Cerca de sete meses após o caso que mobilizou forças de segurança e repercutiu em Imbituba no feriado de Finados de 2025, um empreiteiro, cujo primeiro nome é Cláudio (pediu à reportagem para que não identificasse seu sobrenome), morador do bairro Arroio e atuante há mais de uma década no setor da construção civil resolveu quebrar o silêncio.
Motivado pela credibilidade e alcance do AHora, o empresário procurou o Portal para apresentar sua versão sobre o episódio que resultou em sua prisão preventiva à época, condição em que ficou por cerca de 3 meses, e que segue sendo analisado pela Justiça.
Na ocasião, publicamos a reportagem baseada nas informações preliminares repassadas pelas autoridades policiais no dia da ocorrência. À época, o caso foi divulgado conforme o relato policial aos superiores do agente chamado para atender o caso de um homem baleado cujo autor do disparo não se encontrava mais na casa, únicas informações disponíveis naquele momento.
Agora, com o andamento do processo e após o empreiteiro apresentar documentos e registros que, segundo ele, foram entregues integralmente à Polícia Civil, Cláudio afirma que os fatos ocorreram em um contexto de graves ameaças e extorsão que vinham acontecendo dias antes do disparo.
O empresário hoje responde ao processo em liberdade, mas afirma ter recebido ameaças do chantagista, mesmo ele estando hoje preso acusado de agredir e atear fogo na própria esposa na frente dos dois filhos do casal. O suporto extorsionário possui dezenas de passagens pela polícia e já cumpriu pena por tráfico de drogas. À época do trabalho na obra, das supostas e em que foi atingido pelo tiro disparado pelo empreiteiro, o homem cumpria pena por tráfico de drogas no presídio de Biguaçu e estava em liberdade condicional.
Em respeito à isonomia jornalística que norteia o trabalho do Portal AHora, ressaltamos desde já que permanece com espaço aberto para eventual manifestação do homem baleado, de seus representantes legais ou familiares, caso desejem apresentar sua versão sobre os fatos.
Empreitada, pagamentos e início do conflito
Segundo Cláudio, o desentendimento começou durante uma obra na região da Ponta da Piteira, em Ibiraquera. Ele relata que, diante do aumento da demanda de serviços, contratou uma empreitada de reboco com um profissional que já atuava com sua equipe. Esse trabalhador, conforme o relato, levou outro homem para o auxiliar no serviço.
Cláudio afirma que, a pedido do responsável pela empreitada, realizou adiantamentos, os popularmente chamados “vales”, diretamente ao ajudante por Pix ao longo da semana. Conforme o empresário, os pagamentos foram feitos como forma de auxílio imediato e deveriam posteriormente ser descontados do valor combinado da empreitada.
De acordo com o empreiteiro, após poucos dias de trabalho, surgiram divergências sobre valores. Apresentando provas e respaldado pelo depoimento à polícia do profissional que contratou o suspeito das ameaças como ajudante (servente), ele sustenta que todos os pagamentos referentes aos dias efetivamente trabalhados foram realizados e que, a partir daquele momento, começaram cobranças insistentes por durante dias e noites por quantias superiores às inicialmente tratadas.
“Passei a viver sob ameaça”, relata empresário que afirma que entre sábado e domingo passou a receber ligações, mensagens e áudios com cobranças e ameaças, com intimidações que sugeriam inclusive que o suspeito seria membro de fação, bem como seu irmão teria cargo de alta cúpula na organização criminosa cuja fama é de matar violentamente seus desafetos.
Ele afirma ainda que o homem exigia novos pagamentos, inicialmente em valores mais altos, reduzindo as quantias ao longo das conversas, sempre acompanhadas de fortíssimas intimidações que já minavam seu estado psicológico já que tem esposa, filhos e vive perto de outros parentes.
Conforme o relato e comprovantes bancários apresentados ao Portal AHora, o empresário realizou transferências adicionais na tentativa de encerrar o conflito e preservar a tranquilidade da família.
Cláudio afirma ainda que decidiu reunir e entregar à Polícia Civil seu aparelho celular contendo conversas, mensagens, áudios, comprovantes de Pix e demais registros que, segundo ele, demonstram as cobranças e ameaças recebidas nos dias que antecederam o caso.
Ainda segundo o empreiteiro, ele também recebeu relatos de funcionários e pessoas próximas informando que o homem teria ido a diferentes endereços, com estado psicológico transtornado, alterado, buscando localizá-lo.
O domingo do ocorrido
No domingo, 2 de novembro de 2025, Cláudio afirma que retornou para casa após receber novos avisos de que estava sendo procurado. Na residência, segundo ele, estavam familiares, incluindo crianças e uma idosa.
Pouco tempo depois, conforme seu relato, o homem chegou de moto, veículo que até então ele não possuía (chegava ao trabalho de carona com o outro trabalhador que o subcontratou), em frente ao imóvel. Cláudio afirma que entrou em desespero diante da sucessão de ameaças anteriores e do temor de que ele ou familiares fossem atacados e foi nesse momento que ocorreu o disparo investigado no processo.
O homem atingido na cabeça foi socorrido e encaminhado para atendimento médico. Sem saber sequer se tinha acertado o chantagista, Cláudio deixou o local logo após o ocorrido e, posteriormente, acabou preso durante o andamento da investigação.
Empresário diz ter enfrentado prejuízos e mudanças na rotina
Cláudio afirma que o caso impactou diretamente sua vida pessoal e profissional. Segundo ele, houve perdas financeiras expressivas em contratos e obras, ter sua imagem e reputação abaladas, além de mudanças profundas na rotina familiar desde o episódio.
“Construí minha vida trabalhando e sempre fui reconhecido pela seriedade no que faço. Tenho equipe fixa há anos e nunca havia vivido algo parecido. Hoje ainda convivo com medo e com as consequências de tudo isso”, conta.
Defesa de Cláudio sustenta legítima defesa e divulga nota oficial
Em nota encaminhada à reportagem, os advogados José Martins das Neves e Edson Rosa Júnior, que atuam na defesa de Cláudio, afirmam que o empresário responde ao processo em liberdade e sustentam que o caso ocorreu em contexto de legítima defesa.
Confira a nota na íntegra:
Cláudio, por intermédio de sua assessoria, vem a público prestar esclarecimentos a respeito dos fatos objeto de apuração nos autos nº 5006187-29.2025.8.24.0030.
Inicialmente, registra-se que Cláudio responde ao processo em liberdade, situação reconhecida pelo Poder Judiciário diante da inexistência de elementos que indiquem risco à ordem pública, à instrução processual ou à sociedade. Trata-se de pessoa que sempre manteve vida social estável, pautada pelo trabalho e pela dedicação às atividades desenvolvidas no setor da construção civil, ramo no qual construiu sua trajetória pessoal e profissional.
Desde o início do processo, Cláudio sustenta que, nas circunstâncias envolvendo os fatos investigados, agiu em contexto de legítima defesa, tese que será devidamente demonstrada e aprofundada no curso do processo, por meio da produção da prova e do regular exercício do contraditório e da ampla defesa.
Cláudio possui convicção de que todos os elementos serão analisados de forma técnica, equilibrada e imparcial pelo Poder Judiciário, circunstância que permitirá o correto esclarecimento dos acontecimentos e o reconhecimento da realidade dos fatos.
Cláudio reafirma sua confiança nas instituições e na Justiça, acreditando que a verdade será devidamente esclarecida com a maior brevidade possível.
Por fim, informa que seguirá conduzindo sua vida com serenidade, mantendo suas atividades profissionais e sua dedicação ao trabalho, ao mesmo tempo em que respeita o curso regular do processo e se coloca à disposição para os esclarecimentos pertinentes.
Processo segue em tramitação
O caso segue em tramitação no Judiciário catarinense. O Portal AHora reforça que a reportagem publicada em novembro de 2025 foi elaborada com base no boletim e nas informações preliminares repassadas às autoridades naquele momento.
A publicação desta nova reportagem ocorre após a apresentação da versão do empreiteiro, da documentação mencionada por ele e da manifestação formal da defesa, em respeito ao contraditório e ao compromisso do Portal AHora com a informação responsável, equilibrada e com a atualização permanente dos fatos à medida que novos elementos relevantes são apresentados.
O Portal AHora também reforça que o espaço segue integralmente aberto para manifestação do homem baleado, de seus advogados ou familiares, caso desejem apresentar sua versão sobre os acontecimentos narrados nesta reportagem. O compromisso editorial do veículo permanece pautado pela responsabilidade, pela apuração e pela isonomia jornalística, ouvindo todas as partes envolvidas sempre que houver interesse em contribuir com o esclarecimento dos fatos perante a comunidade.










