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Érika dos Reis

CONTEMPORANEIDADE: Rancho de pesca comunitário da praia da Ibiraquera vira mural de arte em grafite a céu aberto em Imbituba; veja a reportagem

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Um lugar incomum para a arte urbana, mas repleto de significado para os pescadores da paradisíaca praia de Ibiraquera, em Imbituba. É ali, no rancho de pesca do Seu Ademar, que um mural em grafite, assinado pelos artistas Leo Constanzo e o argentino Nômade, transformou o cenário em um encontro entre tradição, modernidade e a troca de culturas e gerações.

Tudo começou com uma conversa com o Seu Ademar no início do ano, o qual viu Leo grafitando um mural em plena praça de Ibiraquera. Encantado com o trabalho do artista, o pescador disponibilizou seu rancho de pesca para, quem sabe um dia pintá-lo.

Animado com a oportunidade, Leo decidiu chamar o grafiteiro argentino Nômade para criar uma tela refletindo todo o encanto da praia de Ibiraquera e do próprio trabalho dos pescadores.

Léo Constanzo e Nômade

Trabalho e rotina dos pescadores

Em meio à rotina da pescaria, cercados por redes, barcos e anzóis, os artistas encontraram em uma antiga parede de madeira uma tela improvável. No início do mês de maio iniciaram os trabalhos e em quatro dias, a tela já estava pronta. Com cores vivas e traços marcantes, deram forma a uma obra que traduz o amor por essa terra.

“Foram quatro dias pintando o mural em meio a rotina de pesca. No último dia, quando o mural estava quase finalizado, inclusive, os pescadores estavam celebrando o primeiro dia de captura de uma grande quantidade de tainha na praia e de Ibiraquera”, conta Constanzo.

Segundo a dupla, a experiência foi enriquecedora por todos os lados, principalmente pela troca com os pescadores. “Eles nos chamaram pra tomar café, conversamos, trocamos experiências, é algo muito legal”, conta Nômade.

Leo é morador da comunidade há cinco anos; Nômade, como o próprio nome sugere, é um cidadão do mundo. Ambos compartilham um amor pelo litoral, pelas praias e pelo surfe. Juntos, deixaram em Ibiraquera uma expressão artística que conecta diferentes olhares, histórias e vivências.

Rancho de pesca de Ademar

Da arquitetura ao grafite: a escolha por uma vida guiada pelo mar

Natural do Rio Grande do Sul, Leo Costanzo trabalha com grafite e muralismo há cerca de duas décadas. Antes de transformar muros em telas, atuava como arquiteto concursado, mas decidiu mudar o rumo da própria história em busca de uma vida mais simples, próxima da natureza.

“Larguei meu trabalho de arquiteto concursado para buscar a paz do surfe, da praia e do mar”, destaca o artista.

Leopoldo Constanzo / Reprodução: Redes Sociais

Vegetariano e guiado pelos encontros proporcionados pelo litoral, Leo passou a enxergar na arte urbana uma forma de aproximar culturas e valorizar histórias que muitas vezes ficam fora dos espaços tradicionais de exposição.

“Quando eu vim morar aqui, vi que tinha muito potencial de unir essas culturas. A arte urbana, que é uma cultura mais atual, com a cultura tradicional dos pescadores, da pesca, da farinha… trazer tudo isso junto”, explica.

Para ele, o grafite tem justamente essa capacidade de ocupar espaços cotidianos e dialogar diretamente com as pessoas. “Não é uma arte que vai ficar em uma galeria, que só poucas pessoas têm acesso. Ela se comunica direto com a população e ajuda a trazer a memória dessa tradição”.

Detalhes do mural trazendo as atividades
e símbolos da comunidade

O mural do rancho de Seu Ademar nasceu justamente dessa intenção. A obra reúne elementos que fazem parte da paisagem e da identidade de Ibiraquera: os pescadores, a baleia-franca, as garças da Ilha do Batuta, as ondas e o kitesurf.

“A gente quis trazer um pouco da cultura dos pescadores e elementos do nosso dia a dia também. A gente vem de uma cultura do litoral, do surfe, do mar. Então juntamos tudo isso para retratar o nosso local e a nossa vida aqui”, afirma Leo.

Uma ponte entre Brasil e Argentina

A parceria com o artista argentino Matias, conhecido como Nômade, surgiu através das redes sociais e ganhou forma quando os dois perceberam que era o momento ideal para criar juntos.

“Ele já tinha vindo algumas vezes para a região e a gente já conversava pelas redes sociais sobre fazer alguma pintura, mas nunca tinha acontecido. Dessa vez, todos os fatores se alinharam”, relembra Leo.

Matias ‘Nômade’ / Reprodução: Redes Sociais

Para Nômade, que nasceu em Mar del Plata, na Argentina, a experiência foi marcada pela troca cultural e pela convivência com a comunidade. “Foi uma experiência muito legal. A conexão e a troca cultural foram muito lindas, muito nutritivas para nós dois”, conta.

Além da parceria artística, o argentino destaca a acolhida dos pescadores. “Eles nos receberam muito bem, convidaram para almoçar, tomamos café juntos. A troca cultural entre o clássico dos pescadores e a arte moderna urbana foi uma experiência muito boa.”

Apesar das diferenças entre os litorais brasileiro e argentino, ele encontrou semelhanças na relação das comunidades com o mar.

“Lá também tem muita pesca, mas é diferente. A natureza muda, mas a cultura, o surfe e muitas coisas são parecidas.”

Garça presente na Ilha do Batuta

O último dia de pintura acabou se tornando um momento ainda mais especial. Enquanto os artistas finalizavam os detalhes do mural, os pescadores celebravam uma captura expressiva de tainha, criando uma cena que parecia parte da própria obra.

“Foi especial. A gente estava acabando o mural, fazendo os últimos detalhes, e de repente começou toda aquela movimentação dos pescadores. Nunca tinha vivido essa experiência. Ver a emoção deles quando avisaram do pescado foi muito satisfatório”, conta Nômade.

Para Leo, o encerramento simbolizou exatamente aquilo que o mural representa.

“O último dia foi muito importante porque a gente já estava em um clima de confraternização. O trabalho mais pesado tinha passado e aconteceu essa primeira pesca grande da temporada. Uniu a emoção deles com a nossa. Foi um dia de celebração”, destaca.

Um novo olhar para um antigo território

Proprietário do rancho de pesca que virou tela, Ademar Teixeira acompanha há anos a rotina da pesca artesanal na região. No local, trabalha com uma equipe de 12 homens e viu o espaço ganhar uma nova identidade sem perder sua essência.

“Eu disse mais ou menos o que eu queria, e que aceitava, pois não tinha custo. Uma maravilha! Tanto que eu já chamei ele pra fazer na frente também. Na frente e na parte de trás também”, revela seu Ademar.

A pintura, segundo os artistas, não veio para substituir a história do rancho, mas para somar a ela. A madeira marcada pelo tempo agora carrega também novas cores, mantendo viva a memória de quem vive do mar.

Para Leo, essa é justamente a força da arte urbana: transformar espaços comuns em lugares de encontro. “É uma união de culturas: a cultura tradicional e a cultura moderna”.

E em Ibiraquera, entre redes de pesca, ondas e pincéis, essa união ganhou forma, deixando na paisagem não apenas um mural, mas uma história compartilhada entre quem pinta, quem pesca e quem passa por ali.

Rancho de pesca da praia de Ibiraquera
https://chat.whatsapp.com/Ko6tmdGiCiFLPj6WSCikAi

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