Foto: Reprodução@vgbnd.media/ Reprodução/@maya_carpinelli
A onda que colocou o nome de Maya Carpinelli, de 19 anos, em destaque no cenário internacional do surfe, foi muito mais do que uma grande manobra. Dias depois de protagonizar uma sessão que chamou a atenção de nomes da elite mundial, a surfista brasileira revelou os bastidores da experiência em Teahupoo, no Taiti, e contou como enfrentou o medo, a pressão e uma onda que considera a maior e melhor de sua vida.
Nascida em Florianópolis e radicada em Garopaba, Maya chegou ao pico acompanhada do namorado, o francês Kauli Vaast, atual campeão olímpico. Segundo ela, a expectativa já era grande antes mesmo de entrar no mar.
Era sua segunda passagem pelo Taiti. Na primeira, Maya havia surfado Teahupoo com ondas de cerca de cinco pés. Desta vez, porém, a previsão indicava um swell muito mais forte, com condições que poderiam transformar o sonho de enfrentar ondas grandes no local em realidade.
“Eu sempre falei que queria muito. É algo que eu sonho desde criança: vir para o Tahiti, surfar Teahupoo e pegar um mar grande”, contou a surfista.
Maya acordou nervosa antes de entrar no mar
Na véspera da sessão, a atleta admitiu que estava nervosa e chegou a questionar se realmente entraria na água. Na manhã seguinte, porém, acordou com outra sensação.
Maya conta que levantou por volta das 5h, tomou café da manhã com Kauli Vaast e conversou com a mãe antes de seguir para o pico.
Apesar do medo, ela afirma que se sentia bem física e mentalmente e percebeu que aquela poderia ser uma oportunidade especial.
Com o jet ski, a equipe seguiu para Teahupoo. As condições eram pesadas, principalmente pela direção do swell, que tornava a onda ainda mais desafiadora por quebrar sobre uma bancada de coral extremamente rasa.
Primeira onda já foi considerada especial
Maya ainda tinha pouca experiência com o sistema de towing, técnica em que o surfista é puxado por uma moto aquática para alcançar ondas maiores.
A ideia inicial era aproveitar as primeiras ondas para treinar e ganhar confiança.
Na primeira tentativa, entretanto, a surfista conseguiu pegar um tubo que, segundo ela, já era a maior onda que havia surfado até então.
Mesmo sem ser a maior onda da sessão, a experiência foi suficiente para deixá-la satisfeita.
“Eu voltei e falei para o Kauli: ‘Tá bom, já estou feliz, podem surfar’ ”, relatou.
Mas Vaast insistiu para que ela fizesse mais uma tentativa.
Foi então que tudo mudou.
A onda que mudou a sessão
Pouco depois de retornarem ao outside, Kauli percebeu que uma série maior estava se formando. Em poucos segundos, reposicionou o jet ski para colocar Maya na linha da onda.
Ela conta que não tinha dimensão do tamanho do paredão que estava se formando.
Quando começou a ser puxada, percebeu pela reação do namorado que aquela não seria uma onda comum.
Ao soltar a corda, recebeu a orientação para descer pela onda. Foi nesse momento que viu o paredão começando a formar o tubo.
A surfista descreve aquele instante como uma mistura de medo, concentração e adrenalina.
“Foi o momento mais assustador da minha vida, mais incrível, mais intenso. Foi um mix de emoções”, contou.
Maya conseguiu entrar no tubo e completar a linha.
Quando a onda explodiu, porém, a força da água praticamente tirou sua visão. A atleta relata que ficou sem enxergar e precisou apenas confiar na reação e na experiência da equipe para conseguir sair daquela situação.
Resgate foi decisivo após a onda
Depois de sair do tubo, Maya acabou sendo levada para uma área considerada ainda mais perigosa do pico, onde uma nova onda se aproximava.
Foi quando entrou em ação Reiva, integrante da equipe de resgate local e amigo de Kauli Vaast.
Segundo Maya, ele não hesitou e foi imediatamente em sua direção, conseguindo alcançá-la e colocá-la no sled, equipamento utilizado para o resgate no mar.
“Ele não pensou duas vezes. Só me pegou pelo braço e me colocou no sled”, relatou.
Para a surfista, o trabalho coordenado da equipe foi fundamental para que a situação terminasse bem.
“Foi perigoso, mas foi muito bem feito”, afirmou.
De volta ao outside, Maya encontrou uma cena de comemoração. Fotógrafos, surfistas e integrantes da equipe vibravam com o que havia acabado de acontecer.
Ainda em choque com a experiência, ela decidiu que aquele seria o fim da sessão.
“Deu por hoje, porque eu acabei de gastar toda a minha sorte, toda a minha vida”, brincou.
“Seja forte e corajosa”
Antes de entrar no mar, Maya carregava consigo uma frase que ganhou significado especial naquele momento.
Em sua maior prancha, a surfista escreveu um versículo bíblico baseado em Josué 1:9: “Seja forte e corajosa”.
Ela conta que leu e releu a frase antes de entrar na água e que as palavras ajudaram a encontrar a força necessária para enfrentar o desafio.
Para Maya, a experiência também esteve ligada à fé e à sensação de que aquele era o momento certo para realizar um sonho que carregava desde criança.
“Eu tenho certeza que Deus estava me olhando, estava me cuidando”, afirmou.
Uma onda que pode marcar a carreira
A repercussão da onda foi imediata. O registro feito por um videomaker local de Teahupoo foi publicado pelo Surfline e passou a circular entre surfistas e fãs da modalidade.
Maya recebeu elogios de nomes conhecidos do surfe mundial, entre eles os brasileiros Miguel Pupo e João Chianca, além do australiano Jack Robinson.
A jovem catarinense ainda busca seu espaço no circuito profissional. Atualmente, disputa competições do Qualifying Series (QS) da América do Sul e trabalha para avançar no caminho que pode levá-la ao Challenger Series e, posteriormente, à elite mundial.
A escolha do local também ganhou um significado especial. A próxima etapa do Championship Tour será justamente em Teahupoo, entre os dias 8 e 18 de agosto, colocando novamente os melhores surfistas do mundo diante de uma das ondas mais desafiadoras do planeta.
Para Maya, entretanto, o que aconteceu naquela sessão já tem um valor que vai muito além de rankings e competições.
A surfista sabe que pode levar tempo até voltar a enfrentar uma onda daquele tamanho. Por isso, guarda a experiência como um momento único de sua trajetória.
“Eu não sei se vou pegar uma onda dessa de novo. Então realmente é um momento que vou guardar para sempre no meu coração”, declarou.
Depois de realizar um dos maiores sonhos de sua vida, Maya agora pensa no próximo passo: continuar treinando, evoluindo e se preparando para novas oportunidades.











