Nas décadas de 50, 60, 70, 80 e 90, os bailes de debutantes eram um evento no IAC (Imbituba Atlético Clube), o grande evento de gala do ano. Mães, madrinhas e debutantes enchiam os salões e o cheiro do spray Karina estava no ar, grudado tal qual um glitter. Acho que não existem mais bailes de debutantes no Brasil, as festas de 15 anos tomaram seu lugar. Mas, absolutamente todos vêm da mesma tradição misógina que coloca a mulher como mercadoria, numa prateleira para ser escolhida.
Geralmente, se debuta entre 14 e 15 anos e, geralmente, de novo, é a idade que a maioria das meninas já menstruaram e, mais do que estar ali para ser apresentada para a sociedade, ela está sendo apresentada pelos pais como uma pessoa já em idade de casar e procriar.
Graças à “Deusa Mãe”, hoje é só um baile. Até porque, se eu fosse depender do meu dote para casar, o jovem receberia só um fusca azul calcinha.
Já que ninguém mais dá bola para o real significado do Baile de Debutantes, vamos nos divertir um pouco com alguns deles: os meus.
ATENÇÃO
Este post contém amostra da moda Festa Anos
80. Por medida de segurança, evite olhar
diretamente para a padronagem
dos tecidos e penteados.
O Meu Debut

Desde o momento em que o médico anunciou “É uma menina!”, minha mãe deu início à chantagem para que eu debutasse. Ela veio com o papo de que o pai dela morreu antes de realizar o sonho de ver as filhas debutando. E meu pai também era outro empolgado pelo evento. Bom, que filha malvada vai dizer não a um pai empolgado e a uma mãe órfã?
Claro que, sendo eu de cidade pequena, era a única coisa para se fazer por lá. E com todas as minhas amigas se preparando para debutar, fui junto.
Meses antes, saí de Santa Catarina num ônibus que parava em todos os trevos, com um bêbado, uma idosa que comeu salgadinho a noite toda, minha mãe e uma amiga. A fauna do ônibus era mais diversificada, mas não vem ao caso.
Cheguei em SP e fiquei no hotel menos confortável e mais estranho que se podia achar. Mas, segundo mamãe, foi recomendado por conhecidas. Anos depois, a mesma pensão foi usada no primeiro episódio de um programa com Leandro e Leonardo.
A missão em São Paulo era comprar um vestido de debutantes. Vestido de debutantes é aquele que fica entre os de primeira comunhão e os de noiva. Ele é meio assim: “sou virgem, mas só até o ano que vem”.
Minha mamãe sempre sonhou com um vestido branco para mim, imaginava eu entrando nos luxuosos salões do Imbituba Atlético Clube, com mangas bufantes e saia de tule, mesmo a debutante odiando bolos de noiva.
Achar um vestido de debutantes não é tarefa fácil. Felizmente, após subir e descer aquela rua das noivas – acho que é a São Caetano – encontrei Samuel, um estilista companheiro que me livrou das mangas bufantes e fez minha mãe enxergar que eu poderia pegar fogo caso alguém encostasse um cigarro aceso em na minha saia durante o baile.
Comprado o vestido, era hora de voltar para casa e participar dos vários eventos pré-baile. E eram muitos, já que, para aproveitar o vestido e não jogar dinheiro fora, debutei em três clubes diferentes. Como já falei: eram muitos eventos.
O primeiro baile foi em Siderópolis, uma cidade perto de Criciúma, no sul de Santa Catarina, onde metade da minha filha morou ou mora lá.

Não lembro de quase nada daquele baile, mas lembro da decoração linda, a banda, que devia ser a ‘Scorpions’ (que tocou quase todos os bailes) e do meu cabelo foi o que mais gostei. Lembro, também, da recepção na casa da patronesse e do passeio para Termas do Gravatal, num ônibus da Zelindro.
O baile do IAC foi o mais esperado pela minha mãe. Lembrem-se que sou uma amostra real de uma “princesinha do centro”. A decoração era tudo! Um castelo. E saíamos de lá no melhor estilo princesas.

Nesse baile, eu chorei. Tá certo que choro até em propaganda das Casas Bahia. Mas nesse caso chorei por motivo válido. O apresentador começou a falar e eu a chorar. Acabei fazendo todo mundo chorar junto. E, neste momento, minha mãe, vestida num belo traje verde papagaio, levanta-se com um lencinho azul para secar minhas lágrimas. Terrível!

O último baile foi o mais divertido, e o único que lembro direito.
O apresentador… Meu Deus, o apresentador! Levou 3 horas para falar meu nome e ainda falou errado. Cacau Menezes apresentando um baile de debutantes, e até hoje eu me pergunto quem teve essa ideia “maravilhosa”.

Um capítulo à parte é a escolha do par especial. Era uma briga de foice para conseguir um par e o negócio era falar com a mãe do jovem e fazer a reserva com meses de antecedência.
Eu não posso dizer que não gostei dos bailes. Ri muito! Afinal, não é sempre que se sobe num palco para dançar Ilariê e se pega rubéola na mesma noite.
Beijos, Euba. (meu nome quando eu era uma podcaster famosa)
Abraços e sejamos felizes!
Richelly Ramos
Texto anteriormente publicado no site Monalisa de Pijamas

Nascida e criada em Imbituba. Raízes e alma na terrinha, mesmo o destino levando para longe. Casada, mãe de uma jovem adulta, curiosa, cheia de defeitos, qualidades e opiniões. Imbitubense orgulhosa e feminista. Por que Papo de Boteco? Boteco é uma instituição nacional. Lugar de rir, fazer amizade (já diz o ditado: “Ninguém faz amigo bebendo leite!”), filosofar, opinar sobre até o que não se sabe o que é e, claro, ser antropólogo – estudar a humanidade baseada em fatos – reais ou não – ou seja, só fofocar mesmo.
Isto posto, cachaça de Butiá para quem é de Butiá e água para quem é de água. Sejamos todos felizes! Aproveitem a leitura e espero que gostem.









