Imbituba realiza, no próximo sábado (25), a celebração oficial do Dia Municipal dos Cultos aos Orixás e das Religiões de Matriz Africana. A data estipulada pela Câmara de Vereadores é no dia 23, pela Lei nº 5.508/2024 e marca um importante reconhecimento à diversidade religiosa e cultural presente na cidade.
A programação acontece no Mirante da Praia do Porto, no bairro Vila Nova Alvorada (Divinéia), com início às 14h. O evento é aberto ao público e deve reunir lideranças religiosas, representantes culturais, autoridades públicas e moradores da região em um momento de valorização das tradições de matriz africana.
Além dos rituais religiosos, o evento contará com feira de artesanato, oficinas culturais e manifestações tradicionais, reunindo participantes de cidades da região, como Garopaba, Paulo Lopes, Laguna, Tubarão e Capivari de Baixo.

Orixá Ogum
A celebração tem como referência o orixá Ogum, figura simbólica sincretizada com o santo católico São Jorge, que é associada à força, ao trabalho, à coragem e à proteção. Reverenciado especialmente no mês de abril, Ogum ocupa papel central em diversas manifestações religiosas no Brasil.
A iniciativa é organizada pela Associação Umbandista Pai João D’Angola, com apoio da Prefeitura de Imbituba e da Secretaria Municipal de Turismo, Cultura e Inovação. Segundo os organizadores, o objetivo é fortalecer o respeito às diferentes tradições espirituais, além de promover o diálogo cultural e o reconhecimento histórico dessas religiões.

Programação
- 14h – Início da feira de artesanato e oficinas culturais;
- 16h30 – Fala do vereador autor da lei, Bruno Pacheco da Costa;
- 16h45 – Fala dos dirigentes da AUPJA;
- 17h – Abertura da gira festiva;
- 20h – Encerramento da gira;
- 20h15 – Agradecimentos institucionais e encerramento oficial.
Para mais informações e a programação completa podem ser acessadas no site oficial do evento: festadeogum.com.br.
Orixás e outras religiões de matriz africana
Além do Orixá Ogum, existem muitos outros Orixás cultuados nas religiões de matriz africana, cada um com suas características, domínios e simbologias próprias. Entre eles estão Oxum, ligada às águas doces, ao amor e à fertilidade; Iemanjá, associada ao mar e à maternidade; Xangô, relacionado à justiça e aos trovões; Iansã, senhora dos ventos e das tempestades; e Oxóssi, caçador e provedor, ligado às matas e ao sustento. Cada Orixá representa forças da natureza e aspectos da vida humana, sendo reverenciado por meio de rituais, cantos, oferendas e celebrações específicas.
No Candomblé, esses Orixás são cultuados de forma ainda mais estruturada e tradicional, dentro de nações que preservam heranças africanas distintas, como Ketu, Jeje e Angola. Cada iniciado possui uma ligação direta com seu Orixá de cabeça, que orienta sua caminhada espiritual. Os rituais envolvem iniciações, obrigações e festas públicas, onde os Orixás se manifestam por meio da incorporação, trazendo consigo suas danças, gestos e energias características.
Essa diversidade de Orixás reflete a riqueza e a complexidade das religiões de matriz africana, que vão muito além de uma visão simplificada. São sistemas religiosos profundos, que articulam natureza, ancestralidade e espiritualidade de forma integrada, mantendo vivas tradições que resistiram ao tempo e seguem sendo fundamentais na construção da identidade cultural brasileira.
Gira, Terreiro e Sincretismo
Algumas expressões utilizadas pelo ‘povo de santo’ são desconhecidas para outras culturas e religiões. Como exemplo, o termo ‘Gira’, que é como uma sessão espírita ou uma missa, realizada no ‘Terreiro’. Este último termo é usado para definir o lugar onde ocorrem as giras.
Nos terreiros de umbanda são realizados cânticos de orixás e de guias espirituais chamados de ‘pontos’. Os guias espirituais, no caso da Umbanda, são espíritos de ancestrais que passaram por perseguições em outras vidas. Exemplos:
- Caboclos: espíritos indígenas que guerrilharam ou foram escravizados durante o período de genocídio na época do Brasil Imperial;
- Erês ou Crianças: espíritos de crianças que morreram muito cedo, seja na época da escravidão do povo negro ou em outras épocas;
- Pretos Velhos: espíritos de negros escravizados que, ou morreram muito cedo devido às violências da escravidão, nos navios negreiros ou por torturas feitas durante o período escravagista.
- Exus e Pombagiras: espíritos de pessoas que viveram na rua ou que batalharam por justiça sendo das classes consideradas baixas da sociedade.

Além destes guias, que podem trabalhar em terra, ainda são cultuados sereias, boiadeiros, ciganos, entre tantas outras entidades. Os trabalhos que eles fazem são para ajudar as pessoas encarnadas (em vida) a lidarem com os revezes da vida, enfrentarem situações difíceis, limpeza energética, impulsionar alguma situação para dar certo, quebras de demandas e feitiços jogadas contra a pessoa, entre outras coisas.
Outro conceito importante dentro das religiões de matriz africana é o sincretismo religioso, que surgiu como uma forma de resistência durante períodos de perseguição, especialmente na época da escravidão. Para manter o culto aos Orixás vivo, muitos praticantes passaram a associá-los a santos do catolicismo, criando uma espécie de “ponte” entre as crenças.
Assim, Ogum foi relacionado a São Jorge, Oxum a Nossa Senhora Aparecida, Iemanjá a Nossa Senhora dos Navegantes, entre outros exemplos. Esse processo não significa uma substituição, mas sim uma adaptação estratégica, que permitiu a continuidade das tradições africanas em um contexto de repressão. Até hoje, o sincretismo está presente em muitas práticas e é visto como parte da construção histórica e cultural dessas religiões, refletindo a força e a resiliência do povo de santo.
Batuque, Candomblé, Ijexá e Kimbanda
Além da Umbanda, o Brasil abriga uma diversidade rica de tradições religiosas de matriz africana que também cultuam os Orixás, cada uma com suas particularidades históricas, rituais e formas de organização.
O Batuque, bastante presente no Rio Grande do Sul, tem forte influência das nações africanas como Oyó e Jeje, e se destaca por uma liturgia bem estruturada, com toques de tambor específicos e uma relação muito direta com os Orixás, que são cultuados de forma mais “pura”, sem a incorporação de entidades como ocorre na Umbanda.

Reprodução: Redes Sociais
Já o Candomblé é uma das tradições mais conhecidas e difundidas no país, com maior concentração na Bahia, mas presente em diversas regiões. Organizado em nações como Ketu, Angola e Jeje, o Candomblé preserva línguas, cantos e rituais de origem africana, valorizando profundamente a ancestralidade.
Nele, os Orixás são cultuados por meio de iniciações, oferendas e cerimônias complexas, nas quais o transe e a incorporação também têm papel central, mas dentro de uma lógica própria e bem definida.

O Ijexá, por sua vez, pode se referir tanto a uma nação dentro do Candomblé quanto a um ritmo sagrado utilizado nos rituais, especialmente ligado a Oxum e Oxalá, sendo mais comum em regiões do Nordeste. Já a Kimbanda segue um caminho distinto, voltado ao trabalho com entidades como Exus e Pombagiras, com uma prática mais direta e voltada às questões do cotidiano.
Apesar das diferenças, todas essas tradições compartilham raízes africanas profundas e desempenham um papel fundamental na preservação cultural, espiritual e histórica do povo afro-brasileiro.











