Quando o europeu chegou à enseada dos barcos com sua fé, medos e sonhos, a terra, os rios, cada canto das suas praias, suas plantas e animais, tudo já estava tocado e nominado. A Garopaba xamânica dos guarani, e antes destes, dos itararé, e ainda antes, a dos Sambaqui que, por certo, outra coisa era que não a Ygarapaba, mas já com baleias e pescadores, atividade que estes primeiros registraram nas pedras da Ponta da Vigia. Quanto tempo, portanto? Quatro mil anos? Seis mil?
Então os europeus chegaram donos da terra, com suas cruzes e mosquetes. Aprenderam a esculpir pirogas e cultivar mandioca com os nativos. Também aprenderam a serventia das ervas e das rezas.
Alienígenas, trouxeram seus escravizados, mercadoria humana que primeiro plantou café para as bandas do Macacu (era o século 17) e depois partiu baleias e se afogou nas gorduras dos cetáceos para produzir o óleo que iluminou palacetes e elegantes salões de festa na Europa, onde, quiçá, dançava-se a valsa vienense (era o final do século 18). O mar de Garopaba tingia-se do sangue das baleias e dos escravizados. O ar da enseada dos barcos rescendia à morte, e a praia não espalhava banhistas porque estes ainda não existiam. Afinal, tudo era pecado e o Diabo fazia casa no prazer.
A vila pobre e esquecida que atravessou o século 19 e alcançou o 20 com sua igreja tornada tapera, suas ruas varridas pelo Nordeste e seu padre de numerosa prole. A Garopaba visitada pelo rei e depois, bem mais tarde, pelas tropas de Getúlio que marchavam sobre a velha República. Assim corria a vida na vila, com suas serrarias devorando as matas e os engenhos tornando açoriana a raiz indígena, quando alcançou o ano de 1961 e se tornou cidade emancipada. Sua história, entretanto, é muito mais antiga!
Já a Garopaba que hoje conhecemos, dos surfistas vestidos de neoprene, é a invenção dos jovens que buscaram um refúgio para os tempos em que Porto Alegre era varrida por cassetetes. Um lugar para a liberdade em meio ao país oprimido pela ditadura. A vila que no passado tingia de sangue a praia, tornada grito de vida para a juventude com seus violões, cabelos compridos e neoxamanismos.
Que esta Garopaba nunca se perca. Que esta Garopaba nunca se esqueça.










