Publicidade


Notícias


Pesquise


Viegas Fernandes da Costa - As muitas violências contra a professora Márcia Artigos

Viegas Fernandes da Costa - As muitas violências contra a professora Márcia

# por Viegas Fernandes da Costa 23-08-2017 há 7 mêses 1426

  • Tweet

Publicidade

Quando soube da brutal agressão sofrida pela professora Marcia Friggi, na última segunda-feira, o primeiro sentimento foi de incredulidade. Conheço a professora Márcia e sua família há muitos anos. Trabalhamos juntos em uma escola no município de Indaial (SC), e sei da sua integridade moral e competência profissional. Professora dedicada, comprometida com a educação pública e cidadã e engajada nas causas sociais. Ver seu rosto ferido por um aluno nas redes sociais doeu muito. Doeu não apenas porque se trata de uma pessoa próxima, mas porque se trata de uma mulher, professora e cidadã. Doeu porque o sangue em seu rosto é a triste e cruel metáfora do momento social e político em que vive o Brasil e do descaso ao qual à educação brasileira está submetida. E antes de prosseguir, é preciso que se reafirme: Márcia Friggi, a professora e a mulher, é vítima. V-í-t-i-m-a!

Talvez Márcia estivesse no lugar e na hora errados. Sim, talvez. A imprensa noticiou que o adolescente autor dos socos é reincidente, e relatos dão conta da sua personalidade violenta. A promotoria da infância de Indaial se pronunciou, prometendo tomar as medidas cabíveis. Márcia nada sabia a respeito do aluno, aquela era sua primeira aula com a turma. Agiu como professora, com a autoridade própria de uma docente. O aluno reagiu em despropósito, feriu Márcia e, principalmente, feriu a si e à sociedade. De qualquer modo, a violência sofrida por Márcia é também a violência sofrida por inúmeros professores e professoras deste país. Violência física, moral, social. Violência de Estado. Como escreveu a psicóloga Ana Ivanovich, filha de Márcia, em seu desabafo nas redes sociais, “o soco no rosto da minha mãe foi de um aluno de 15 anos e também do poder público, do piso salarial, da jornada desumana de trabalho e da condição precária.” Ana está coberta de razão.

No Brasil, o projeto para a educação é justamente fazer com que a sociedade desacredite seus profissionais e as propostas de emancipação humana por meio de uma educação libertadora. No Brasil, professores são desmoralizados diuturnamente pela sociedade. Em Santa Catarina, recentemente, diversas situações são exemplos desta desmoralização, como a invasão do Campus do Instituto Federal Catarinense em Abelardo Luz e o afastamento de dois dos seus docentes, e a perseguição à professora de História Marlene de Fáveri, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). No Brasil, a repressão do governo de Beto Richa às manifestações de professores em Curitiba (PR) e a invasão da Escola Nacional Florestan Fernandes em Guararema (SP). A estes exemplos se somam os inúmeros casos de violência física e moral praticados por estudantes e familiares contra profissionais de educação por todo país, a campanha do movimento Escola Sem Partido contra a liberdade de cátedra, buscando promover censura prévia à prática docente, e as sucessivas políticas de desmonte do ensino público promovidas nas diferentes instâncias de governo. Afinal, em um país onde até mesmo uma Universidade faz uso de um apresentador de televisão para vender cursos de licenciatura sob o argumento de que o magistério pode ser um bom “bico” para complementar renda, não se pode esperar que a sociedade respeite seus professores.

Márcia Friggi, professora, mulher e cidadã, tem consciência deste cenário. O problema da educação brasileira é estrutural, e os socos que recebeu de um aluno são apenas uma pequena parte deste imenso iceberg. Ainda na segunda-feira, machucada, humilhada, com o rosto brutalmente desfigurado, Márcia desabafou em sua rede social. Sem abrir mão dos seus valores éticos, em meio à dor e ao atordoamento, no calor dos acontecimentos, compartilhou a situação com discernimento. Em nenhum momento Márcia expôs o aluno, sua família ou a escola. Tão somente narrou o lamentável acontecimento e refletiu a respeito da condição à qual estão submetidos seus colegas de magistério. Não tardou, entretanto, para que surgissem sob seu desabafo comentários em defesa da redução da idade penal e de apoiadores da candidatura de um presidenciável condenado em duas instâncias da Justiça por graves ofensas a uma mulher. Márcia não aceitou o papel de cabo eleitoral que lhe tentaram imputar, e reagiu. Foi a segunda violência que sofreu. Primeiro o soco que a levou ao hospital, depois o oportunismo imoral daqueles que pretendem incensar a candidatura de um conservador cujo discurso misógino e violento sempre a repugnaram. Por não ter aceitado que usassem sua imagem e sua dor para promover o oportunismo mais baixo, Márcia Friggi sobre então a terceira violência. Seu perfil na rede social é devassado e antigas postagens que fez no âmbito da esfera pessoal passam a ser utilizadas como forma de relativizar e até mesmo legitimar a violência da qual foi vítima dentro do ambiente escolar. Até mesmo pessoas que defendem o extermínio de minorias, da tortura e que utilizam as redes sociais e veículos de comunicação para fomentar a violência, passaram a acusar Márcia em função das suas posições políticas e de comentários resultantes de momentos de indignação em relação ao cenário político e social em que vive o país.

O Brasil, país ainda misógino, patriarcal e escravagista, é experiente em criminalizar as vítimas de crimes, principalmente quando estas vítimas são mulheres. O que acontece em relação à Márcia Friggi não é diferente. Reacionários de toda sorte buscam transferir a culpa da violência sofrida a Márcia justamente porque ela, apesar de ter se rosto e sua moral brutalizada por um adolescente, continuou se posicionando contra a redução da idade penal e contra a institucionalização da violência. Assediada pela imoralidade de políticos oportunistas, Márcia os rechaçou. Os ignorantes, entretanto, não perdoam, e em menos de 24 horas deturparam os fatos, achincalharam uma profissional respeitada e íntegra e ofenderam uma mulher, mãe e professora.

É preciso dizer que Márcia Friggi não recebeu os socos de um aluno em decorrência das suas posições políticas e postagens na rede social. É preciso dizer que Márcia Friggi, professora, foi vítima de violência enquanto exercia a docência, e nada, absolutamente nada, justifica a violência contra um professor. Márcia Friggi é vítima, e a sociedade deve desculpas a ela e a tantos docentes vitimados no exercício da sua profissão diariamente. E que a justiça responsabilize àqueles que têm usado as redes sociais e os veículos de comunicação para destruir a biografia de pessoas íntegras e criminalizando vítimas.

E que o caso envolvendo a professora Márcia Friggi possa, enfim, provocar no Brasil um debate profundo a respeito da educação e do papel de professores e da sociedade na formação dos nossos jovens.


    Palavras-chave
  • Márcia Friggi
  • professora agredida
  • aluno
  • soco
  • Indaial
  • escola
  • Márcia
  • violência
  • educação
  • Tweet
Atenção

As opiniões de nossos colunistas não expressam necessariamente a opinião do Portal AHora e são de responsabilidade dos mesmos. O espaço é aberto para a expressão pessoal, independentemente de credo, linha de atuação ou posição política, de acordo com a forma que cada um de nossos colunistas vê e sente o mundo.


Últimas Notícias


As melhores publicações e novidades no seu e-mail.

logo

Informações, negócios e cultura local atualizados diariamente.

Fale Conosco

48 99115.3012
48 99998.8885
Inbox no Facebook

contato@portalahora.com.br

Localização

Imbituba - SC Brasil