Trabalhei em algumas escolas. De estagiário, passei a professor substituto e, finalmente, professor titular de inglês. Enquanto substituto, tive a oportunidade de dar aulas do que eu mais gosto, principalmente Literatura Brasileira. Como aprendi! Sobre mim mesmo, como indivíduo, sobre relações de trabalho, professor-aluno, organização escolar, etc. O jornalismo sempre foi um sonho e o magistério foi uma grata surpresa. A paixão pela educação e pelo ensino me tomaram de assalto.
Me lembro de uma aula que dei para a turma do terceiro ano do ensino médio da primeira escola onde lecionei. Conversamos sobre o ser humano como ser social e as mudanças de comportamento que favoreceram a evolução dos conluios humanos em busca por segurança e estabilidade. Foi cerca de uma hora e meia de uma boa conversa, com considerações relevantes para o meio escolar, debate aberto, sem imposições; com liberdade para até mesmo os devaneios clássicos da adolescência. Tentei ser diferente dos professores que me “davam nos nervos” enquanto aluno.
Em dado momento, conversávamos sobre o processo de modernização da sociedade, hoje tão massivamente diferente das primeiras associações humanas, de, no máximo, cem caçadores-coletores, que nada se preocupavam sobre empreender ou cumprir contrato, com futebol ou redes sociais. A configuração dos costumes sociais entre os seres humanos mudou. E mudou porque está em processo de constante alteração. Não é um privilégio exclusivo dos nossos ancestrais, nem chegará ao fim com o vitorioso Homo Sapiens.
Lastimosamente, o processo de mudança traz consigo algumas mazelas; estas que são parte de um processo de aprendizado. De “evolução”, se assim você preferir. Assim deveria ser, não é mesmo? Você erra. Você aprende. Erra de novo; se torna mais experiente. E, entre erros e acertos, nos tornamos pessoas mais coerentes, nos conhecemos com mais precisão, mais críticos; menos superficiais. Lamento por constatar que não parece ser essa a tônica do presente momento. E não me entenda mal, por favor. Essa não é uma crítica específica. Não estou criticando ao clero, aos políticos, aos militantes de esquerda, aos militantes de direita, ao proletariado ou ao patronato. É uma crítica ao que se tornou o Homo Sapiens do século XXI. Como um deles, considero essa uma crítica a mim mesmo.
Superficialidade, ofensas, principalmente quando se acabam os argumentos, sarcasmo, descaso, desonestidade, simplismo… quando não a mentira nua e crua, sem rodeios. Um show de horrores que permeia, virtual e presencialmente, quase a totalidade das discussões atuais – do simplório ao relevante. Onde foi parar o senso crítico? Onde foi parar a vergonha de soar ridículo?
Parecemos viver o “iluminismo às avessas”, onde os cultuados não são o saber, a ponderação e análise honesta, o vigor da pesquisa científica e o anseio por novas perguntas a serem respondidas, mas a retórica distorcida, a trivialidade e, em vários casos, a nua ignorância. É um verdadeiro concurso de frases feitas – sem significado prático algum. Com a expansão dos webespaços, o escritor italiano Umberto Eco parece cirúrgico: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Repito, essa é uma crítica a todos os segmentos da nossa sociedade.
O Brasil precisa parar, nós precisamos parar, pensar antes de emitir opiniões, repensar e considerar o que vale ou não ser levado a diante. O Brasil precisa repensar sua postura – como sociedade – para que possa cobrar dos seus líderes um posicionamento coerente, se é que a falida democracia representativa ainda serve de alguma coisa. O Brasil precisa repensar sua identidade. E repito “o Brasil” na intenção de que fique clara a obrigatoriedade da participação de todos e todas. Antes que não haja mais espaço para a definição de uma identidade.









