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Érika dos Reis

Casal de Imbituba disputa Brasileiro de Jiu-Jitsu e leva medalha pra casa com história de superação no tatame; confira toda a trajetória

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O amor pelo jiu-jitsu e a parceria construída ao longo de 16 anos levaram um casal de Imbituba a representar o município no Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Competitivo (CBJJC), realizado no domingo (30), em Joinville.

Mais do que uma competição, a participação marcou uma nova etapa na trajetória de Maicon Rodrigues, de 36 anos, e Maura Alessandra Caetano de Mattos, de 30, que transformaram o esporte em ferramenta de educação, inclusão e desenvolvimento social.

Maura Alessandra e Maicon Rodrigues

Responsáveis pela equipe Fonseca Brothers JJ, no bairro Nova Brasília, os dois também dividem dentro e fora do tatame a responsabilidade por um projeto que atualmente atende cerca de 30 alunos. A escola completou um ano de atividades em agosto e, há aproximadamente cinco meses, funciona em um espaço próprio, simples e acolhedor.

No Campeonato Brasileiro, realizado na Arena Sesc, em Joinville, o casal conquistou o segundo lugar. A competição reuniu mais de mil atletas e teve peso duplo para o Ranking 2026 da CBJJC, tornando a disputa uma das etapas importantes do calendário da entidade.

Mas, para Maicon, chegar ao pódio representa muito mais do que uma medalha.

Maicon e Maura receberam medalha de prata

Um projeto que nasceu da própria história

A história de Maicon com o jiu-jitsu começou há cerca de 16 anos, em Viamão, no Rio Grande do Sul. Na época, ele começou a dar aulas em uma escola e encontrou no esporte uma maneira de enfrentar uma realidade que conhecia dentro da própria família.

Filho de uma família humilde, Maicon conta que seus irmãos sofriam bullying por não terem roupas, calçados ou outros objetos considerados “da moda” pelos colegas.

Foi nesse contexto que ele decidiu levar o jiu-jitsu para dentro da escola.

A proposta, segundo ele, ia muito além de ensinar técnicas de luta. O objetivo era utilizar o esporte para romper grupos fechados, aproximar os alunos e mostrar que as diferenças econômicas não deveriam determinar quem poderia ou não pertencer a determinado grupo.

“Eu acho que consegui tanto ajudar meus irmãos quanto as crianças dessas escolas”, relembra.

A experiência acabou moldando a maneira como Maicon enxerga o esporte até hoje. Para ele, o jiu-jitsu não começa nem termina no tatame: é uma ferramenta capaz de ensinar disciplina, respeito, convivência, responsabilidade e confiança.

Foi essa filosofia que, anos mais tarde, ele levou para Imbituba.

Da sala de aula à segurança escolar

Há oito anos morando em Imbituba, Maicon também construiu uma trajetória profissional ligada à segurança e à educação.

Durante sete anos, trabalhou como segurança em uma empresa de vigilância e, nesse período, passou a ministrar aulas de defesa pessoal. Em Imbituba, foi o primeiro profissional de segurança a atuar dentro de uma escola municipal, segundo seu relato.

O local foi justamente a Escola Básica Padre Dr. Itamar Luís da Costa, no bairro Guaiúba, instituição que atualmente integra a rede municipal de ensino de Imbituba. Na escola, Maicon desenvolveu um projeto-piloto que buscava levar princípios do jiu-jitsu para a convivência com crianças e adolescentes.

A proposta ganhou ainda mais importância em 2023, depois do ataque ao Centro de Educação Infantil Cantinho Bom Pastor, em Blumenau, que matou quatro crianças e feriu outras cinco. Após a tragédia, Santa Catarina ampliou ações de segurança nas unidades de ensino, e diferentes municípios passaram a adotar medidas para reforçar a proteção das comunidades escolares.

Maicon acredita que o trabalho que já vinha sendo desenvolvido na Padre Itamar contribuiu para que sua experiência fosse observada dentro desse contexto. A relação direta entre o projeto desenvolvido por ele e a posterior adoção de medidas de segurança, porém, é uma avaliação do próprio professor e não uma relação oficialmente documentada pelas autoridades.

Ainda assim, a experiência ajudou a consolidar uma ideia que acompanha Maicon até hoje: segurança não significa apenas saber lutar.

“Não é aprender a sair na porrada”

Essa filosofia também está presente nas aulas de defesa pessoal oferecidas pela equipe.

Para Maicon, principalmente quando o assunto envolve mulheres, ensinar defesa pessoal não significa preparar alguém para procurar uma briga.

“A mulher de vez em quando chega primeiro na academia e vai aprender a sair na porrada na rua, mas não é isso”, explica.

Segundo ele, o objetivo é desenvolver percepção, postura e capacidade de reconhecer situações potencialmente perigosas antes que elas se agravem.

“É aprender a ter uma visão diferenciada. Uma visão de ter uma distância segura do agressor, de visualizar que algo errado possa acontecer e me prevenir antes que aconteça.”

É justamente nesse ponto que a história de Maura ganha ainda mais força.

Maura: da parceria nos bastidores ao protagonismo no tatame

Formada em Pedagogia e Educação Especial, Maura Alessandra é responsável pela área pedagógica da Fonseca Brothers JJ. Sua função é levar para dentro do tatame conhecimentos relacionados à educação e auxiliar na construção de estratégias para lidar com diferentes perfis de alunos, incluindo pessoas neurodivergentes.

Ela também atua profissionalmente como professora de Educação Especial e Pedagogia na rede municipal de ensino de Imbituba, na Escola Básica Padre Dr. Itamar Luís da Costa, no Guaiúba.

Na academia, portanto, sua participação não é apenas administrativa.

“Ela me auxilia na parte de trazer a parte pedagógica para dentro do tatame, lidar com neurodivergentes, porque não é fácil lidar com crianças, jovens, adultos e pais”, brinca Maicon.

Maura conheceu o jiu-jitsu há cerca de 13 anos, quando começou a treinar. Durante muito tempo, entretanto, a modalidade esteve mais relacionada à rotina do marido do que a uma trajetória esportiva própria.

Isso começou a mudar.

Depois de anos de relacionamento, dois filhos e muitas experiências compartilhadas, Maura voltou a enxergar o jiu-jitsu de outra maneira. Sem a pressão de precisar competir ou corresponder às expectativas de ninguém, passou a aproveitar a modalidade pelos benefícios que ela poderia proporcionar à própria vida.

Até que veio uma decisão que surpreendeu o próprio Maicon: ela se inscreveu para competir. Foi a primeira competição de Maura. E, para ele, vê-la entrando no tatame representou algo maior do que simplesmente acompanhar a esposa em uma luta.

Uma mulher que sempre trouxe paz para a família

Maicon descreve Maura como uma pessoa que sempre esteve ligada à ideia de paz dentro da família.

Ele conta que, por ter uma personalidade mais explosiva, muitas vezes era ela quem o ajudava a desacelerar e encontrar equilíbrio. Por isso, vê-la competindo teve um significado particular.

“Eu sempre fui meio explosivo, então eu tinha que me acalmar. Ela sempre trouxe paz para mim. E hoje, vendo ela competindo, eu me senti mais seguro”, conta.

A mudança, segundo ele, não está apenas no fato de Maura saber aplicar uma técnica de jiu-jitsu. Está na postura adquirida por ela.

“Hoje eu sei que ela está mais segura. Se acontecer algo com ela na rua, ela vai saber se defender. Ela sabe tomar uma postura mais firme.”

A trajetória de Maura também quebra uma ideia comum de que, dentro de uma equipe esportiva, a mulher necessariamente ocupa um papel secundário quando o homem é o instrutor.

Na Fonseca Brothers JJ, Maicon é o responsável pela instrução e pelo comando técnico. Maura, por sua vez, atua na área pedagógica, participa da gestão do espaço e, agora, também passou a ocupar o lugar de atleta.

Ela não está apenas ao lado do projeto. Ela também é parte dele.

“Minha sócia na academia, dentro da minha casa e na vida”

A parceria entre os dois também foi construída a partir de momentos difíceis.

Antes da atual fase da Fonseca Brothers JJ, Maicon foi proprietário de uma academia de grande porte. Ele conta que colocou responsabilidades nas mãos de terceiros, incluindo sócios e funcionários, e acabou enfrentando uma falência.

Quem segurou a estrutura familiar naquele período foi Maura. “Ela foi quem segurou a casa enquanto eu estava falindo. Ela me deu suporte e fez com que eu voltasse”, relata.

Por isso, quando fala sobre a atual academia, Maicon faz questão de incluir a esposa como sócia.

“Ela é a pessoa mais importante da minha vida. Se hoje eu estou conversando com você é por causa dela”, afirma.

A frase resume a maneira como ele enxerga a parceria construída entre os dois. “Ela é minha sócia na academia, dentro da minha casa, minha sócia na vida.”

Juntos, eles também são pais de Isabela, de nove anos, e Heitor, de seis. Foi justamente a chegada dos filhos que ajudou Maicon a reencontrar o caminho do jiu-jitsu.

O retorno começou dentro de casa

Depois do nascimento dos filhos, Maicon decidiu voltar a treinar e passou a ensinar jiu-jitsu para as próprias crianças. Aos poucos, um aluno foi indicando outro, as famílias começaram a conhecer o trabalho e o projeto cresceu.

O que começou dentro da própria família acabou se transformando em uma escola. Em agosto, a equipe completou um ano de atividades. O projeto começou utilizando o saguão do campo da Nova Brasília, com aulas noturnas às terças e quintas-feiras.

Com o crescimento do número de alunos, surgiu a necessidade de encontrar um espaço próprio. Hoje, a Fonseca Brothers JJ funciona em uma sede no bairro Nova Brasília. O espaço ainda é pequeno e simples, como descreve Maicon, mas já reúne cerca de 30 alunos. E a intenção é continuar crescendo.

Esporte que também abre portas

A proposta da equipe não se limita às aulas de jiu-jitsu. A Fonseca Brothers JJ também busca oferecer oportunidades de formação aos alunos, incluindo cursos profissionalizantes gratuitos.

Maicon explica que a mensalidade paga pelos alunos é destinada principalmente à manutenção do espaço. Quando existe algum valor além das despesas, ele procura direcioná-lo para ajudar os próprios alunos, inclusive com inscrições em campeonatos.

Para complementar a renda e manter o projeto funcionando, ele também realiza trabalhos de segurança durante a madrugada. Maura, além de atuar como professora, contribui com a renda familiar e com a organização da rotina da academia.

“É um trabalho bem diferenciado. A gente fala de jiu-jitsu e acaba vendo um esporte caro. A nossa mensalidade é para manter o nosso espaço, mas eu não tiro nada da escola”, explica.

A lógica, segundo ele, é fazer com que o esporte se torne uma oportunidade, e não mais uma barreira econômica para crianças e adolescentes.

A mesma motivação que o levou, anos atrás, a usar o jiu-jitsu para aproximar seus irmãos de outras crianças continua presente.

Só que agora o projeto é maior.

De volta às competições depois de uma década

Enquanto Maura estreava em uma competição, Maicon também vivia um retorno pessoal.

Apesar de ter 16 anos de trajetória no jiu-jitsu e já ter participado de diversos campeonatos, ele estava afastado do cenário competitivo havia aproximadamente dez anos.

O primeiro passo para voltar aconteceu em uma competição realizada em Imbituba. Como não havia outro atleta inscrito na categoria dele, Maicon foi declarado campeão por WO, sigla utilizada para registrar uma vitória sem a realização da luta, geralmente pela ausência ou desistência do adversário.

Para ele, entretanto, aquele resultado não tinha o mesmo significado de uma vitória conquistada lutando. Foi então que decidiu encarar um desafio maior.

Inscreveu-se no Campeonato Brasileiro da CBJJC, uma competição que, em 2026, reuniu mais de mil atletas e contou com disputas nas categorias Kids, Adulto, Master e Sênior, além das modalidades GI e NO-GI. O Brasileiro também teve peso duplo no ranking da temporada.

Sem sequer ter inicialmente recursos suficientes para custear toda a viagem e alimentação, Maicon precisou organizar tudo às pressas.

Mesmo assim, foi.

E voltou para casa com o segundo lugar.

A medalha que é também um recado

A decisão de competir novamente teve uma motivação que ultrapassava a própria carreira. Maicon queria mostrar aos filhos e aos alunos que era possível voltar a tentar.

Para mostrar para os meus filhos, para os alunos, que sim, é possível, se a gente acreditar”, destaca o atleta.

O retorno ao cenário competitivo, portanto, funciona como uma extensão daquilo que ele ensina durante as aulas. Disciplina não é apenas treinar quando tudo está bem. Persistência não é apenas vencer. E coragem não significa ausência de medo.

É continuar mesmo quando as condições não são ideais.

E a próxima luta já está no horizonte

O Brasileiro não encerrou o retorno de Maicon às competições. O professor já recebeu um convite para disputar, em novembro, uma disputa de cinturão no Rio Grande do Sul, no evento Open Fight Restinga. A participação ainda representa uma nova etapa desse retorno ao cenário competitivo.

Enquanto isso, em Imbituba, Maicon e Maura seguem construindo o projeto que começou de maneira pequena, dentro do saguão de um campo de futebol, e que hoje reúne cerca de 30 alunos em uma sede própria.

No tatame, Maicon ensina técnicas de jiu-jitsu. Maura acrescenta a experiência pedagógica. Fora dele, os dois administram uma família, uma escola e um sonho que precisou ser reconstruído depois de momentos difíceis.

A medalha conquistada em Joinville é, nesse sentido, apenas uma parte da história.

Porque, para o casal, a verdadeira vitória parece estar em outro lugar: nas crianças que entram no tatame, nos alunos que encontram pertencimento, nas mulheres que desenvolvem confiança, nos jovens que aprendem disciplina e nas oportunidades que o esporte pode abrir.

E, depois de 16 anos de caminhada juntos, Maicon e Maura voltaram a dividir o mesmo espaço também como atletas. Dessa vez, não apenas como marido e mulher. Mas como parceiros de uma história que continua sendo construída, luta por luta, aluno por aluno e família por família.

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