Há histórias que não começam onde uma pessoa nasce. Começam muito antes, nas casas dos avós, nas lembranças dos familiares, nos caminhos percorridos por quem precisou partir e nos lugares que continuam presentes mesmo quando a vida leva seus moradores para longe.
A história de Gilberto Alcebíades Pinheiro, o Gemada, 48 anos, passa justamente por esse caminho de pouco mais de 60 quilômetros entre Florianópolis e Paulo Lopes. Uma relação construída antes da vida pública e que atravessa gerações de uma família profundamente ligada ao município, especialmente pelo lado materno e à família Demétrio.

Nascido em Florianópolis, Gemada cresceu no Sul da Ilha, mais especificamente no bairro Costeira do Pirajubaé, e ali construiu sua trajetória profissional e política, hoje expandida para toda a Capital. Mas parte importante de sua história familiar está em Paulo Lopes, especialmente no bairro Ribeirão, onde viveram seus avôs, tios, os queridos tios-avôs Osni e Santilina e onde permanecem algumas das lembranças mais afetivas de sua infância, juventude e de sua família.
É para onde ele retorna sempre que pode para reencontrar familiares e amigos, jogar futebol, pescar e revisitar lugares que fazem parte de suas memórias, como a Lagoa do Coração, a igreja católica, o campo de futebol do Ribeirão, bem como bairros do Norte de Garopaba, colados em Paulo Lopes, como Gamboa e Siriú.
Mais do que um município próximo de Florianópolis, Paulo Lopes acabou se transformando, para Gemada, em uma espécie de segunda casa construída pela memória.
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Raízes estão no Ribeirão
Do bairro Ribeirão, em Paulo Lopes, também saíram Osni e Santilina, tios-avôs de Gemada. Hoje também moradores da Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis, os dois carregam décadas de histórias de um município muito diferente daquele que existe atualmente.
Nas lembranças do casal, além do início do romance, que já dura mais de 70 anos, na Lagoa do Coração e outras belas lembranças, estão a vida na roça, os trabalhos na lavoura, as dificuldades de uma época em que havia poucas alternativas de emprego e as mudanças que fizeram com que muitas famílias deixassem Paulo Lopes em busca de novas oportunidades.
Osni resume aquele período de maneira direta:
“Era só roça. Era lavoura, não dava nada. Não tinham oportunidades”.

Foto: Arquivo Pessoal
A frase ajuda a compreender não apenas a história da família de Gemada, mas também um movimento que marcou diferentes famílias de Paulo Lopes e do norte de Garopaba.
Em busca de trabalho, estudo e melhores condições de vida, muitos moradores deixaram suas comunidades e seguiram para Florianópolis. A Costeira do Pirajubaé e outros bairros do Sul da Ilha, como Saco dos Limões, Carianos e Campeche, receberam famílias que levaram consigo muito mais do que pertences.
Levaram suas histórias, seus costumes, suas amizades e, principalmente, suas raízes. E a família de Gemada fez parte desse movimento.

Foto: Arquivo Pessoal
Quando Paulo Lopes e Florianópolis se encontraram
Na Costeira do Pirajubaé, onde vivem Osni e Santilina e vários tios, primos e outros familiares de Gemada, a ligação com Paulo Lopes continua presente.
Foi também em Florianópolis que Gemada construiu sua própria trajetória. Antes de chegar à Câmara Municipal, trabalhou como motorista de ônibus, profissão que marcou uma parte importante de sua vida e de sua relação com a cidade.
Muito popular na cidade, Gemada foi convencido a entrar para a vida pública, para representar as comunidades. Na política, foi eleito vereador pela primeira vez em 2020. Em 2024, foi reeleito com 6.968 votos, a maior votação entre os candidatos ao Legislativo de Florianópolis.
Mas, muito antes da política, já existia uma ligação familiar com a vida pública. Gemada é sobrinho-neto de Joaquim Demétrio, que foi prefeito de Paulo Lopes e é lembrado por ele como uma importante referência familiar.

Foto: Arquivo Pessoal
É justamente essa combinação de histórias: a família que saiu de Paulo Lopes, a vida construída em Florianópolis e a presença de um antepassado na política do município de origem que torna a relação de Gemada com Paulo Lopes tão particular.
Joaquim Demétrio, uma referência dentro da família
A política já fazia parte da história familiar antes de chegar à vida de Gemada.
Osni e Santilina lembram de Joaquim Demétrio, parente da família que ocupou a Prefeitura de Paulo Lopes.
Para Gemada, Joaquim representa a principal referência política entre seus antepassados.
“O único elo político que eu tenho na minha família é o Joaquim Demétrio, que é lá de Paulo Lopes”, afirma.
A lembrança mostra como a história política e a história familiar acabam se cruzando.
De um lado, um antepassado que ocupou a Prefeitura de Paulo Lopes. De outro, décadas depois, um descendente que nasceu e construiu sua trajetória em Florianópolis, mas preservou uma relação afetiva com a terra de onde vieram seus familiares e mantém o sonho de um dia vir a ajuda-la politicamente.
O Ribeirão que permanece na memória
Entre todos os lugares de Paulo Lopes, é o Ribeirão que aparece com maior força nas lembranças de Gemada. É ali que estão referências familiares, histórias de infância, partidas de futebol, pescarias e encontros que atravessaram os anos.
Uma dessas tradições reúne amigos da Costeira que retornam ao bairro para jogar bola.
“Todo ano a gente freta um ônibus e vamos bater uma bola lá onde veio a nossa origem, de onde vieram nossas famílias e onde vou sempre que posso”, conta Gemada.
A partida de futebol pode parecer um encontro simples. Mas, para quem participa, representa também uma maneira de manter vivo o vínculo com um lugar que marcou a história de várias famílias.
Marcelo, morador e proprietário de um bar e mercearia da região e um dos responsáveis por receber o grupo, acompanha esses reencontros.
“Várias pessoas vêm se encontrando. O motivo realmente é esse. É sempre uma festa esse reencontro. E o Gemada é nosso camisa 10”, relata o comerciante, que também comanda e atua no time do bairro.
São encontros que aproximam novamente pessoas que, em algum momento da vida, precisaram seguir caminhos diferentes.
Paulo Lopes, Gamboa e Siriú: uma história que ultrapassa fronteiras
A relação familiar também se estende para além dos limites de Paulo Lopes.
Ao longo dos anos, Gemada manteve vínculos com comunidades do norte de Garopaba, especialmente Gamboa e Siriú com suas belíssimas praias e o futebol, de areia, regiões que também fazem parte das histórias familiares e das amizades construídas ao longo das gerações.
É comum que seus retornos à região incluam encontros com amigos, partidas de futebol, pescarias e visitas a lugares que permanecem associados às lembranças de família.
A proximidade geográfica entre Paulo Lopes, Garopaba e Florianópolis ajudou a criar uma verdadeira rede de relações entre famílias que se deslocaram, formaram novas casas e, mesmo assim, continuaram retornando aos lugares de origem. A história de Gemada está inserida nesse movimento.
Família que precisou partir
Para entender essa ligação, é preciso voltar algumas décadas. O Paulo Lopes da época de Osni e Santilina era predominantemente rural. A agricultura e a vida no campo faziam parte do cotidiano, mas as opções de trabalho eram limitadas. Para muitas famílias, permanecer significava conviver com poucas alternativas.

Foto: Arquivo Pessoal
Florianópolis, por outro lado, oferecia um mercado de trabalho maior e novas possibilidades. Foi assim que famílias de Paulo Lopes e também do norte de Garopaba chegaram à Capital.
A Costeira acabou se tornando um dos pontos de encontro dessas histórias. Famílias que tinham origem em pequenas comunidades passaram a viver em Florianópolis, mas continuaram cultivando os vínculos com seus municípios de origem.
Foi o que aconteceu com a família de Gemada. A mudança de cidade não significou o desaparecimento das raízes.
“Está faltando muito emprego para a juventude”
Santilina também guarda uma visão muito particular sobre as mudanças ocorridas ao longo das décadas.
Ao recordar a situação dos jovens e a saída de moradores de Paulo Lopes, ela afirma:
“Está faltando muito emprego para a juventude. Porque eles vêm para onde? Vêm para cá, porque lá não tem.”
A fala da tia-avó de Gemada ajuda a dimensionar o contexto em que tantas famílias deixaram a região.
Mais do que uma lembrança individual, é o retrato de uma época em que a migração para centros maiores fazia parte da trajetória de muitas famílias de municípios pequenos.
E, mesmo depois de décadas vivendo em Florianópolis, Osni e Santilina continuam carregando Paulo Lopes consigo.
Uma memória que atravessou gerações
Gemada nasceu em Florianópolis. Foi na Capital que cresceu, trabalhou como motorista de ônibus e construiu sua carreira política.
Mas a história de sua família não começou ali. Começou em Paulo Lopes. Passou pelo Ribeirão e por outras comunidades, pelas famílias que permaneceram e pelas que partiram. Chegou à Costeira do Pirajubaé e a outros bairros do Sul da Ilha. Sobreviveu nas reuniões familiares, nos jogos de futebol, nas pescarias, nos cafés e nos almoços.
E continuou presente.
Às margens da Lagoa do Coração, no Ribeirão, onde seus tios-avôs se conheceram a iniciaram a bela história de amor, Gemada resume em poucas palavras o sentimento que mantém essa ligação viva.
“Quando a gente fala de Paulo Lopes, sempre vem na cabeça a Pinguela, a Lagoa do Coração, aqueles cafés da tarde, almoço, meus avós falando, o namoro do tio Osni e da tia Santilina. Paulo Lopes é um lugar que está no meu coração, na minha história”, afirma, olhando para a lagoa que hoje contrasta com algumas fábricas vizinhas, mas que ainda figura em um grandioso ambiente rural.

Foto: Arquivo Pessoal
É talvez nessa frase que esteja a resposta para a pergunta que acompanha toda essa história: O que o vereador mais votado de Florianópolis tem a ver com Paulo Lopes?
A resposta está muito além da política.
Está nos sobrenomes, nos parentes, nas lembranças, nas histórias contadas pelos mais velhos, nas partidas de futebol no Ribeirão, nas pescarias, nos encontros na Costeira e nos caminhos percorridos por uma família que um dia deixou Paulo Lopes, mas nunca deixou de voltar.
Entre Florianópolis e Paulo Lopes existem pouco mais de 60 quilômetros. Para quem olha apenas o mapa, é uma distância. Mas para Gemada e sua família, é um caminho entre dois lugares que, há gerações, continuam ligados pela mesma história.
Uma história que começou no Ribeirão, passou pela Costeira e chegou à vida pública de Florianópolis, mas que mantém suas raízes fincadas em Paulo Lopes.

Foto: Arquivo Pessoal











