Falar sobre saúde mental é também falar sobre cuidado, prevenção e a importância de reconhecer quando algo não vai bem. Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio e à valorização da vida, o tema ganha ainda mais espaço, mas o acompanhamento em saúde mental precisa acontecer durante todo o ano.

Em Garopaba, esse trabalho é realizado por uma rede que envolve o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), profissionais de diferentes áreas, família, escolas e a própria comunidade. Para Bruna Batistella, diretora do programa de Saúde Mental e coordenadora do CAPS do município, o atendimento não deve ser visto como uma responsabilidade exclusiva do serviço especializado.
“A saúde mental não é exclusivamente o papel do CAPS. Ele é um papel de rede”, destaca Bruna.
Primeira escuta pode acontecer nas unidades de saúde
De acordo com a coordenadora, os profissionais que atuam na Atenção Primária também têm papel importante na identificação e no acolhimento inicial de pessoas que apresentam algum tipo de sofrimento ou alteração relacionada à saúde mental.
As UBSs possuem vínculo direto com as comunidades e, por isso, muitas vezes são o primeiro ponto de contato de uma pessoa que começa a apresentar sinais de adoecimento. Além disso, equipes multiprofissionais contam com profissionais da área da psicologia que realizam atendimentos em diferentes territórios do município, incluindo regiões como Encantada, Centro, Ambrósio e outras localidades.
Também há atendimento direcionado à infância e à adolescência.
Quando a equipe da Atenção Primária identifica uma situação de maior complexidade ou que exige acompanhamento especializado, o paciente pode ser encaminhado ao CAPS.
CAPS funciona de portas abertas em Garopaba
O CAPS atende pessoas com transtornos mentais graves e persistentes e casos relacionados ao uso ou abuso de substâncias psicoativas. Segundo Bruna, o serviço atende desde crianças até idosos.
O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, sem fechamento ao meio-dia.
Uma das características destacadas pela coordenadora é o funcionamento em sistema de porta aberta. Isso significa que a pessoa que possui cadastro no município pode procurar diretamente o serviço para receber uma primeira escuta.
“É só vir, e aí vai ter um profissional para fazer essa escuta”, explica.
O acolhimento geralmente é realizado por profissionais como psicólogo ou assistente social. A partir dessa primeira avaliação, a equipe identifica quais são as necessidades da pessoa e qual modalidade de acompanhamento é mais adequada.
O acesso também pode ocorrer por meio de encaminhamentos feitos pela Atenção Básica, assistência social, educação ou outros setores que integram a rede de proteção.
Atendimento é definido de acordo com a necessidade de cada pessoa
Depois do acolhimento, a equipe avalia o caso e constrói um projeto terapêutico individualizado. O objetivo é compreender as necessidades de cada paciente e definir quais estratégias podem contribuir para sua recuperação.
O acompanhamento pode envolver consultas médicas, atendimento psicológico, grupos e oficinas terapêuticas, entre outras ações.
Atualmente, segundo Bruna, a equipe do CAPS conta com um médico clínico-geral com carga horária de 40 horas semanais, duas psiquiatras com 20 horas, psicóloga, enfermeira, técnico de enfermagem e profissionais responsáveis pelas oficinas terapêuticas.
O serviço também conta com profissionais responsáveis pela alimentação dos pacientes intensivos, que permanecem durante o dia no CAPS, além de motorista e veículo para o transporte dos usuários.
Outra frente de trabalho são as visitas domiciliares, destinadas principalmente a pacientes que, por diferentes motivos, não conseguem comparecer presencialmente ao serviço.
CAPS atua junto às UBSs
O trabalho também ultrapassa os limites físicos do CAPS. A equipe realiza o chamado matriciamento junto à Atenção Primária, aproximando profissionais especializados das equipes que atuam nas unidades de saúde.
Em determinadas ações, médicos do CAPS se deslocam até as UBSs para discutir casos e realizar atendimentos em conjunto com os profissionais que já acompanham os pacientes.

A estratégia, segundo Bruna, ajuda a ampliar a capacidade de atendimento da rede e também oferece maior segurança aos profissionais da Atenção Primária diante de situações relacionadas à saúde mental.
Família e comunidade também fazem parte do cuidado
Embora o acompanhamento profissional seja fundamental, a recuperação não depende apenas dos serviços de saúde. Família e comunidade também podem exercer um papel importante na identificação de mudanças de comportamento e no apoio durante o tratamento.

Bruna destaca que familiares podem auxiliar inclusive no acompanhamento da rotina do paciente e no uso correto de medicamentos quando necessário.
Mas nem todas as pessoas contam com uma rede familiar estruturada. Há situações de abandono, rompimento de vínculos, pessoas em situação de rua ou que vivem afastadas de seus familiares.
Nesses casos, a equipe avalia a condição da pessoa e busca outros suportes capazes de garantir o cuidado necessário.
O objetivo do CAPS, explica Bruna, é priorizar o tratamento dentro da comunidade, evitando a ruptura da convivência social sempre que possível. Em situações de risco à integridade física, entretanto, podem ser avaliadas outras medidas para preservar a vida, inclusive a necessidade de internação.
O desafio de reconhecer que é hora de pedir ajuda
Um dos obstáculos enfrentados no cuidado em saúde mental ainda é a dificuldade de reconhecer o próprio sofrimento e aceitar que é necessário procurar ajuda.
Para Bruna, essa aceitação pode ser justamente um dos primeiros desafios do processo de cuidado.
“Cuidar da sua saúde mental é de extrema importância, tanto quanto clínica.”
Segundo ela, nem sempre a própria pessoa consegue identificar que está passando por um processo de adoecimento. Em algumas situações, são familiares, amigos ou outras pessoas próximas que percebem as mudanças primeiro.
Uma das formas de observar que algo pode estar errado é perceber quando o sofrimento começa a interferir na rotina.
Mudanças no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e nos vínculos sociais podem indicar que é necessário buscar orientação profissional.
O objetivo do acompanhamento, explica a coordenadora, é ajudar o paciente a recuperar sua autonomia e retomar suas atividades cotidianas e seu bem-estar.
Saúde mental dos jovens também está entre as prioridades
Durante o Setembro Amarelo, o CAPS de Garopaba também ampliou as ações voltadas à população mais jovem.
A equipe realiza atividades em escolas para conversar com estudantes sobre saúde mental, identificação de sinais de sofrimento e a importância de pedir ajuda.
A atuação considera os desafios próprios da adolescência, período marcado por mudanças, necessidade de aceitação social, frustrações e construção da própria identidade.
Bruna chama atenção ainda para o impacto das redes sociais e da comparação constante com outras pessoas.
“A comparação é algo que é um mal no jovem e no adulto também, de achar que a vida do outro é sempre melhor do que a nossa.”
Para a profissional, um dos objetivos das ações nas escolas é ajudar os jovens a compreender melhor seus sentimentos, lidar com frustrações e identificar os espaços onde podem ser ouvidos.
A proposta não se limita à prevenção do suicídio, mas busca trabalhar a saúde mental de forma mais ampla.
“Não só na questão da prevenção do suicídio, mas na prevenção de saúde mental mesmo”, afirma.
Setembro Amarelo amplia ações para além das escolas
As atividades realizadas pelo CAPS durante setembro também envolvem outros setores da rede municipal.
Segundo Bruna, estão sendo realizadas capacitações com profissionais da Atenção Primária, além de ações nas escolas e atividades com equipes de urgência e emergência.
O objetivo é preparar os profissionais para reconhecer situações de risco, entender como agir diante delas e oferecer o encaminhamento adequado.
Dessa forma, o trabalho de prevenção não fica concentrado em uma única instituição. A proposta é fortalecer os diferentes pontos da rede para que uma pessoa em sofrimento tenha mais possibilidades de encontrar acolhimento e orientação.
Procurar ajuda pode ser o primeiro passo
Para Bruna, perceber que algo mudou na própria vida ou na rotina de alguém próximo deve ser motivo para atenção.
Isolamento, tristeza, alterações no sono, dificuldades relacionadas à alimentação, redução da interação social e outros comportamentos que indiquem uma mudança significativa podem ser sinais de que a pessoa precisa de ajuda.
A orientação é não esperar que a situação se agrave para procurar atendimento.
O CAPS trabalha justamente com a ideia de acolher, escutar e direcionar cada pessoa para o serviço mais adequado às suas necessidades.
“Quanto mais a sociedade se estender a mão, fazer essa compreensão do não estar bem, com maior facilidade a gente vai conseguir esse movimento de ajuda.”
O trabalho também envolve a construção de vínculos. Para a coordenadora, um dos momentos mais gratificantes para quem atua na área é acompanhar a recuperação de um paciente e vê-lo novamente desenvolvendo suas atividades e vivendo sua rotina.
A alta, nesse sentido, não representa necessariamente o fim de um vínculo, mas a possibilidade de a pessoa seguir sua vida sabendo que poderá procurar ajuda novamente caso precise.
Onde buscar atendimento em Garopaba
O CAPS de Garopaba funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, sem fechar ao meio-dia.
O serviço trabalha em sistema de porta aberta para acolhimento, permitindo que a pessoa procure diretamente a unidade para uma primeira escuta, desde que tenha cadastro no município.
A partir desse primeiro contato, a equipe avalia a situação e orienta sobre o atendimento mais adequado, seja no próprio CAPS ou em outro ponto da rede de saúde.
O Setembro Amarelo reforça uma mensagem que permanece durante todo o ano: pedir ajuda é uma forma de cuidado, e ninguém precisa enfrentar sozinho um momento de sofrimento.











