Cães que passaram pelo abandono, viveram nas ruas e chegaram a apresentar comportamentos considerados de risco estão ganhando uma nova chance em Imbituba. Um projeto da Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca (SMAAP), passou a encaminhar esses animais para um espaço de acolhimento e ressocialização, onde eles convivem com pessoas e outros animais antes de serem preparados para uma futura adoção.
Atualmente, oito cães estão no local, todos da raça pitbull ou derivados, segundo os responsáveis pelo trabalho. Entre eles está o Caramelo, animal que ganhou repercussão após se envolver em um episódio com uma jovem de 20 anos, em junho, em Imbituba.
A equipe do Portal AHora esteve no espaço onde os cães são acompanhados. O endereço não é divulgado por questões de segurança.
Do abandono à ressocialização
Segundo o adestrador Kleto Nunes, o primeiro período de permanência dos animais é dedicado principalmente à adaptação e à avaliação de comportamento.
— No momento, estou socializando eles com os animais que temos aqui e com pessoas, para conseguir conhecer cada cão — explicou.
O trabalho inclui contato controlado com outros cães, gatos e diferentes estímulos. A ideia é avaliar medos, comportamento territorial, possessividade e a forma como cada animal reage a pessoas.
Segundo Kleto, não há prazo único para concluir o processo.
— Cada cão tem um temperamento e um tempo. Primeiro a gente precisa se conhecer. Depois começamos o adestramento. Em poucos meses, dependendo da evolução, ele pode estar pronto para ganhar uma família — afirmou.
A também adestradora Thayzi Soares estima que o ambiente em que o cão vive tenha grande influência no comportamento.
— Eu acredito que uns 80% influencia. Toda ação gera uma reação. O cão reage muito rápido ao meio onde está inserido — disse.
Caramelo ganhou nova rotina

O Caramelo ficou conhecido após um caso ocorrido em junho. Na ocasião, uma jovem foi ferida após ser abordada por um cão na rua. O episódio ganhou repercussão e levantou discussões sobre animais soltos e segurança pública.
Segundo a Prefeitura, o Caramelo havia sido abandonado próximo ao Demutran e passou a reconhecer aquela região como seu território.
No espaço de ressocialização, os profissionais dizem que ele já apresenta mudanças.
— Ele não sentava tanto, não se acalmava. Com essa rotina de socialização, já está começando a ter outro comportamento e a respeitar mais — contou Kleto.
Na avaliação do adestrador, o comportamento registrado nas imagens que circularam na época precisa ser analisado tecnicamente e não apenas pela força ou raça do animal.
— Do meu ponto de vista, ele não foi para atacar. Ele tentou estimular alguém para brincar. É um cão forte, com energia muito alta, e isso acaba assustando — afirmou.
A diretora do Centro de Bem-Estar Animal, Vivian Darcy Andrade, também defende que o animal não seja resumido ao episódio.
— O Caramelo ficou muito famoso de uma forma negativa. Ele tinha uma casa, foi abandonado e começou a defender aquele espaço por pertencimento. Hoje está aqui recebendo uma segunda chance — disse.
Não é recolhimento indiscriminado
Vivian ressalta que o projeto não funciona como a antiga “carrocinha” e não prevê a retirada de todos os cães encontrados nas ruas.
Segunda ela, o recolhimento ocorre apenas após denúncia e avaliação técnica.
— A gente recolhe os animais que oferecem risco. Precisa existir denúncia na Ouvidoria, a equipe vai até o local e investiga se realmente aquele animal representa perigo ou se ele apenas está incomodando pela presença — explicou.
Quando o risco é confirmado, o animal pode ser encaminhado ao serviço especializado.
Para Vivian, simplesmente tirar o cão da rua e mantê-lo permanentemente confinado não resolve o problema.
— A intenção é retirar o animal daquela situação, educá-lo de uma forma diferente e fazer com que ele tenha a possibilidade de integrar uma família. Isso é dar uma segunda chance — afirmou.

Adoção terá avaliação
Depois da conclusão do processo, os cães considerados aptos poderão ser disponibilizados para adoção. No entanto, a Prefeitura afirma que haverá critérios para escolher as famílias.
Os interessados passarão por entrevista e a adaptação continuará sendo acompanhada depois da entrega.
— Não é todo mundo que pode ter um cão desse porte. É preciso responsabilidade, espaço adequado e condições para alimentação e atendimento veterinário. A gente faz entrevista e acompanha na pós-adoção para garantir segurança para o animal e para as pessoas — disse Vivian.
Especialista aponta responsabilidade dos tutores
O policial militar e especialista em comportamento canino Antônio Ramos, que atuou com cães policiais da unidade K9, presta apoio técnico ao projeto.
Para ele, comportamentos problemáticos não podem ser atribuídos automaticamente à raça.
— Para mim, não existe cachorro-problema. É preciso olhar quem manejou esse animal desde que ele saiu da mãe, como ele foi criado e quais estímulos recebeu — afirmou.
Ramos usa como exemplo cães policiais treinados para proteção, faro e busca, mas que convivem normalmente com pessoas fora do serviço.
— Os meus cães foram treinados para funções policiais e, ao mesmo tempo, são pets. Viajam comigo, ficam em hotel e convivem com crianças. É tudo uma questão de educação e manejo — explicou.

Segundo ele, é necessário conhecer tanto as características de cada raça quanto o comportamento individual.
— Dentro de uma mesma raça existem cães completamente diferentes. Não se pode olhar só para a raça e concluir que todo animal terá o mesmo comportamento — completou.
Abandono é crime
A Prefeitura também reforça que a existência do serviço de recolhimento não significa que tutores podem abandonar animais esperando que o poder público os acolha.
— Não existe isso de “não quero mais e vou deixar na rua porque a Prefeitura recolhe”. Essa pessoa precisa ser responsabilizada. Abandono é crime e deve ser denunciado — afirmou Vivian.
Quem presenciar um abandono em andamento deve registrar imagens, quando for seguro, e acionar a Polícia Militar pelo 190. Quando o abandono já ocorreu, a orientação é registrar boletim de ocorrência na Polícia Civil.
Já os pedidos para avaliação e possível recolhimento de cães sem tutor que apresentem risco devem ser registrados na Ouvidoria da Prefeitura de Imbituba.
Segunda chance
Além da segurança da população, Vívian afirma que o objetivo é evitar que animais que tiveram experiências de abandono ou manejo inadequado passem o restante da vida confinados.
No caso do Caramelo, a expectativa é de que o processo termine com uma nova família.
— Daqui a pouco ele pode estar totalmente ressocializado e ter uma família. É isso que queremos: que esses animais tenham uma segunda oportunidade — afirmou.











