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Um estranho na Chalana: Na série de contos de mistério, Dario Cabral Neto traz uma das Artigos

Um estranho na Chalana: Na série de contos de mistério, Dario Cabral Neto traz uma das "histórias" mais populares e assustadoras de Imbituba

# por Dario Cabral Neto 16-02-2020 há 1 ano 5335

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De todos os textos que escrevi, este foi com certeza o mais estranho. Estranho porque o medo ainda cala as pessoas, fragmentando o que presenciaram. O tempo só deixa a imagem principal, apaga os fatos periféricos e assim a investigação tomou-me mais tempo.

Um bom número dos frequentadores da Chalana, uma boate à beira mar no bairro Vila Nova, ponto de encontro da juventude mais simples, sem muito recurso. Para lá iam se divertir, eram os anos oitenta.

A discoteca estava lotada naquele sábado de quaresma, as gatinhas e os gatinhos se esbarravam, equilibrando seus copos de caipirinha. O som rolava na pista, e um entra e sai na busca de parceiros, trocando flertes nos olhares e risinhos.

Na altura da meia-noite, um homem desconhecido, bonito e atraente chega e, bem dado à conversa, começa a ganhar as meninas, para desespero dos moços que, na solidão dos dias, buscavam namoradas.

Tal homem dançava muito bem e sorria, lindamente. Seus olhos brilhavam num encantamento livre da maldade, encantando as jovens. Rodopiava ao sabor da música, soprando palavras doces aos ouvidos das que com ele dançavam.
O tempo foi passando na sua ânsia de consumir as horas, copos e mais copos de bebidas consumidas se espalhavam pelo chão, encostados do banco estofado que circundava o salão da boate, pra desespero dos guris na função de garçom. 

De repente, um grito agudo na voz de uma moça, uma corrida graciosa, que fez com que seus cabelos loiros dançassem de um lado para o outro, chama a atenção do proprietário e dos demais. O choro não contido, e a confusão entre bebida e lucidez afetaram a fala, somente as lágrimas diziam sobre o medo sentido.
Até então nada se sabia, a música continuava a encantar e encantava o homem no seu processo de ganhar as moças, de dançar, de enfeitiçar e gerar ciúmes nos garotos. Tudo normal, para quem tem o dote da beleza conjugada com a destreza da dança, da fala doce, dos olhos lindos, do sorriso que cativa.

Extinta boate Chalana, em Vila Nova

Lá fora uma rodinha de amigas e alguns meninos cercavam a jovem, na tentativa de descobrir o que havia acontecido. Água (horror para quem gosta de beber álcool) não ajudou muito. Só pedia para ir embora, e embora foi levada. Ficou ao sabor das ondas que estralavam na areia sua canção. O que gerou tudo aquilo?
Um ou outro saia de moto, na maioria, fazendo 'zerinho', empinando e sumindo na praia escura, buscando o centro de Imbituba. 

Engraçado como quando retirado o foco vitimado, a calmaria volta e o esquecimento cresce. O homem “estranho” para os outros homens divertia-se com as moças, entre danças, falas doces, olhares sedutores, sorriso cativante, até que no intervalo um pouco mais longo entre as músicas, um novo som foi sentido, no princípio quase imperceptível, depois, sentido com mais intensidade. 

E assim os olhares buscavam respostas, grupinhos amigos se formavam nos cantos do salão, e quanto mais espaço era nascido na pista, mais o homem ficava a mostra, o som formado era o som seco e cascado, como se comparado com cascos das patas de um cavalo.

A luz negra e o globo de espelhos girando e dando formas às sombras das pessoas, que se assustavam cada vez mais, impediam a perfeita descrição do som. 

O homem chegou perto de um grupo, agora com o andar modificado. Buscava equilíbrio no piso esmaltado. As pernas estavam diferentes, o joelho projetado para frente e o calcanhar expressivamente deformado alongando o pé, que, como quem fica na sua ponta para ganhar altura, estavam sapateando. 

Alguns olhares viram o que não queriam ver e, arregalando os olhos no horror do desconhecido, perdiam tempo para soltar o primeiro grito.

Patas com cascos em unhas estralavam no piso cerâmico, assim que fora visto na penumbra do salão, uma gritaria nasceu no silêncio daquele intervalo de música. E como correr, se o homem estava próximo à saída?




Claro! Os gritos se avolumavam, no horrendo espectrar daquela visão. E foram crescendo. Nisso, o homem com os pés virados, na visão distorcida pelo medo, foi se movimentando numa espécie de dança, e, quando deu uma brecha, as pessoas, em pânico, saíram correndo do salão. 

Uns até hoje dizem que o homem ficava rindo enquanto batia com os cascos no piso. Outros que ele tinha os pés virados para trás, mais alguns que seus olhos, antes lindos, foram tomados por fogo, e que sua voz ficou grave, sinistra, rindo do que provocou.

No bar, as mesas ficaram vazias. Claro, aqueles homens tidos machões, que aproveitavam das fraquezas alheias, sofriam as suas próprias. O clima ficou num azedume só, o silêncio agravava mais ainda a voz do homem do pé virado (como ficou conhecido). A polícia, quem sabe por não crer nas denuncias, demorou a vir e quando veio, tudo já havia acabado.

Ninguém entrou na Chalana, a música calou-se. De repente, a voz do homem emudeceu, piorando ainda mais o estado de espírito daquelas pessoas, cujo medo era um tanto menor do que a curiosidade. O álcool dando coragem para alguns, fez com que ficassem como testemunho deste ocorrido.

Silêncio na Chalana! Tanto dentro quanto fora. Um rapaz sugeriu ir ver se ele ainda estava lá ainda. Como não houvera agressão, refletiram, ponderaram, buscavam olhares de apoio, até que, certificados que tinham tudo que precisavam para ir ver, foram ver, deram os primeiros passos.

Como a atmosfera muda num mesmo ambiente! Antes sonoro e enfeitado com sorrisos, agora horrendo reduto do silêncio. A luz de uma fluorescente piscando, o globo de espelhos girando, ouve-se até o som do frízer no seu zumbido monótono. 

Ter coragem é para poucos, e dois a tiveram. Entraram, lentamente, primeiro no bar que, bem iluminado, não oferecia risco. Depois, séculos de passos medidos, estavam à entrada do salão. A primeira visão, vazia, do lado esquerdo, deu amparo ao coração já tão acelerado. Mais dois passos, duas cabeças projetadas para dentro do salão, buscaram na luz difusa a imagem do homem e nada viram. Mais um passo, agora eretos passos da coragem plena, entraram firmes no propósito e nada viram.

Lá fora a expectativa era tamanha que parecia que o mar silenciava suas ondas, até que os dois rapazes saíram ligeiro do salão. Uns gritinhos ainda com medo acompanharam o olhar dos presentes e, assim. findou a noite e selou o destino da Chalana, que aos poucos ficou vazia, até que pouco tempo depois, com o estigma da “aparição” encerrou suas atividades. 

Será que tudo foi verdade? 
Só aqueles presentes o sabem, e sabem que não estamos sós. Abrimos portais quando ingerimos álcool em demasia, ou outras coisas mais, como medo, desconhecimento, fraqueza... Entretanto, acredito que o homem do pé virado esteja nas esquinas, esperando belas moças para sair dançando. 
Cuidado!

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SOBRE O COLUNISTA: Com 45 anos dedicados a criação de histórias e a produção de livros, Dario Cabral da Silva Neto, de 60 anos escreve poesias e se dedica ao desenvolvimento de romances. Dos 21 títulos já escritos, nove foram publicados, o mais recente "Redescobrindo a Vida".

Entre 1973 e 2000, Dario era, exclusivamente, poeta, mas em 2000, decidiu se transformar em romancista. Entre as surpreendentes obras, que são vendidas por R$ 30, estão os clássicos Catador de Sonhos, Uma Questão de Amor, A Ravina, Pétalas de Amor, O Segredo de Melissa e a Caminhada do Zé Mundão.

Os livros escritos por Dario não têm foco religioso, mas trazem mensagens espiritualizadas. 

Para adquirir as obras de Dario basta realizar contato com o escritor pelo Messenger do Facebook (in box) ou pelo telefone (48) 999378198. 

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