Cara e Caro leitor, a cena está se passando em um boteco (se pé-sujo ou não, cabe a vocês decidirem).
Na mesa, estavam Olívio, com sua inseparável carteira de cigarro Derby Azul; Nicolau, de quem não tínhamos entendido muito bem o posicionamento; Paulão, com sua indefectível camisa regata e seu sovaco “extracabeludo” (era o nosso ursinho Puff – como o chamávamos quando ele saía da mesa); Joca, o filósofo; e eu.
Conversa vai, cerveja e butiá vêm, e Juca solta, do nada:
_ O que é isto?

– Uma família tradicional! – grita Paulão.
– Uma família tradicional e conservadora. – ‘corrige’ Nicolau.
– De onde tu tirou conservadora, Nicolau? – Perguntamos, uníssonos, Paulão e eu.
– Ora, vocês dois, porque uma família conservadora foca na família, nas tradições, na ordem, moral e instituições. Também na religião, cultura e identidade nacional, aquela ali tem pai, mãe e filha, tem que ser conservadora.
– Mas qual religião e tradições? – Perguntei continuando a conversa – Então, uma família que não siga a tua religião, teus costumes, tuas definições do que é certo ou errado não pode ser uma família? E uma família de ateus, não pode criar os filhos com moral, preservando a família, com costumes e amando, respeitando e sendo orgulhosos do seu país?
E fiquei sem resposta porque Juca foi ao quadro da cancha de bocha e desenhou novamente:

– Pergunto para vocês, amigos do bar (e leitores) – disse Juca – A família desse desenho tem muitas questões que a família conservadora proíbe. Será que o tio – filho somente do avô – não pode ser tratado e amado pelos irmãos e sobrinhos – os quais nada têm a ver com o que o avô fez?
Há uma mãe separada com 2 filhos. Será que ela é julgada e afastada da família?
Outro casal, ali, casou-se já com um filho cada um. Os filhos serão renegados pelas novas famílias, ou serão amados como netos, sobrinhos e primos?
– Claro que não! Seria imoral fazer isso – disse Nicolau, enquanto Paulão e eu o olhávamos sem entender nada.
Olívio pigarreou, deu uma tragada, soltou sua baforada, reuniu forças pulmonares e falou:
– Todo tipo de família é família. Papai, Mamãe e filhinhos só são conservadores e tradicionais em propaganda de margarina, ou não?
– Aí, Olívio! Sempre certo! Em tua homenagem:
– Maneca, desce mais cinco Butiás!
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Loucura, não? Pois bem, tanto o primeiro, quanto o segundo desenho, retratam um pedaço da minha família e cada um do que estão ali representados têm um pedaço no meu coração.
Aquele tio que é filho somente do meu avô, é meu tio, sim! E se estiveres lendo: Tio, te amo!
Assim como amo as tias e tios, filhos dos meus avós. Infelizmente, só tenho uma viva, e tia, te amo! E te amo, também, pelos que já se foram.
Não tem como impor um tipo só de família. Religião, pessoas e afins, existem muitas, e são diferentes umas das outras. Ninguém sabe qual a verdadeira ou a certa.
Não cabe todo mundo em uma latinha de conserva. Na maioria das vezes, uma ervilhinha, lá da lata, acha uma brecha, “pula o muro” e estraga a tranquila passividade da latinha.
Viva a diversidade!
Sejamos felizes!
Abraços,
Richelly Ramos
P.S.: A família é minha e só quem pode falar mal dela sou eu!
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SOBRE A COLUNISTA

Richelly Ramos: Nascida e criada em Imbituba. Raízes e alma na terrinha, mesmo o destino levando para longe. Casada, mãe de uma jovem adulta, curiosa, cheia de defeitos, qualidades e opiniões. Imbitubense orgulhosa e feminista. Por que Papo de Boteco? Boteco é uma instituição nacional. Lugar de rir, fazer amizade (já diz o ditado: “Ninguém faz amigo bebendo leite!”), filosofar, opinar sobre até o que não se sabe o que é e, claro, ser antropólogo – estudar a humanidade baseada em fatos – reais ou não – ou seja, só fofocar mesmo.
Isto posto, cachaça de Butiá para quem é de Butiá e água para quem é de água. Sejamos todos felizes! Aproveitem a leitura e espero que gostem.










