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Érika dos Reis

Moradora de Imbituba e sobrevivente do câncer de mama, Máurea transforma experiência em mensagem de esperança no Outubro Rosa; veja a reportagem

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Reportagem e Redação: Érika Reis

A descoberta de um câncer de mama pode mudar a vida de uma mulher de maneiras que vão muito além do diagnóstico. Para a gaúcha moradora de Imbituba há quase 5 anos, Máurea Dill Ferreira, de 61 anos, a experiência trouxe desafios físicos e emocionais, tratamentos intensos e mudanças no próprio corpo, mas também reforçou uma certeza: ainda havia muita vida pela frente.

Em entrevista especial ao Portal AHora para a Campanha Outubro Rosa, ela compartilha sua trajetória desde a descoberta da doença até a recuperação, com uma mensagem de coragem, acolhimento e conscientização para outras mulheres.

Máurea é servidora pública federal aposentada e sempre teve uma rotina marcada pela atividade física. Praticou patinação, ginástica olímpica e vôlei, frequentou academias e procurou manter hábitos saudáveis.

Mesmo assim, o câncer fez parte de sua história, lembrando que o cuidado preventivo é importante e que a doença não deve ser associada exclusivamente a um estilo de vida.

Um pequeno sinal que mudou tudo

Antes de descobrir o câncer, Máurea já realizava exames periódicos, especialmente em razão de um histórico de endometriose. Em 2018, ao apalpar a região da axila, percebeu um pequeno caroço. A reação foi imediata: procurou atendimento médico para investigar o que estava acontecendo.

Os exames indicaram uma alteração suspeita, e a biópsia confirmou o diagnóstico. A espera pelo resultado, que levou quase um mês, foi um dos períodos mais angustiantes daquela fase.

“Eu já imaginava que estivesse com câncer de mama. Mas, claro, nessa expectativa de fazer uma biópsia e aguardar o resultado para saber a gravidade e a extensão do problema, é bastante assustador”, recorda.

Apesar do medo e da incerteza, Máurea conta que não chegou a imaginar que morreria. Sua preocupação estava voltada ao início do tratamento e à maneira como enfrentaria a doença.

“Eu sabia que ia ter que enfrentar, durante algum tempo, uma doença séria. Mas, em momento algum, me imaginei morrendo. Eu enfrentei porque acho que a gente tem recursos hoje em dia. A gente tem que se manter otimista e positiva”, relata.

Um tratamento intenso e desafios que foram além do diagnóstico

A trajetória de Máurea exigiu uma série de procedimentos. O tratamento incluiu quimioterapia, cirurgia para retirada da mama, radioterapia e acompanhamento médico. Ela também enfrentou efeitos colaterais que afetaram diretamente sua rotina.

Um dos momentos mais difíceis ocorreu durante o uso de uma medicação que provocou uma reação conhecida como síndrome mão-pé, com descamação, dor e alterações na pele dos pés e das mãos. A intensidade dos sintomas chegou a dificultar atividades básicas, como caminhar dentro de casa.

“Eu me lembro que naquele momento chorei muito. Tinha o aniversário de uma amiga minha a que eu queria ir e não consegui. Para ir ao banheiro, doía muito colocar o pé no chão”, conta.

A lembrança revela uma dimensão do tratamento que nem sempre aparece quando se fala sobre o câncer: além dos procedimentos médicos, há dias em que o próprio corpo impõe limites e tarefas simples passam a exigir um esforço enorme.

A queda dos cabelos também fez parte da experiência. Máurea chegou a comprar uma peruca, mas não gostou do resultado e preferiu usar turbantes em alguns momentos. Com o tempo, aprendeu a lidar com as mudanças sem permitir que elas definissem toda a sua vida.

“Eu nunca fui uma pessoa extremamente vaidosa, de ficar na frente do espelho e me preocupar muito com o cabelo. Acho que aceitei bem tudo o que aconteceu”, afirma.

A reconstrução que não aconteceu como ela esperava

Entre as consequências mais marcantes do tratamento esteve a retirada completa da mama. Depois da cirurgia, Máurea tentou realizar a reconstrução mamária, mas enfrentou complicações que impediram que os procedimentos alcançassem o resultado esperado.

A primeira tentativa envolveu a colocação de um expansor mamário, que precisou ser retirado após uma reação adversa. Posteriormente, foi realizada uma tentativa de reconstrução com tecido da região abdominal, mas houve comprometimento da vascularização e necrose, exigindo a retirada do tecido transplantado.

Anos depois, uma nova cirurgia, utilizando o músculo grande dorsal, proporcionou alguma melhora no aspecto da região, mas não recuperou o volume mamário que ela desejava.

A experiência trouxe frustrações e marcas que permanecem. Máurea admite que não gosta de olhar para o espelho e ver a ausência da mama e as cicatrizes. Ao mesmo tempo, encontra uma maneira própria de reconhecer o que viveu sem reduzir sua identidade às mudanças provocadas pela doença.

“Eu tô viva. Eu não deixei de fazer nada na minha vida”, resume.

A fala não apaga as dificuldades enfrentadas nem significa que todos os dias tenham sido fáceis. Mostra, sobretudo, que é possível reconhecer as perdas e continuar construindo a própria história.

O companheirismo que fez diferença

Durante o tratamento, Máurea encontrou no marido uma presença importante. Segundo ela, ele esteve ao seu lado, ajudando nos cuidados e acompanhando as necessidades que surgiram ao longo do processo.

Quando a pandemia de Covid-19 chegou, enquanto ela ainda se recuperava e se sentia debilitada, o marido passou a assumir as tarefas externas para reduzir sua exposição. O casal procurou preservar a saúde e atravessar aquele período com os cuidados necessários.

“Ele também entrou na mesma onda, assim, de me cuidar. De fazer o que tem que fazer. Então, a gente ficou bem unido nesse sentido”, conta.

Juntos há cerca de 14 anos, os dois mantêm personalidades diferentes, mas complementares. Máurea se descreve como comunicativa, enquanto define o companheiro como alguém sério e objetivo. Durante a doença, essa parceria ganhou ainda mais importância.

Ela também destaca o apoio das amizades e a troca de experiências com outras mulheres que passaram pelo câncer de mama. Conversar com quem viveu situações semelhantes ajudou a compreender melhor os desafios e a encontrar acolhimento em meio às incertezas.

O otimismo não elimina a dor, mas ajuda a seguir

Ao olhar para a própria trajetória, Máurea não identifica uma transformação radical em seus hábitos ou em sua personalidade. Ela já praticava atividades físicas, procurava cuidar da saúde e mantinha uma postura positiva diante da vida. Ainda assim, reconhece que a experiência ampliou a valorização do tempo e das possibilidades que permanecem abertas.

“Claro que a valorização que a gente dá à vida é maior, mas eu não tive nenhuma mudança realmente muito crucial nos meus hábitos”, explica.

Durante o tratamento, também buscou acompanhamento nutricional, especialmente para cuidar da saúde de maneira mais ampla. A experiência despertou seu interesse por novos conhecimentos e reforçou a importância de procurar orientação profissional.

Mas, para ela, uma das principais motivações para continuar foi pensar no futuro. Aos 49 anos, quando recebeu o diagnóstico, ainda tinha planos, viagens que desejava fazer e muitas experiências que queria viver.

“Eu sempre imaginei que tinha tanta coisa ainda para viver. Eu tenho muita coisa para viver ainda. Eu tenho muitos planos, eu quero viajar muito”, afirma.

É essa perspectiva que ela procura preservar até hoje, enquanto aproveita a vida em Imbituba, cidade pela qual desenvolveu um carinho especial.

Outubro Rosa: atenção ao corpo e coragem para procurar ajuda

Ao compartilhar sua história durante a Campanha Outubro Rosa, Máurea reforça a importância de conhecer o próprio corpo, realizar os exames recomendados e procurar atendimento diante de qualquer alteração suspeita.

Foi ao perceber um nódulo na axila que ela decidiu buscar ajuda. Por isso, incentiva outras mulheres a relatarem aos profissionais de saúde qualquer mudança que notem, mesmo quando os exames anteriores não apontaram alterações.

A conscientização também passa por conversar abertamente sobre a doença. Para Máurea, o câncer de mama não deve ser tratado como um assunto proibido. O acesso à informação, o acolhimento e a possibilidade de compartilhar experiências ajudam a enfrentar o medo e a buscar os recursos disponíveis.

Ela recomenda ainda que as mulheres esclareçam suas dúvidas com os médicos e procurem uma segunda opinião quando sentirem necessidade. O importante, destaca, é não enfrentar tudo sozinha nem deixar de procurar ajuda.

Para quem acabou de receber o diagnóstico, sua mensagem é direta:

“Força, coragem, vá em frente. Quando a gente recebe um diagnóstico de câncer de mama, parece que tem um buraco no chão, mas a mulher tem uma força que a gente vai em frente”.

Máurea também lembra que existem tratamentos e profissionais preparados para acompanhar as pacientes. Cada caso exige uma avaliação individual, mas o diagnóstico não deve ser encarado como o fim das possibilidades.

A vitória de continuar olhando para a frente

Se tivesse que resumir sua trajetória em uma única palavra, Máurea escolheria persistência. Para ela, enfrentar uma doença séria exige coragem, apoio e disposição para continuar, mesmo quando o caminho não segue como o esperado.

A maior vitória, diz, foi preservar o otimismo e a vontade de viver. Não porque o sofrimento tenha deixado de existir, mas porque ele não apagou seus planos nem a capacidade de olhar para o futuro.

“Eu sempre imagino que tem muita coisa para viver ainda”, afirma.

É com essa mensagem que Máurea deixa sua contribuição para a Campanha Outubro Rosa: cuidar da saúde, procurar ajuda, conversar sobre o câncer de mama e lembrar que nenhuma mulher precisa atravessar esse caminho sem apoio. A prevenção, o diagnóstico e o tratamento precisam caminhar junto com o acolhimento e o respeito à história de cada paciente.

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