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Érika dos Reis

DESABAFO: Na volta de A Flor da Pele, Erika Reis transforma “paçoquinha” em reflexão sobre identidade e racismo

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Bem, depois de praticamente um ano sem escrever para a coluna, eu digo a vocês: estou viva! Entretanto, com alguns pedacinhos faltando… Desde os falecimentos das minhas duas avós (uma em abril do ano passado e outra em setembro, cinco dias antes do meu aniversário) eu simplesmente morri junto com elas. Mas, para o meu alívio, nasci de novo. Agora, um pouco mais madura e também mais abismada com o que vejo à minha volta. Nesse período, estive mais reclusa, reflexiva e ressignificando muitas coisas, inclusive o meu papel como ser humano. Agora, umbandista, universitária de jornalismo, e o principal: uma mulher. No sentido mais cru da palavra. No primeiro artigo depois dessa nova fase da coluna, gostaria de falar sobre preconceito e racismo. Então, vamos lá…

Vivi algumas das experiências mais impactantes e, para mim, agressivas relacionadas ao preconceito religioso e ao racismo estrutural. Uma delas aconteceu durante uma conversa com uma amiga, quando um estranho resolveu interferir no diálogo acusando a minha religião, a Umbanda, de ser a responsável por estar atrasando a minha vida. Sim, pasmem: aparentemente, a culpa seria de Iemanjá.

A outra situação foi ainda mais descarada. Uma mulher branca, e utilizo essa característica apenas para contextualizar melhor a cena, pois não gosto de definir uma pessoa pela cor, e sim, pelo que ela é, simplesmente presumiu que eu trabalhava em uma cafeteria mais requintada onde eu estava e começou a me perguntar o que tinha para comer e quais eram os valores dos produtos.

Isso mesmo eu não estando uniformizada, sem avental e usando roupas completamente diferentes das funcionárias do estabelecimento.

Nas duas situações, eu congelei. Não soube como reagir, o que falar ou como me portar.

Ao longo desse último ano, eu já havia passado por episódios parecidos, mas a sutileza cruel com que ambos aconteceram me deixou profundamente abismada.

Quem sou eu?

Racismo religioso

Particularmente, eu não sou o tipo de pessoa partidária. Lutar por uma causa aos gritos ou sair impondo minhas opiniões nunca fez muito o meu estilo. Mas uma coisa que sempre prezei foi o respeito. Por isso, estar em uma conversa emocional com uma amiga e ouvir uma pessoa aleatória culpar a minha religião por aquilo foi algo extremamente desagradável.

Claro que, ao escolher a Umbanda como minha linha de pensamento religioso (e até como uma filosofia de vida) eu já imaginava que enfrentaria preconceitos. Tanto que, ao conversar com pessoas de outras religiões, faço questão de explicar tudo tim-tim por tim-tim para evitar desentendimentos.

E, sinceramente? Crer em Deus e seguir os ensinamentos d’Ele já deveria ser mais do que suficiente, independentemente do caminho que cada pessoa escolhe para chegar até isso.

“Talvez essa situação tenha sido um teste das promessas que fiz para 2026: não engolir tudo calada e aprender a me defender acima de tudo. Acabei falhando”.

Guia de Oxalá da Shoppe – Loja ANGELAAPARECIDACACADORNOCERA
(vai que minha madrinha de Umbanda me dá uma bronca)


Mas isso também me fez perceber o quanto é importante estar bem informada. Sobre diversos assuntos, teorias, culturas e realidades. Não para radicalizar, mas para saber se defender e, principalmente, respeitar outras formas de existir.

Eu não mato. Não roubo. A Umbanda não mata e nem rouba. Quem faz mal são as pessoas. Como aquela que, infelizmente, se sentiu confortável o suficiente para dizer algo tão cruel para uma mulher que mal conhecia. Se não conhece, não fale. Não se meta. E, se conhece, saiba falar com respeito.

Já vivi olhares tortos, comentários sussurrados e situações desconfortáveis relacionadas à minha religião. Mas nenhuma delas havia sido tão direta, fria e inconveniente quanto essa. E, sinceramente, se estou conquistando minhas coisas aos poucos, sem passar por cima de ninguém, talvez o problema não seja a minha religião. A demora para tal, talvez seja apenas a minha teimosia humana de existir.

Isto não é uma denúncia. É um depoimento sobre o quão desagradável é ser alvo desse tipo de preconceito, principalmente quando ele atinge algo que você ama intensamente.

Racismo estrutural

Eu ainda não me reconheço completamente como uma mulher negra, na real, estou mais para uma “paçoquinha”, como costumo brincar :-)). Mas, pelas experiências que tenho vivido, às vezes sinto como se estivesse amordaçada e presa às ferramentas históricas de uma sociedade que nunca deixou certas estruturas para trás.

Meu cabelo? Meu corpo? Meu jeito paçoquinha’ de ser

E juro para vocês: isso não é exagero.

Por muito tempo, quando entrava em ambientes mais requintados, achava que os olhares eram admiração, afinal, sempre gostei de me vestir bem. Mas, nos últimos meses, comecei a perceber expressões tortas, olhares desconfiados e um certo desdém direcionado à minha pessoa (tão linda que sou! kkkkk).

Já fui vigiada em loja, mesmo sendo educada e estando bem vestida. Já fui confundida com empregada doméstica em uma feira. Também já fui chamada de “nêga metida” de forma agressiva, e não como brincadeira. Mas, como diria a cantora Pitty: “Aquela (situação) foi de longe a mais cruel”.

Eu estava linda, em uma reunião dentro de uma cafeteria. Fui ao banheiro e, quando saí, uma mulher branca simplesmente me perguntou “O que tem pra comer? Quanto custa esse produto?”.

As funcionárias estavam uniformizadas, usando aventais claros. Eu estava de calça jeans e camiseta azul-marinho escura.

E, na minha santa ignorância, ou talvez no meu despreparo diante da situação, respondi baixinho e gaguejando: “Desculpe, mas eu não trabalho aqui”.

Eu ainda pedi desculpas.

Passei o restante do tempo agindo normalmente, mas, quando saí do local, relatei tudo às pessoas que estavam comigo. Pela primeira vez, eu realmente me senti pequena diante de uma situação de racismo. Assim como me senti nas primeiras experiências de abuso sexual, assédio e preconceito religioso.

Até onde eu vou aguentar?
Até onde nós vamos aguentar?

Se não há respeito, não há justificativas

Por dias, fiquei encucada tentando entender se existia uma justificativa para as pessoas serem assim.

E existe.

Há toda uma estrutura social que separa pessoas pela aparência, pela cor, pela forma de falar, vestir e existir. Feios não andam com bonitos. Pobres não andam com ricos. Negros não ocupam determinados espaços sem serem observados.

Mas, quem decidiu o que é feio?
Quem decidiu “quem pertence”?

No fim das contas, talvez, o preconceito funcione exatamente assim: ele transforma pessoas em intrusas dentro de lugares onde elas sempre tiveram o direito de estar.


Sou Érika dos Reis Bernardes, – oiii – sou uma “fisólofa”, isso mesmo que você leu, não é erro de digitação. Já que não tenho tanto estudo acadêmico a ponto de filosofar como Platão, Aristóteles, entre outros filósofos, então prefiro me enquadrar no senso comum de pessoas que dão pitaco em tudo. 

Agora, em uma nova fase, como adulta (lágrimas e café) que ama estudar seu próprio comportamento e que tem prazer em filosofar sobre a vida. Renascida mais uma vez, com parte da identidade já estabelecida, cresço, mudo, amadureço, e agora, opino com mais embasamento. Universitária, estagiária, filha, Umbandista e muito chorona, escrevo sobre percepções do cotidiano que vivo, reflito, analiso e coloco em palavras.

Passei boa parte da minha vida pensando e aprendendo, principalmente no período em que lutava para me recuperar de um AVC ocorrido, em 2012, assim que cheguei a Imbituba. Evento que me acarretou em graves limitações físicas. Tive complicações como hidrocefalia e durante anos precisei reaprender a andar e a falar. 

Nos textos, trago a verdade nua e crua da experiência humana, mas de uma forma mais poética e dramática. Mostro também minha visão de mundo, em relação a questões sócio culturais que nos atingem.

Sim! Sou uma mulher recém-criada que quer dar uma de “sabe tudo” no Portal! Talvez? Quem sabe? Quem sou? Pra onde vou? Quem fui?

À Flor da Pele é, com toda certeza, um sinônimo de ser humano. Hormônios, vida, arte, drama, sexo, teorias, ideologias que explodem na mente e no corpo de cada um. Como saber lidar com tudo isso?

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Opinião:
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal AHora

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