E entrar para dar um banho, jamais é em vão.  Nesta reportagem especial, caminhamos pelo universo da tradição. O início, o meio, mas o fim… É reticências. Porque Garopaba aprendeu que o surf é parte intrínseca do pulsar. Inseparável. Desde então, não abre mão de investir. Tem competição, bolsa atleta, e muita doação. 

“É com imenso orgulho que celebramos duas décadas desde que Garopaba conquistou o título de Capital Catarinense do Surf. Essa jornada é um testemunho do nosso comprometimento com o esporte e com a comunidade que abraça essa cultura única. O surf não é apenas um esporte para nós, mas uma parte essencial da identidade de Garopaba. Estamos comprometidos em continuar investindo na modalidade, proporcionando oportunidades para talentos locais e incentivando a prática do surf em todas as idades. Que essas duas décadas sejam apenas o começo de uma longa e vibrante história de sucesso para o surf em Garopaba”, conclui o prefeito.

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