Supervisor: Cléber Latrônico / Edição de Vídeo: Leandro Silveira / Imagens e vídeo: Raíssa Coelho / Redação: Érika Reis
Uma mulher volta do trabalho à noite, sozinha, por uma rua cheia de casas, mas vazia de gente. Depois de um dia cansativo, tudo o que ela quer é chegar em casa. Até que ouve passos atrás dela. Passos rápidos. Ela aperta o ritmo. A bolsa firme contra o corpo. Como me defendo? Pego o celular? O barulho se aproxima. É um homem. Ele passa por ela e segue. Ela para, respira, mas o corpo não relaxa. Nenhuma violência aconteceu. E ainda assim, o medo ficou.
Esse receio de sair na rua sozinha, comum para mulheres, aparece nos dados de violência da região. Em 2025, os registros de violência doméstica e ameaças estão entre as principais ocorrências envolvendo vítimas mulheres, números que reforçam um medo que não é imaginação. E é nesse cenário que a Rede Feminina de Proteção Minas do Rosa atua, tanto em Imbituba quanto em Garopaba.

Larissa Rodrigues, Naiara de Souza,
Carina Limberguer e Marina Teixeira – integrantes da Rede
Há 3 anos, o grupo oferece escuta ativa, orientação, conscientização e encaminhamento para mulheres vítimas de assédio, violência física, sexual ou psicológica. A Rede reúne profissionais de diferentes áreas e funciona como grupo de apoio para aquelas mulheres que gostariam de denunciar ou, simplesmente, serem ouvidas com segurança.
Todas unidas por uma
Fundada em 2022, a Rede surgiu após um caso de estupro que aconteceu no bairro Ibiraquera e mobilizou um grupo de mulheres da região. A partir daquela ocorrência, elas se organizaram em um Coletivo para garantir apoio jurídico, psicológico e financeiro à vítima de violência, e acompanharam todo o processo.
“A gente se uniu para que ela tivesse seus direitos assegurados: carona para a delegacia, orientação jurídica e até ajuda financeira para se manter”, explica a psicóloga e fundadora do Coletivo de Mulheres, Nayara de Souza. “A partir dessa mobilização, em dez dias, os agressores foram presos. E o movimento não parou mais”.

Hoje, a Rede conta com mais de 600 mulheres e apoiadores, distribuídas em comissões nas quais elas assumem o protagonismo das ações. Diariamente, apesar de seu nascimento ter sido na localidade da Praia do Rosa, a Rede possui colaboradoras em outras regiões de Imbituba, e em Garopaba e Laguna.
“O Projeto iniciou na Praia do Rosa, mas temos bastante visibilidade, inclusive de Laguna, mas o nosso foco mesmo, onde temos mais atendimentos, é em Imbituba e Garopaba”, conta.
As principais iniciativas da Rede são: acolhimento, orientação, prevenção, conscientização através de folders informativos, cartazes e, mobilizações na rua, aulas de defesa pessoal, entre tantos outros.

Foto: Rede Social do Minas do Rosa
Acolhida que se tornou acolhedora
Uma das beneficiadas pelo Coletivo, a terapeuta Carina Limberger, de 39 anos, mãe de três crianças, contou um pouco da sua trajetória. Diante de uma situação de relacionamento abusivo, que desencadeou uma medida protetiva, em um momento de extrema sensibilidade, ela recebeu acolhimento da rede.
“Através do acolhimento, eu pude ter assistência. A Rede me apoiou a fazer o exame de corpo de delito, que só é realizado em Tubarão, e a me estruturar emocionalmente para voltar às minhas atividades com segurança”, conta.
Hoje, recuperada, Carina integra a comissão da Rede e explica o primeiro passo para mulheres em situação de violência: registrar o Boletim de Ocorrência.
Atualmente, ela faz parte da comissão e destaca o que uma mulher, vítima de violência, deve fazer.
“Em caso de qualquer situação de violência, a vítima deve, primeiramente, ir até a Delegacia e fazer o registro de ocorrência. Pelo Instagram, ela pode entrar em contato com a Rede Feminina de Proteção. Através da rede, podemos ver qual a real necessidade dela, se assessoria psicológica, jurídica, ou de outra instituição que o governo atende”, indica a terapeuta.

Foto: Larissa Rodrigues
Grande virada das vítimas de violência
Entre casos de violência doméstica, estupro e outras formas de violência, a grande virada de chave que o Coletivo menciona é quando as vítimas conseguem sair da situação de violência. Quando percebem que estão em um relacionamento abusivo e conseguem se libertar.
“Tivemos um caso de uma mulher que veio do Rio Grande do Sul com suas filhas e a mãe dela. Uma pessoa daqui de Garopaba pediu para que a ajudássemos, pois ela sofria violência. Ela estava passando por dificuldades e trouxemos ela, doamos cestas básicas, demos total apoio para que elas se estabelecessem aqui”, conta Carina.

que recebeu uma arte em grafite de apoio às mulheres
Dificuldades que a Rede enfrenta
Por ser um Coletivo de Mulheres que atua de forma voluntária, apesar de ter uma rede de psicólogos que elas indicam para realizar o apoio emocional à vítima, a maior dificuldade que elas enfrentam é a financeira.
“Não há mais psicólogos por não ter investimento financeiro. Não temos estrutura pra isso ainda para ter mais psicólogos. Assistência jurídica, para defender as vítimas de violência doméstica também…”, conta Nayara.
Os apoios que elas contam são dos serviços públicos como o Centro de Referência Especializada de Assistência Social (CREAS), Polícias Civil e Militar, das Prefeituras de Imbituba e Garopaba, e do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
“Nosso coletivo trabalha para a comunidade e em conjunto com o serviço público também”, destaca. “Hoje, inclusive, fazemos parte da Frente Parlamentar de Violência Contra a Mulher de Garopaba, que é uma frente, justamente, para discutir a violência contra a mulher na cidade e, também, outras frentes em Imbituba”.
Além do apoio da comunidade, a Rede procura o apoio de empresas que se interessem pela causa e possam ajudar à financiar.
“Temos a ideia de criar um Instituto Rede Feminina de Proteção Minas do Rosa”, finaliza a fundadora. Este plano compete em reunir todo o acolhimento que a vítima precisa em um só lugar.
Como apoiar a causa
As empresas, profissionais e pessoas que quiserem participar ou ajudar, de alguma forma, a Rede Feminina, podem entrar em contato pelo Instagram Minas do Rosa ou entrar em contato com o grupo através DESTE LINK.
A Rede também oferece cursos de defesa pessoal, palestras e rodas de conversa voltadas à conscientização sobre assédio e segurança. Em um cenário onde o medo ainda molda o cotidiano de tantas mulheres, iniciativas como a Minas do Rosa mostram que a proteção e o apoio vêm, cada vez mais, da própria comunidade.

Foto: Redes Social do Minas do Rosa
Denuncie
Segundo dados da Polícia Civil de Imbituba, fornecidos à reportagem, em 2024 foram solicitadas 278 medidas protetivas impostas aos agressores. Em 2025, até 28 de novembro, o número já chega a 291 solicitações enviadas ao Judiciário para análise.
A escrivã da Sala Lilás, Aline Coelho Russel, da Delegacia de Polícia Civil, disse que em Imbituba não teve registros de feminicídio. Entretanto, casos de ameaças, lesão corporal e um caso de estupro foram registrados.
“De 1º de dezembro de 2023 a 31 de março de 2024, tivemos 23 casos de violência doméstica registrados em Imbituba. De 1º de dezembro de 2024 a 31 de março de 2025, nós tivemos cerca de 60 casos”, explica a escrivã. “Esse número parece alarmante, considerando o período”, destaca.


A escrivã explica que o número tende a aumentar por conta da alta demanda de crimes de ameaça e injúria no verão. Entretanto, muitas mulheres não levam a denúncia adiante. “Por conta da nova legislação, imposta em outubro de 2024, os crimes de ameaça entram para o processo de investigação no Ministério Público, levando o suspeito a um processo criminal, mesmo que a vítima retire a queixa”, explica.
Todavia, os relatos de assédio, mesmo não estando nos dados oficiais da segurança pública, são cada vez mais frequentes, mas muitas vezes, nem mesmo a vítima consegue distinguir se está certo ou errado. Por isso, a ação da Rede de Proteção é extremamente importante para dar segurança e, principalmente, voz às mulheres que passam por essas situações.
Em caso de violência psicológica, suspeita de assédio, entre em contato com a Rede Feminina Minas do Rosa. Em caso de violência física e sexual, DENUNCIE, através do 190, pelo número do Sistema de Denúncias da Polícia Civil, através do whatsapp (48) 8844-0011 ou,também, registre um Boletim de Ocorrência na Polícia Militar.
*Dados coletados do relatório de Violência Contra a Mulher do Observatório de Violência de Santa Catarina
Confira a entrevista com as participantes do Coletivo










