Uma jovem que sonhava em conhecer a Praia do Rosa, em Imbituba, relatou ter vivido uma experiência de exploração ao trocar trabalho por hospedagem em um hostel da região. O caso foi revelado em reportagem do portal Opera Mundi, que ouviu viajantes, especialistas e o Ministério Público do Trabalho sobre a prática conhecida como “voluntariado por hospedagem”.
Segundo a reportagem, a jovem, identificada com o nome fictício de Juliana, se candidatou para uma vaga de limpeza em um hostel na Praia do Rosa. A proposta previa jornada de cinco horas por dia, totalizando 30 horas semanais, em troca de hospedagem.
Ao chegar ao local, ela afirma ter encontrado um ambiente “controlador” e cobranças que, segundo ela, pareciam mais próximas de uma relação de trabalho do que de uma troca voluntária.
“O que me pegou é que ele pediu para não comer durante o voluntariado, mesmo que tivesse com pouco movimento”, relatou à Opera Mundi.
Juliana contou ainda que as tarefas eram repassadas por um grupo de WhatsApp e deveriam ser seguidas à risca, incluindo limpeza de cabanas, dobra de lençóis e organização de espaços. Para ela, as exigências não condiziam com uma experiência de voluntariado.
“Quanto ele está economizando com funcionários? Porque ele só dá um lugar para dormir por um trabalho de cinco horas na escala 6×1”, questionou.
O que diz o hostel
Procurado pela Opera Mundi, o hostel informou, em nota, que no local “é possível a hospedagem em troca de ajuda nas atividades internas”, e que as funções são apresentadas previamente aos interessados.
O estabelecimento afirmou ainda que, para a troca ser benéfica às duas partes, é necessário que as atividades sejam feitas conforme combinado. Sobre a alimentação, o hostel disse permitir refeições rápidas durante o período de ajuda, mas não as principais refeições, por demandarem mais tempo.
O que diz a lei
Segundo o procurador Rafael Salgado, do Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro, ouvido pela Opera Mundi, esse tipo de atividade não pode ser enquadrado como trabalho voluntário quando ocorre em empresas com fins lucrativos.
“Essas atividades não poderiam ser enquadradas como trabalho voluntário, pois a entidade privada tem que ser sem fins lucrativos”, explicou.
Ainda conforme o procurador, quando há jornada, ordens, horário e prestação de serviço para uma empresa privada, pode haver caracterização de vínculo de emprego.
“Se a pessoa não está recebendo salário, se não tem carteira assinada, o que temos ali é uma ilicitude”, afirmou.
O MPT/RJ já instaurou três inquéritos civis para investigar o uso de trabalho voluntário por nômades digitais. Um dos casos resultou em Termo de Ajustamento de Conduta com um hostel do Rio de Janeiro, que se comprometeu a não admitir trabalho voluntário por ter fins lucrativos.
Vagas fantasmas e jornadas extensas
A reportagem da Opera Mundi também ouviu outros viajantes que relataram problemas semelhantes em diferentes regiões do país. Entre as denúncias estão “vagas fantasmas”, acúmulo de funções, jornadas extensas, cobrança de taxas indevidas e mudanças nas atividades combinadas inicialmente.
Uma estudante relatou ter sido chamada para trabalhar com artesanato em um hostel na Bahia, mas, ao chegar, passou a atuar como atendente de bar. Em outro caso, uma psicóloga contou ter percebido que o voluntariado era usado como forma de captar mão de obra barata para outros empreendimentos do mesmo proprietário.
Plataformas digitais entram no debate
A prática ganhou escala com plataformas que conectam viajantes a hostels, ecovilas, propriedades rurais e espaços alternativos. A Worldpackers, uma das principais empresas do setor, afirmou à Opera Mundi que todos os anfitriões passam por aprovação antes de serem publicados na plataforma e que as experiências são monitoradas por avaliações, verificações internas e canais de feedback.
A empresa também informou que orienta viajantes a analisarem as descrições das vagas, avaliações de outros usuários e a conversarem com os anfitriões antes de confirmar a participação.
Especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, alertam que plataformas podem ser responsabilizadas judicialmente caso haja negligência em situações graves, como trabalho fraudado ou análogo à escravidão.
Projeto tenta regular prática
No Congresso, tramita desde 2020 um projeto de lei que busca regulamentar o chamado “turismo colaborativo”. A proposta prevê que viajantes possam trocar habilidades por descontos ou isenção em hospedagem.
Para o Ministério Público do Trabalho e especialistas ouvidos pela Opera Mundi, porém, a regulamentação pode abrir brecha para exploração se não houver proteção trabalhista clara.










