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"Respeito é bom!": Confira o novo e tenebroso "causo" do escritor imbitubense Dario Cabral Neto, sobre desdém às almas vítimas de afogamento

# por Dario Cabral Neto 06-01-2020 há 1 mês 932

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Respeito é Bom!

Agosto, mês de frio, porém de água clara e quente. Podíamos achar algumas tainhas perdidas nos costões da Ilha de Terra. Seu Vadinho e meu pai seguiam de batera para pescar os marimbás de fundo. Tarrafa grossa, boa medida de fieira, e, com a ajuda da batera, seria fácil desenroscar das pedras.  

Aquele inverno de 1976 foi marcado por algumas mortes por afogamento, perdas irremediáveis e famílias em prantos. Alguns diziam que era mau agouro sair para pescar depois de tantas mortes. Pior ainda era consumir os peixes da região.

Levando em conta as correntes e a lestada do caminho náutico do litoral, Seu Vadinho sabia que nenhum daqueles três desafortunados que estariam por ali seriam devolvidos lá para as bandas de Laguna.

Arrastar a batera era brincadeira de criança. Feita de garapuvu branco, pesava que nem pluma, colocados os balaios, a poita de pedra com seu cabo de 30 metros, estavam prontos. Meu pai, o Bina, no remo Seu Vadinho na tarrafa, ainda fiquei vendo-os contornarem o portinho da Ilha, só depois saí.

Na praia vinham dois pescadores amadores, também com tarrafas, tentar a sorte no canto e levar uma ou mais tainhas para casa. Não era como hoje, de nem safra parecer ter. A tainha tá sumindo. Pois bem, vinham conversando e rindo, coisa que acho ser afronta e desrespeito às almas perdidas no canto. Pescar tudo bem, prestar silêncio melhor ainda.

Passaram pelo ponto de risco, onde morava a Dona Rosinha e seus cães infernais, magrelos, mas bravos. Era um olhar para frente e quando se virava para ter certeza lá vinham uns quinze em disparada e o recurso era entrar na água, o que foi feito. Escaparam dos dentes e como se não bastasse tiravam onda da situação.

Chegaram ao canto, colocaram os gongás numa das pedras, desfizeram os nós das tarrafas, um deles se serve de um gole de pinga, o outro recusa. Olham a água que se avoluma na cheia, espuma cobrindo a pedra do Alemão. E a pontinha, só o calombo ficava aparecendo no vai e vem das águas. 

O mais velho deles atira a tarrafa para além da pedra da Baleia, livrando de duas outras menores que, submersas, faria um bom estrago na rede. Chuleia daqui e dali, sente que alguma coisa bateu no rufo e, muita manha depois, consegue ver duas 'meias tainhas' presas. A sorte sorri a princípio, motivando o mais novo a fazer o mesmo, só que mais adiante, depois da pedra do Alemão. "Paneia", divide, pesa, arremessa e um círculo perfeito estala na água, nada sente, só um calafrio na espinha, acha que é da água, não dá bola, recolhe a tarrafa e vem em terra.

Tem coisa que deve ser entendida no primeiro sinal, um arrepio, o cabelo eriçado, aquele ronco nas tripas descendo acelerado, tudo sinal que se deve ficar atento. Negligenciar é algo que não se deve fazer. Mas foi feito. A cachaça fez efeito, aqueceu e com isso o esquecimento deste alerta, tantas tarrafadas para tão pouco peixe e a má sorte crescia. Desatento, o mais jovem deles foi se aproximando da pontinha, girou o corpo e atirou a tarrafa, como sempre aberta na sua perfeição. Segundos depois solta um grito em agonia, chacoalha o corpo como quem tenta se livrar de algo pesado. Um gelo crescente juntava-se aos gritos...

O mais velho via que um rapaz acocorado no calombo da pontinha pedia socorro sem parar. Quando o amigo deu-lhe as costas, ainda viu o rapaz se atirar e grudar-se no pescador. Sabia que não era real, sabia se tratar do espírito de daqueles desafortunados, sabia que deveria fazer alguma coisa; mas o quê?

Desespero e agonia, um sofria as consequências do desrespeito, o outro apavorado sem saber o que fazer, nada fez, até que se livrando do fardo o mais jovem pareceu ver um vulto que se entregava às águas, indo pouco a pouco para o fundo e levado pela corrente apenas ecoava seu grito de socorro.

Correria na praia, acode um e o outro desmaia, chama alguém que tenha carro, ninguém tinha; colocados sobre uma pedra, logo sumiram as meias tainhas, levaram-nas não se sabe como. Para piorar a agonia dos dois, quando embora foram,  tiveram que enfrentar os cachorros da dona Rosinha Saruga, corriam os dois sem fazer bagunça, só sair daquele canto mau assombrado.

Aponta a batera no canal e vem meu pai no remo e Seu Vadinho de patrão, silêncio a bordo, dá remo com força, geme de um lado e remo na popa, leme e direção, passam na pontinha e arrasta o fundo na areia, alivia-se dos calos meu pai, sorri satisfeito Seu Vadinho.

Eu convocado à força, retiro os balaios com peixes até a boca, depois conto o que aconteceu para eles que se olham de canto, não crendo no que falei, quem sabe, Seu Vadinho percebera que tinha aprendido com ele a contar histórias.

Olhei de relance e vi que o fantasma do rapaz estava sentado na proa da batera, Seu Vadinho estava do lado, não via. 
Falei que por ele não crer, podia dar boa noite para o defunto, Seu Vadinho deu um salto, que gato teria inveja, meu pai largou os remos e não sei por que foi ligeiro para o rancho, eu lá tinha mais trabalho, levar balaio e remos para casa. 

Seu Vadinho? Bom! Vi que havia um risco de areia que se elevava enquanto ele corria. Não deu tempo de chamá-lo de corajoso.

Acreditem, nunca se vai à praia tirando onda em ocasião de perdas em afogamento.
Dá um azar danado. 

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SOBRE O COLUNISTA: Com 45 anos dedicados a criação de histórias e a produção de livros, Dario Cabral da Silva Neto, de 60 anos escreve poesias e se dedica ao desenvolvimento de romances. Dos 21 títulos já escritos, nove foram publicados, o mais recente "Redescobrindo a Vida".

Entre 1973 e 2000, Dario era, exclusivamente, poeta, mas em 2000, decidiu se transformar em romancista. Entre as surpreendentes obras, que são vendidas por R$ 30, estão os clássicos Catador de Sonhos, Uma Questão de Amor, A Ravina, Pétalas de Amor, O Segredo de Melissa e a Caminhada do Zé Mundão.

Os livros escritos por Dario não têm foco religioso, mas trazem mensagens espiritualizadas. 

Para adquirir as obras de Dario basta realizar contato com o escritor pelo Messenger do Facebook (in box) ou pelo telefone (48) 999378198. 

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