“O GP do Brasil que Eu Nunca Esqueci”

Eu tinha treze anos e estava sentado no chão da sala, bem na frente da televisão de tubo da minha mãe, em Florianópolis. Era logo após o almoço de domingo, 28 de março de 1993. O cheiro do arroz, feijão e bife ainda pairava no ar. A casa estava quieta, só eu e a tela. Eu tinha deixado o prato na pia e corrido para a sala assim que a transmissão começou.
Senna era meu ídolo absoluto, não era só admiração de criança, era o cara que eu queria ser na vida. O jeito dele de não baixar a cabeça, de transformar desvantagem em vitória. E naquele dia, ele estava com uma McLaren Ford contra a Williams-Renault de Alain Prost, a máquina mais avançada da Fórmula 1. Prost tinha motor mais potente, suspensão ativa, controle de tração eletrônico e Senna tinha talento, coragem e uma vontade que nenhum equipamento conseguia medir.
Eu me lembro de cada detalhe, Prost na pole, Senna em terceiro e meu peito apertava toda vez que a câmera mostrava o rosto dele. Quando Senna largou bem e tomou o segundo lugar logo na primeira volta, eu quase me levantei do chão e depois veio a punição, o stop-and-go, aquela revolta que me fez falar sozinho com a televisão.
A CHUVA VEIO E MUDOU TUDO, Prost perdeu o controle no “S” do Senna, bateu e abandonou. Eu o vi sair do carro, tirar o capacete na chuva e caminhar pelo asfalto molhado. Naquele momento, o menino de treze anos que eu era entendeu que nem o melhor carro do mundo salva quem não consegue controlar o que está acontecendo. Senna assumiu a liderança.

Quando ele parou o carro na reta oposta depois da bandeirada, levantando-se no meio da multidão que invadiu a pista, eu chorei. Não era só uma vitória. Era a prova de que um piloto com carro inferior, com pressão do óleo caindo na última volta, podia vencer.

Depois veio a imagem que nunca saiu da minha cabeça, Senna sendo levado no safety car, mas sentado com metade do corpo para fora acenando para a torcida, celebrando com o povo que o amava. Aquela cena era ele inteiro.
Naquela tarde de março de 1993, em Florianópolis, logo após o almoço, eu aprendi que a vida não dá vantagem para quem tem o melhor equipamento. Ela premia quem tem a alma maior que qualquer adversidade e Senna me mostrou isso.
Foi o dia em que entendi que ser grande não é ter o carro mais rápido. É ter a garra, a dedicação e o talento de nunca desistir. E até hoje, toda vez que fecho os olhos e vejo Senna em pé em cima daquele carro, molhado de chuva e de glória, eu lembro que, para quem não desiste, o impossível é só uma questão de tempo.

Autor: F1 Tiozão – “Pit stop de notícias, sem enrolação.”










