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Pesquisadora estuda mercado de trabalho das mães solo no Brasil, que ganham 40% menos que pais casados; 70% dos brasileiros acreditam que homens são 'exigidos demais' a apoiar igualdade

MULHER: mães solo no Brasil ganham 40% menos que pais casados; 70% dos brasileiros acreditam que homens são ‘exigidos demais’ a apoiar igualdade

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Por Thais Carrança e Paola Churchill – BBC News Brasil

A pesquisadora Mariene Ramos cresceu cercada de mães solo, que são as mulheres que criam seus filhos sem o apoio de um parceiro ou parceira. Nascida em Ponte Alta do Bom Jesus, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes no interior do Tocantins, Mariene se mudou com a família para o Distrito Federal aos 7 anos, por motivo de doença de um irmão mais novo.

Após o falecimento deste irmão e com o pai aposentado precocemente por um acidente de trabalho, sua mãe passou a complementar a renda da família cuidando dos filhos de vizinhas em Novo Gama, cidade goiana da periferia de Brasília.

“Passei cerca de três anos morando com amigos da família para poder estudar, enquanto meus pais trabalhavam no setor de chácaras de Brasília”, lembra Mariene, que antes disso estudou em escola rural, onde alunos de diversas idades convivem em uma mesma série.

“Quando mudamos para o Novo Gama, eu já tinha 13 para 14 anos, e ajudava minha mãe com essa dinâmica, de deixar e buscar criança na escola, de fazer comida”, conta a pesquisadora, hoje com 36 anos.

“Eu eu via a luta daquelas mulheres. A maioria eram domésticas, nem todas eram mães solo — mas muitas eram. Enquanto outras eram casadas, mas não podiam contar com os maridos, por questões como o vício em bebida, então, na prática, se tornavam meio mães solo também.”

Mariene Ramos posando para a foto sorrindo. Ela tem os cabelos trançados em estilo afro e usa óculos escuros, camisa salmão e calças brancas. Está com os braços cruzados sobre o peito e olha para a câmera meio de perfil. Ao fundo se vê um mural colorido com a palavra "cuidar" em destaque

Mariene Ramos busca entender como trabalham essas quase 11 milhões de brasileiras. Foto:,Janaíne Meira

Com pai e mãe que não concluíram o ensino fundamental, Mariene se formou no ensino médio, tornou-se funcionária pública e completou duas faculdades, de gestão pública e jornalismo.

Nesse meio tempo, porém, tornou-se ela mesma uma mãe solo — tema que decidiu estudar em seu mestrado em políticas públicas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“Sem rede de apoio, após me mudar do Novo Gama para Brasília para o mestrado, precisei levar minha filha para muitas das aulas”, lembra Mariene. “Todas as aulas à noite, eu levava, então, no aniversário dela de 14 anos, ela estava em uma aula de Econometria junto comigo.”

“Foi aí que me deu mais vontade ainda de estudar sobre esse tema”, conta a pesquisadora, destacando a importância do assunto em um momento em que o Brasil passou a ter maioria de domicílios chefiados por mulheres.

Desde 2022, elas passaram à frente dos homens na chefia dos lares brasileiros, tornando-se responsáveis por 52% dos domicílios.

Nos lares monoparentais — aqueles onde apenas um adulto vive com os filhos, sem a presença de um cônjuge — a chefia feminina chega a 92%, segundo estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Menos renda e formalização, mais serviço doméstico

Coorientada pelos pesquisadores Carlos Corseuil e Marcos Hecksher, a pesquisa de mestrado de Mariene traça um retrato de como trabalham as mães que criam seus filhos sozinhas no Brasil, a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, de 2022.

No estudo, a pesquisadora considera como mães solo as mulheres chefes de domicílio, com filhos e sem cônjuge. Em 2022, o Brasil somava mais de 10,9 milhões de mães solo responsáveis por domicílio, o equivalente à população total de países como Portugal ou Bélgica.

“Os estudos sobre mães solo no Brasil hoje são muito escassos”, observa Mariene.

“Sempre ouvimos falar de penalidade pela maternidade, mas tratando as mulheres como um grupo homogêneo — mas elas não são iguais.”

Penalidades pela maternidade são desvantagens profissionais e econômicas que mulheres enfrentam no mercado de trabalho após se tornarem mães, incluindo menor probabilidade de contratação ou promoção e percepção de menor competência, que se expressam, por exemplo, em rendimentos mais baixos.

Em 2022, mães solo tinham o menor rendimento médio (R$ 2.322) entre os arranjos familiares, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% inferior à renda média das mães com cônjuge — pessoas com cônjuge contam ainda com o rendimento do parceiro para compor a renda familiar.

“As mães solo não sofrem penalidade apenas no rendimento, elas sofrem também na questão da precariedade do trabalho”, observa Mariene.

Em 2022, o grupo apresentava uma taxa de ocupação de 50,2%, inferior aos pais com cônjuges (81%) e às mães com cônjuge (53,2%).

Elas também tinham a menor taxa de contribuição previdenciária (28,3%), significativamente inferior aos pais com cônjuge (54,8%) e mesmo às mães com cônjuge (34,7%).

“Essa baixa cobertura previdenciária representa uma vulnerabilidade de longo prazo para as mães solo, comprometendo a segurança social na velhice ou em situações de incapacidade”, destaca a autora do estudo.

Analisando a população ocupada por setores da atividade econômica, Mariene observa que há uma concentração de mães solo em setores historicamente desvalorizados e marcados por baixos salários, como serviços domésticos (21,9%).

O percentual de mães solo trabalhando como empregadas domésticas é significativamente superior ao das mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes maior que o dos pais com cônjuge (0,8%).

“Isso reforça a hipótese de que as mães solo estão confinadas em setores com menores remunerações”, destaca a pesquisadora, em sua dissertação.

Baixa escolaridade e ‘geração sanduíche’

A escolaridade é um fator importante para compreender essa precária inserção das mães solo no mercado de trabalho.

Pouco mais de 55% têm, no máximo, o ensino médio incompleto, percentual superior ao de pais com cônjuge (46,6%), mães com cônjuge (39,9%) e mulheres sem filhos (47,9%), ficando atrás apenas dos pais solo (61,4%).

E apenas 13,7% das mães solo concluíram o ensino superior, abaixo das mulheres sem filhos (22,1%) e também das mães com cônjuge (19,9%).

Mariene destaca, porém, que a escolaridade não explica tudo, e que é preciso levar em conta também a discriminação sofrida pelas mães solo no mercado de trabalho.

“Muitas vezes, o empregador supõe que aquela pessoa vai ter menos disponibilidade, menos flexibilidade e vai render menos”, observa a pesquisadora.

“Então, ela acaba não conseguindo ocupar cargos mais altos ou ocupa aqueles com salário um pouco mais baixo.”

Analisando o perfil racial, 62% das mães solo são negras, sendo 14% pretas e 47% pardas, enquanto 37% são brancas e 2% de outras raças ou cor. O percentual de pessoas negras no grupo é superior ao do conjunto de pais solo (60%), mães com cônjuge (59%), pais com cônjuge (56%) e mulheres sem filhos (50%).

Mariene destaca ainda a questão da “geração sanduíche” — mulheres pressionadas simultaneamente pelo cuidado de filhos e de pais idosos.

No caso das mães solo, 33,5% residem em domicílios com pessoas acima de 60 anos. Essa proporção é mais que o dobro das mães com cônjuge (15,7%) e supera significativamente a dos pais com cônjuge (19,4%).

Mãe, filha e avó olham para a câmera sorrindo e se abraçam carinhosamente
Mais de 33% das mães solo residem em domicílios com idosos, o que pode implicar em rede de apoio, mas também em dupla jornada de cuidado

“Esses idosos podem representar uma rede de apoio, mas também podem precisar da ajuda dessa mãe, então, muitas delas vivem uma jornada dupla de cuidado, ou uma jornada tripla”, diz a pesquisadora.

Por fim, ela observa que 57% das mães solo recebem algum tipo de benefício social do Estado, proporção substancialmente superior à dos pais com cônjuge (19%) e também superior à das mães com cônjuge (34%), dos pais solo (49,9%) e das mulheres sem filhos (48,6%).

A pesquisadora destaca que isso é consequência direta da falha do mercado de trabalho em absorver adequadamente a mão de obra dessas mulheres.

“Como essas mães não estão conseguindo receber [através do trabalho] um rendimento que consiga arcar com suas despesas, o Estado acaba tendo que entrar com benefícios”, afirma.

Creches e qualificação profissional

Para mudar esse quadro, Mariene defende que é preciso aumentar a oferta de creches em tempo integral no país.

Um estudo recente da ONG Todos pela Educação mostrou que, em 2024, apenas 41,2% das crianças de até 3 anos eram atendidas por creches no país — ainda distante da meta de 50% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE).

Entre os mais pobres, 30,6% das crianças eram atendidas, enquanto entre as mais ricas, a taxa chegava a 60%.

O levantamento também mostrou que quase 2,3 milhões de crianças de até 3 anos estavam fora da creche em 2024, por dificuldades de acesso, como falta de vagas ou de unidades próximas.

Crianças em creche municipal em Manaus
Quase 2,3 milhões de crianças de até 3 anos estavam fora da creche em 2024, por dificuldades de acesso, como falta de vagas ou de unidades próximas

A pesquisadora do Ipea diz ainda que é preciso reconhecer o tempo de cuidado dessas mães, debate que vem ganhando espaço no Brasil, a partir da aprovação da Política Nacional de Cuidado.

Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), com base em dados da Pnad Contínua de 2019, mostra que, somadas as horas remuneradas e não remuneradas, as mulheres brasileiras trabalham em média 58,1 horas semanais, ante 50,3 horas dos homens.

A carga de trabalho não remunerado das mulheres chega a 21,3 horas semanais, mais do que o dobro das 8,8 horas masculinas, “configurando uma jornada total equivalente a uma escala 7×0: todos os dias da semana, sem folga”, destacam os pesquisadores do Made, em estudo lançado neste domingo (8/3), por ocasião do Dia Internacional da Mulher.

Por fim, Mariene defende ainda que é preciso investir na qualificação profissional das mães solo, para que um maior número delas possa obter renda suficiente por meio do trabalho. Mas, para isso, ela reforça novamente a importância da oferta de creches, para que essas mães possam estudar e trabalhar.

“Hoje, eu entendo minha mãe como uma política pública ambulante”, brinca a pesquisadora, sobre o trabalho de sua mãe como cuidadora dos filhos de vizinhas. “Naquela época, eu não entendia assim, mas, hoje, entendo que é isso.”

“Precisamos olhar para essas mulheres — essa maioria de mulheres nas chefias de lar, essas 11 milhões de mães solo. Não se trata mais de um grupo marginal, mas de uma transformação estrutural do país”, considera a pesquisadora.

“Quando o mercado e as políticas públicas se ajustam a essa realidade, toda a economia ganha”, diz Mariene.

“Precisamos inseri-las no mercado de trabalho, não de forma assistencialista, mas para que elas consigam viver do seu próprio trabalho.”

Fazendo isso, afirma a pesquisadora, será possível ter uma próxima geração, que são os filhos dessas mulheres, talvez com menos dificuldades.

“Eu furei essa bolha: me tornei servidora pública, fiz mestrado, e pretendo continuar esse estudo no doutorado. Mas, para que mais pessoas possam furar a bolha, é preciso trazer essas mulheres, essas mães, para um mercado de trabalho menos precário.”

70% dos brasileiros acreditam que homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade com mulheres, aponta estudo

Os homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade com as mulheres. Essa é a opinião de 70% dos brasileiros que responderam a uma pesquisa que investigou a opinião sobre questões de gênero em 29 países.

O índice de concordância com essa visão no Brasil ficou bem acima da média global, de 46%, e foi o mais alto dentre todos os países do levantamento, ao lado da Índia, também com 70%, seguidos por Malásia (68%) e Indonésia (64%).

Mas o Brasil aparece em primeiro no ranking deste ponto porque, entre os brasileiros, o percentual dos que discordam foi de 21%, menor do que entre os 27% registrados entre os indianos.

Quando os resultados são separados entre homens e mulheres, há praticamente um empate, com um nível de concordância ligeiramente maior entre as mulheres, de 71%, enquanto 69% dos homens disseram o mesmo.

Ao mesmo tempo, a maioria dos participantes brasileiros da pesquisa (52%) avaliam que a igualdade de direitos entre homens e mulheres “já avançou o suficiente” no país, um aumento de dez pontos percentuais em relação a um levantamento anterior realizado em 2019.

A pesquisa mostra ainda que 43% dos brasileiros acreditam que a promoção da igualdade das mulheres foi tão longe a ponto de homens serem hoje discriminados. Essa opinião é mais comum entre homens (50%), mas uma parcela relevante das mulheres (36%) compartilha dela.

Entre os brasileiros, aponta o levantamento, 38% se identificam como feministas — 30% entre os homens e 47% entre as mulheres.

Para Catarina de Almeida Santos, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Diversidade Sexual e de Gênero da Universidade de Brasília (UnB), esses dados ilustram uma reação conservadora ao maior debate sobre igualdade de gênero e dos direitos mulheres no Brasil.

“Quanto mais as mulheres abrem a boca, mais tem uma reação mais violenta”, diz Santos.

“O debate crescer não significa que a gente avançou objetivamente. Você debate mais, mas não significa que na prática a gente fez isso.”

Mulheres durante manifestação segurando uma faixa "Feminismo é revolução"

Beatriz Besen, pesquisadora associada do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, chama atenção para o fato de que o Brasil aparece no levantamento ao lado de Índia, Malásia e Indonésia, países onde as transformações nas relações de gênero foram rápidas e concentradas no tempo, diferentemente de países europeus onde essas mudanças ocorreram de forma mais gradual ao longo do século 20.

“Isso faz com que novos valores convivam com estruturas normativas mais antigas”, diz Besen.

“Discursos que afirmam uma assimetria ou injustiça dirigida aos homens tendem a encontrar maior ressonância social.”

Para a pesquisadora Letícia Oliveira, que estuda o conservadorismo no Brasil, o empate entre homens e mulheres no Brasil reflete a penetração de um discurso antifeminista que não chegou só pelos homens.

“A gente teve, ao mesmo tempo, o discurso misógino voltado para homens e o discurso antifeminista voltado para as mulheres”, diz Oliveira.

O conservadorismo da geração Z

O levantamento do King’s College também mostrou que, globalmente, os homens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) têm visões sobre papéis de gênero mais conservadoras do que a geração dos baby boomers (1945 a 1965).

Segundo o levantamento, feito com 23 mil pessoas, 31% dos homens da geração Z concordam que “a esposa deve obedecer ao marido”, contra 13% dos boomers.

Um terço acha que o homem deve ter a palavra final nas decisões do casal, ante 17% dos boomers.

Cerca de um em cada quatro acredita que “uma mulher não deveria parecer independente demais ou autossuficiente”, o dobro do percentual entre os mais velhos.

E 59% sentem que os homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade de gênero, contra 45% dos boomers.

Ao mesmo tempo, 41% dos homens da geração Z dizem achar mulheres com carreiras de sucesso mais atraentes — percentual bem maior do que entre os boomers, que ficam em 27%. Querem, ao mesmo tempo, uma companheira realizada e submissa.

Para Catarina Santos, da UnB, a contradição se desfaz quando se entende o que está por trás da atração.

“Ela é atraente, porque ela tem um cargo, inclusive para me servir melhor. Ela vai cozinhar, vai lavar minha roupa e ainda vai prover para mim”, diz Santos.

“Isso não significa que ela é livre. Ela pode trabalhar, contanto que a última palavra sobre o que ela vai fazer passe pela decisão dos homens.”

A ‘machosfera’ e o algoritmo

Um homem em frente a um computador

Para entender por que essa virada acontece justamente na geração que cresceu com smartphone na mão, é preciso olhar para o ambiente onde esses jovens se socializam, dizem as especialistas ouvidas pela reportagem.

Letícia Oliveira acompanha casos de radicalização de adolescentes e trabalha com professores para identificar sinais de alerta.

Ela descreve um caminho que se repete: o menino chega à adolescência sem perspectiva clara de futuro, de trabalho, de família, de estabilidade, não encontra espaço para falar sobre isso com adultos, vai buscar pertencimento online e cai em grupos onde o discurso misógino já está instalado.

“A adolescência é a fase onde você está se descobrindo, já não vai mais pela cabeça dos seus pais”, diz Oliveira.

“Você entra na internet para conversar com seus pares. E aí a gente vai para os fóruns, para os grupos de Discord, para os grupos gamers — e nesses espaços eles começam a ter acesso a grupos da machosfera que tratam mulheres como seres inferiores.”

Santos aponta que as plataformas têm papel ativo nisso. “A rede é uma ferramenta utilizada para manter os privilégios. A quem o algoritmo vai servir? Se a gente pega a internet, que em tese era uma ferramenta muito mais democrática, a gente está descobrindo que não é verdade.”

Besen aponta que, nos últimos anos, esse discurso deixou as margens. “Consolidou-se um ecossistema relativamente amplo de produção antifeminista dentro das direitas radicais”, diz ela.

“Isso inclui redes online, produção editorial e influenciadores ligados a movimentos masculinistas que interpretam as transformações de gênero pela chave da injustiça.”

Oliveira reforça a dimensão econômica do fenômeno. “As plataformas perceberam que conteúdo de ódio gera engajamento. Isso começa a dar dinheiro”, diz.

“A gente tem, de 2010 para cá, movimentos que estavam nas franjas da sociedade virando mainstream.”

No Instagram, influenciadoras consolidaram audiências com conteúdo que questiona o feminismo ou promove papéis tradicionais de gênero. A maioria não se nomeia antifeminista. Seu discurso é calcado em conselhos sobre espiritualidade, estética e relacionamento.

No cenário político, o antifeminismo é defendido por lideranças como a deputada federal Ana Campagnolo (PL-SC) e a senadora Damares Alves (PL-DF), que formam suas bases políticas em movimentos anti-aborto e cristãos conservadores.

Santos observa que as mulheres que se destacam nesse ecossistema seguem um padrão: “As mulheres que a política permite, que a igreja permite que se destaquem, são aquelas que vão pregar o que eles estão defendendo.”

‘Fantasia de uma vida mais simples’

A ex-primeira-ministra australiana Julia Gillard, que hoje preside o Global Institute for Women’s Leadership no King’s College London, chama atenção para a popularidade do movimento em prol de que mulheres assumam papeis tradicionais em seus relacionamentos. Aquelas que defendem esse modelo de vida se intitulam tradwifes (esposas tradicionais, em inglês).

Para Gillard, o apelo dessa proposta não é necessariamente um desejo real de voltar ao passado ou resgatar um modo de vida tradicional, mas o cansaço de navegar um mundo que ainda não resolveu a equação do trabalho e da família para as mulheres.

Em entrevista à BBC, ela disse que pesquisas com jovens que consomem esse tipo de conteúdo mostram que elas não querem, de fato, ser tradwives, é uma fantasia sobre tirar dos próprios ombros todas as dificuldades de conciliar trabalho e vida familiar.

A pesquisa do King’s College sugere que essa tensão é real e atravessa gêneros. Entre os homens Gen Z, 21% acreditam que homens que cuidam dos filhos são menos masculinos contra 8% dos boomers. A pressão pelo papel de provedor não desapareceu; ela convive, de forma contraditória, com um mundo onde as mulheres trabalham, estudam e, em muitos lares brasileiros, sustentam a família sozinhas.

Gillard também aponta o que chama de “jogo de soma zero”: a percepção de que mais direitos para as mulheres significam automaticamente menos para os homens. “Nós permitimos que essa impressão se instalasse. E ela é falsa.”

Beatriz Besen aponta que a sensação de sobrecarga aparece como elemento transversal nas percepções sobre papéis de gênero.

“Para muitas mulheres, ela se expressa na dupla jornada e na persistência das responsabilidades de cuidado. Para parte dos homens, aparece a percepção de que continuam sendo cobrados por papéis tradicionais de provisão em um contexto econômico mais instável”, diz a pesquisadora.

“A questão que permanece é como tornar visíveis as raízes estruturais dessa sensação de pressão, evitando que a solução se traduza no apoio à manutenção dos papéis de gênero tradicionais.”

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