Alguns sonhos começam em grandes estádios. Outros nascem muito antes, em lugares simples, onde uma bola, uma ou duas crianças e a imaginação são suficientes para transformar uma brincadeira em um objetivo para a vida inteira.
E o sonho da imbitubense Júlia Souza de Oliveira começou assim: nos fundos da casa da avó Dorza, no bairro Nova Brasília, em Imbituba, entre brincadeiras de futebol com o tio Pedro Henrique. Nesta segunda-feira (17), aos 15 anos, aquele sonho ganhou oficialmente as cores verde e amarela.
Júlia, que é um dos destaques das categorias de base do Internacional (RS), foi convocada pela primeira vez para a Seleção Brasileira Sub-15 e, em setembro, terá a oportunidade de defender o Brasil em amistosos internacionais no Paraguai.

A convocação é o ponto mais alto, até aqui, de uma trajetória marcada por talento, disciplina, conquistas, mudanças, saudade e muitas horas de dedicação ao futebol. Uma caminhada que começou ainda na infância e que, agora, coloca o nome da jovem imbitubense, antes promessa, entre as realidades do futebol feminino brasileiro.
“Para nós, essa convocação representa muito mais do que uma conquista esportiva. É o resultado de anos de dedicação, renúncias, distância, viagens, saudade e muito trabalho. Estamos extremamente felizes e orgulhosos de tudo o que a Júlia vem construindo e de vê-la realizando um sonho que começou ainda aos 7 anos de idade”, resume mãe de Júlia, Haiane Souza.

Dia que terminou em lágrimas
Durante os dias que antecederam a convocação oficial, a família já vivia uma ansiedade diferente. Júlia estava entre as sete atletas do Internacional incluídas em uma pré-lista da Seleção. O clube informou às jogadoras que havia uma pré-convocação, mas sem revelar quem efetivamente seria chamada.

Reprodução: Redes Sociais
A família, então, fez o que podia: preparou tudo. Documentação, vacinas e todos os detalhes necessários ficaram em dia, porque, se o nome de Júlia aparecesse, ela estaria pronta para embarcar.
Na sexta-feira que antecedeu o anúncio oficial, Júlia foi normalmente ao treino. Antes de a atividade começar, porém, a treinadora reuniu o grupo e revelou que a convocação oficial sairia na segunda-feira.
Os nomes começaram a ser anunciados. Um a um. Até que chegou o último: “…Júlia Souza”.
A comemoração foi imediata. As companheiras de equipe vibraram junto com ela, sabendo o quanto aquela convocação significava.

Reprodução: Redes Sociais
Júlia, porém, ainda precisava contar a notícia para quem estava longe, no Estado vizinho. Depois do treino, ligou para a mãe, que estava no carro.
“Estás onde?”, perguntou Júlia.
A mãe respondeu que estava no carro e perguntou se o pai estava junto. Então Júlia pediu para falar com ele também.
Foi quando, com a voz embargada e uma expressão que denunciava a emoção, revelou:
“Tenho uma notícia para vocês Eu fui convocada para a Seleção Brasileira“.
A reação foi imediata: choro de Júlia. Choro da mãe. Choro do pai. Uma família inteira tentando assimilar, naquele instante, que o sonho que acompanhava a filha desde os sete anos estava começando a se tornar realidade.
“Foi só choro. Eu não consegui gravar nada porque ela me pegou de surpresa também. Foi muito emocionante”, conta Haiane.
A emoção, entretanto, ainda não estava completa. Apesar da confirmação feita internamente pelo Internacional, a família queria ver o nome de Júlia publicado oficialmente.
A segunda-feira chegou. E, quando a convocação foi oficialmente divulgada nas redes da CBF, veio a confirmação definitiva.
“Meu Deus, a gente estava ansiosa para sair o nome e poder contar aos quatro ventos. Quando saiu, foi só alegria, só alegria”, lembra a mãe, ainda emocionada.
A bola que começou como brincadeira
Antes de vestir as camisas do Inter e da Seleção Brasileira, Júlia era apenas uma menina apaixonada por futebol. Embora tenha morado em Itajaí durante boa parte da infância, foi em Imbituba, na casa da avó Dorza, que surgiu a paixão pela bola. Nos fundos da residência, em Nova Brasília, ela brincava de futebol com o tio Pedro Henrique, irmão mais novo de sua mãe, Haiane.
A diferença de idade entre os dois é de apenas um ano e a parceria dentro de campo acabou influenciando os dois. Hoje, aos 16 anos, Pedro Henrique também segue sua trajetória no esporte: joga futsal em alto nível, disputa competições representando Imbituba e no futebol já passou pelas categorias de base do Figueirense.
O que começou como diversão, porém, rapidamente ganhou outro significado para Júlia.
Aos sete anos, já morando com a família em Itajaí, ela começou a treinar futebol de forma mais estruturada. Inicialmente, nas escolinhas, treinava ao lado dos meninos.
Por volta dos 10 para 11 anos, passou a treinar com meninas na Escolinha Fair Play, no bairro Carianos, em Florianópolis. Foi então que o talento começou a chamar cada vez mais atenção.
Em uma grande peneira, Júlia foi aprovada para integrar o processo de monitoramento da Ferroviária, tradicional clube do futebol feminino brasileiro, de Araraquara (SP). Durante aproximadamente um ano, foi acompanhada pela equipe paulista, realizando viagens para treinamentos e avaliações. Até que surgiu uma nova oportunidade.
O salto para o grande Internacional
Entre os 12 e 13 anos, Júlia recebeu a chance de fazer uma avaliação no Internacional. A oportunidade foi encarada sem hesitação. E ela foi aprovada.
O passo seguinte exigiu coragem não apenas dela, mas de toda a família: deixar a convivência diária com os pais para morar em Porto Alegre com a avó paterna, dona Dóris, e seguir o sonho de se tornar jogadora profissional.
Em dezembro, Júlia completará dois anos vivendo na capital gaúcha. No Internacional, a jovem atua como lateral-esquerda e zagueira. Seu desempenho fez com que, mesmo ainda tendo idade para o Sub-15, ela também passasse a atuar no Sub-17.

Foto: Arquivo Pessoal
E os resultados dentro de campo ajudam a explicar a convocação. Há cerca de um mês, Júlia e as companheiras do Sub-15 conquistaram o Campeonato Gaúcho, superando o Grêmio na decisão. No Sub-17, a jovem também vive um momento especial: ela e suas companheiras estão na decisão do Campeonato Brasileiro da categoria, com a possibilidade de conquistar mais um título nacional para o Colorado.
Foi justamente esse desempenho, somado a anos de trabalho, que alimentou um sonho que parecia cada vez mais próximo e chegaria nessa segunda-feira: a Seleção Brasileira.
“Nas outras vezes que ela esperou ser convocada e não foi, nesse ano foram duas vezes, falei que Deus sabe de todas as coisas. Estava em oração para que Deus honrasse ela, porque ficar longe de casa, sair da escola que mais gostava, dos amiguinhos, para viver uma vida de atleta, não é fácil! E Deus honrou. Então, sempre digo à Júlia: agradece a Deus porque sem Ele a gente não é nada”, lembra Haiane, emocionada.

Foto: Arquivo Pessoal
Quase dois anos longe de casa
Por trás daquele telefonema e da comemoração existe uma história de muitas renúncias.
Para seguir o sonho, Júlia precisou abrir mão da convivência diária com a família. Em dezembro, completará dois anos vivendo longe de casa, em Porto Alegre, dividindo seus dias entre treinamentos, jogos, estudos, viagens e a responsabilidade de crescer longe dos pais.
E a distância também é sentida por Jardel de Oliveira e Haiane Espíndola Souza, pais que transformaram a saudade em presença sempre que possível.
“Foram muitas idas e vindas para Porto Alegre, sempre buscando estar presente, apoiar, acompanhar e, principalmente, matar um pouco da saudade da nossa filha”, conta Haiane.

A família também faz questão de reconhecer pessoas que tiveram participação importante nesse processo. A mãe destaca especialmente a treinadora Helen Ferreira Oliveira e David Júnior da Silva, profissionais ligados à trajetória de Júlia no Internacional e que, segundo ela, contribuíram significativamente para o desenvolvimento da jovem não apenas como atleta, mas também como pessoa.











