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'Se essa rua fosse minha no Dia Mundial Sem Carro' - por Carolina Stolf Silveira, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Udesc Artigos

'Se essa rua fosse minha no Dia Mundial Sem Carro' - por Carolina Stolf Silveira, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Udesc

por Administrador 20-09-2020 há 1 ano 1391

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“Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro de casa era um grande personagem.” já dizia o poeta Mário Quintana.

Em que momento deixamos de viver a cidade? O meio de transporte que utilizamos diariamente influencia diretamente em como vivenciamos a rua - o primeiro e principal espaço público urbano. 

No dia 22 de setembro diversas cidades no mundo propõem uma reflexão sobre o uso excessivo do automóvel, apelidado de “o cigarro do futuro”, pelo ex-prefeito de Curitiba, o arquiteto urbanista Jaime Lerner.

Datas são criadas para gerar consciência e mudança: 21 de setembro, o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência; 8 de março, o dia da Mulher; 20 de novembro, o da Consciência Negra. Ao longo de nossa história injustiças ocorreram e ainda ocorrem, sendo necessário evidenciar e buscas soluções aos problemas enfrentados.

O crescimento urbano de forma intensa e desordenada é uma característica comum a muitas cidades brasileiras que enfrentam sérios problemas de mobilidade, acessibilidade e oferta de espaços públicos adequados e atraentes. Precisamos buscar cidades mais densas, diversificadas, de modo que diversas funções como moradia, comércio, trabalho e lazer estejam próximas e conectadas. A qualidade de vida tem sido alvo de debate pautado especialmente na questão das dificuldades de deslocamento das pessoas para a realização das tarefas cotidianas, de forma ágil, confortável e segura. 

Os impactos nas economias locais têm sido comprovados com diversos estudos que demonstram os custos e as perdas proporcionadas à nossa saúde, à produtividade e à degradação ambiental: congestionamentos, altos índices de acidentes de trânsito, emissão constante de poluentes do ar e do som. Como é desagradável caminhar por uma rua com intenso tráfego de motorizados… barulho e fumaça… usar máscara devido à pandemia de Covid-19 mostrou-se aliada também nesses momentos… Como podemos ser saudáveis se deixamos o planeta doente?

Além de tudo, os automóveis ocupam bastante espaço na rua, o qual é dividido de forma injusta e desproporcional com os demais modos, principalmente por, na maioria das vezes, estar transportando apenas uma pessoa. De fato, só pode mesmo resultar em uma estressante paisagem que poderia mudar se cada motorista fosse um pedestre, ciclista ou usuário do coletivo.

O arquiteto holandês Hermam Hertzberger, na década de 70, já dizia que os “[…] veículos constituem um embaraço, pois são tão grandes e, em especial, tão numerosos, que ocupam cada vez mais o espaço público” e que “a rua é […] um lugar onde o contato social pode ser estabelecido como uma sala de estar comunitária”. 

Espaços que antes eram ocupados pelas pessoas, agora são mais faixas e mais áreas de estacionamento. Nossas calçadas são constantemente deterioradas pelo peso e entra e sai dos motorizados em frente à comércios e serviços. Lembra que esse recuo frontal da edificação era antes um jardim arborizado com o solo permeável? Nessa época não tínhamos tantos problemas com alagamentos, não é mesmo? O pedestre e o ciclista devem estar atentos, pois mesmo na calçada podem ser surpreendidos. Atenção especial às crianças, carrinhos de bebê, pessoas em cadeira de rodas que devido a baixa estatura, podem não ser vistos por um motorista que acionou a marcha ré. Pisos táteis direcionais, que auxiliam as pessoas com cegueira, por vezes estão obstruídos pela presença dos veículos estacionados em parte das calçadas.

E os ciclistas? Esses lutam por seu espaço na via, mas muitas vezes, vivem à margem - literalmente na sarjeta - pois não sobra espaço, não são bem vindos nem nas calçadas e nem nas ruas. 

Mas o que nos faz pensar que a rua é mais lugar do carro do que da bicicleta ou do pedestre? A rua é pública e por isso é lugar de todos nós. Se a questão é organizar os fluxos dos veículos motorizados e não motorizados, então há um desequilíbrio nessa divisão, pois basta percebermos quanto espaço reservamos para os motorizados individuais e, até mesmo aquelas áreas que poderiam servir para muitas pessoas passarem a pé ou de bicicleta servem apenas para uma carcaça metálica ficar parada por horas e, às vezes, o dia inteiro, estacionadas no espaço público. Afinal, precisamos dar mobilidade para as pessoas ou para os veículos?

Como disse o famoso urbanista dinamarquês Jan Gehl “rompemos todas as regras para fazer os automóveis felizes”, enquanto que na verdade, precisamos de “menos carros e mais pessoas”.

Tim Waterman, o arquiteto paisagista britânico diz que “os automóveis representam, talvez, o maior desafio individual na arquitetura paisagística. Eles são letais, venenosos e pesados - nas palavras do autor - […] têm rasgado a malha urbana das cidades e criado desertos de espaços sem vegetação. […] os arquitetos paisagistas estão preocupados em construir espaços para as pessoas e não para carros e velocidade”.

Não precisamos ser reféns de carros e motos, que por vezes é um cárcere particular, assim como também não precisamos encará-los como diabólicos, são muito úteis e necessários em diversos momentos - mas não em todos. Pense em intercalar os diferentes modos. Pense em como os modos coletivo e ativos colocam as pessoas em equiparidade de condições, tornam-nas mais simpáticas, felizes e saudáveis.

Cidades europeias oferecem atraentes condições para se andar a pé, de bicicleta ou de coletivo. Entretanto, andar de carro está longe de ser fácil, rápido ou barato. É comum ver idoso com andador ou cesta de rodinhas para ir ao mercado, mãe com carrinho de bebê no ônibus, pai levando crianças para a escola de bicicleta. É possível mesmo escutar do terceiro andar, o giro das rodas da bicicleta que passam lá embaixo na rua… é possível ouvir o canto dos pássaros e a canção de um rapaz feliz que caminha com seu filho voltando da escola… O ar é mais limpo e é possível respirar profundo enquanto contempla as diversas árvores que abraçam a rua. 

Não fique no aguardo do serviço e infraestrutura ideais para começar a usar outros modos de transporte. Perceba que muitos deslocamentos podem ser feitos a pé e vamos de carro na padaria da esquina. 

Datas assim remetem à célebre frase do líder indiano Mahatma Gandhi “Seja a mudança que você quer ver no mundo”: se quer ver um mundo sustentável, separe o lixo que você gera, tenha uma composteira; quer caminhar mais, qualifique sua calçada, plante uma árvore; quer menos violência, seja mais amoroso; quer melhorar a mobilidade, considere um dia sem carro.

Cada um de nós pode fazer sua parte para melhorar o meio em que vivemos: utilizar o carro de forma mais consciente e preferir o deslocamento por modos ativos, coletivos, compartilhados. Nossos governantes, que precisam viver a cidade de perto para entender o que ela precisa, devem sair de seus carros, caminhar mais, utilizar a bicicleta e o ônibus. Precisamos de mais empatia urbana: nos colocar no lugar do outro e, de fato, ser mais gentil em nossos deslocamentos pela cidade.

Ah se essa rua fosse minha! Ela seria mais verde, mais silenciosa, mais humana.

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