Publicidade


Notícias


Pesquise


Artigos

"Quem quer Ouro?" - confira o novo conto do escritor Dario Cabral Neto, sobre ganância e confrontos mortais entre famílias imbitubenses

# por Dario Cabral Neto 25-12-2019 há 1 mês 1270

  • Tweet

Publicidade

Quem quer Ouro?

Dizem que há várias maneiras de se ficar rico, ganhar nas várias loterias oficiais, quebrar a banca de bicho, trabalhar arduamente e honestamente, ou encontrar um pote de ouro enterrado num lugar qualquer.

Pois bem, reguardando os nomes e criadas personagens, ouvíamos Seu Vadinho contar este fato real. A noite ardia com a fogueira acesa entre duas pedras no canto da praia da Vila. Verão quente daquele ano de 1974. Nosso grupo, calado, ouvia, atentamente, a história que se desenrolava no crepitar do fogo e das sombras.

O marimbá assado na grelha, o boião com café e o aguidal com farofa de lula rodeavam a fogueira recebendo calor. A voz imponente e grave do bom pescador, conhecedor dos mares e dos seus causos vividos e/ou recebidos dos mais velhos. Seus gestos e o crepitar da lenha davam alguns arrepios.

Vocês podem achar que é mentira, não ligo, eu também achei que era até que Pedro, o malheiro, e Antônio, o pedreiro, resolveram tirar a prova: “Vocês conhecem o Maquiné?”. Fez-se silêncio esperando a afirmação do grupo naquelas bandas. Continuou dando um trago na cachaça. A estrada foi aberta sem saber que o faziam em uma região de confronto e morte.

Duas famílias disputavam aquelas terras, a dos Oliveira e a dos Costa. Volta e meia uma morte era contada e o feito espalhado com bravura, replicada, acrescida de mais alegorias, trazia o ódio na família em luto, uma emboscada e a vingança servia seu prato.

Famílias ricas, daquelas que o ouro em moedas era contado em baldes. Enquanto as mortes seguiam apenas entre os peões, não se dava muita atenção. Mas quando ceifou a vida de Cristina, mulher de Ambrósio, as coisas mudaram, houve um reboliço na família dos Costa, cavalos encilhados, tochas acesas, homens armados, olhos avermelhados pela dor e pela raiva. Gritavam uns com os outros. Gritos que se misturavam com os relinchos, vapores exalados formavam um quadro horrendo. 

A família dos Oliveira, em silêncio. Um falso silêncio, pois, na verdade festejavam a baixa causada ao inimigo. Sabiam que haveria retaliação, mas a vitória também é cega, e o confronto teve início na fronteira das terras destas famílias. Quando os Oliveira viram o clarão das tochas não tiveram muito tempo para se agruparem. Peões bêbados e senhores em regozijo baixaram a guarda. Já era tarde!  Frederico Oliveira com mais quatro dos seus fieis peões colocaram 20 potes em barro, cheio de moedas, no assoalho da carroça e seguiram por uma trilha interna até a base de um aglomerado rochoso, uma gruta rasa, mais um buraco deixado por uma pedra que outrora retirada para uso na construção. 

Ali colocaram os potes e, sob severa observação de Frederico, os peões cometeram um erro: trocaram olhares de ganância entre si, o que custou suas vidas. Empilhados seus corpos sobre os potes, Frederico acende o pavio de uma banana de dinamite e bem colocada explode soterrando cadáveres e ouro.

Gritos de mulheres e homens em desespero, mortes bobas pelo desrespeito e pela ganância do poder dizimaram os Oliveira. Na contrapartida, nesta lei de retorno, velhice e doença cobraram seu quinhão nos Costa, ficando nas duas terras seus tesouros enterrados, servindo de mácula e maldição. Dizem que na terra lavada em sangue nada nasce, nem brota. A natureza foi cobrindo com seu manto em luto todas as casas, a caixa, que outrora servia no abastecimento, ruiu, refazendo seu curso em direção à lagoa do Mirim. Apagou o que restava de civilização naquela região. 

Passado tanto tempo, o esquecimento desta contenda foi evaporando, mas não o desejo de encontrar o ouro. 
Há pouco tempo, coisa de dez anos, dois amigos descendentes daqueles peões dos Oliveira requereram um lote de terra onde outrora era dos patrões. Lá ergueram uma casa, a princípio de taipa, depois de alvenaria conforme cresciam as economias oriundas da pesca do camarão.

Mas não havia dia em que não conversavam sobre a fortuna enterrada. Alimentando este sonho em desejo, começaram a ter sonhos estranhos. Foram tantos que, um belo dia, sentados à sombra de uma ameixeira; confabulavam e planejavam escavar a região. 

Sem um mapa, era tentativa e erro, e, cada vez que tentavam, mais tinham sonhos pesados. Eram tantos que perderam as mulheres, que fugiram com outros homens. Certa loucura tomou conta deles. Cada vez mais atormentados escavavam as encostas do morro, cada grota, cada riacho, cada sombra de figueira. E nada.

Um dia, o mais velho deles dois sentiu que deveria seguir um rastro de caça. Chamou o amigo e saíram os dois, cada qual absorvido com sua loucura. Seguiram por duas horas a trilha de caça, até que se bifurcou diante de uma aglomerado de pedras. Indecisos resolveram ficar ali. As horas passaram e, vindo à noite, acenderam uma fogueira. Comeram um naco de carne seca cada, beberam da cachaça e o sono veio. Desnutridos, alcoolizados, frágeis homens da ganância dormiam seus pesadelos. 

Um estalo de galho acordou o mais velho. Buscando um pau em fogo tentou ver o que havia ouvido. Mais um estalo, outro mais forte, um peso em agonia, a voz se fez ouvir...

- Quem ousa vir incomodar-me?
- Mão do céu! Quem tá aí?
- Bastardos, ladrões, querem meu tesouro, terão apenas a morte.
- Não, não, não... Estamos apenas caçando.
Uma risada estridente ecoou na mata, que se recura lentamente, assim como acorda o outro mais novo.
- Que, que tá acontecendo?
- Tem um fantasma aqui, acho que encontramos o tesouro, mas num dá pra pegar, seremos mortos.
- Que fantasma, que nada, o ouro é de quem encontrar.

A faca apenas brilhou a cor da brasa. Cravou-se na barriga do comparsa, que esbugalhou os olhos, levando a mão ao ferimento e ainda sentiu a lâmina sair lentamente de si. Morreu, em agonia, ali mesmo.

O peão e agora assassino desceu em disparada pela trilha, chegando a humilde casa. Já sem ar, buscou a garrafa de cana. Dela, mata as imagens que volitavam na sua mente. Coloca mais munição no bolso da calça em farrapos, verifica sua arma, pega a picareta e uma pá, e refaz o caminho até onde esteve com seu amigo e vítima.

Nada via enquanto subia. Um gole, e a coragem era reavivada. A cachaça, irmã dos covardes. Fez a curva pela figueira, saltou o riacho e voltou ao rumo das perdas onde tudo aconteceu. 

- Cadê? Onde você se meteu, seu merda? Eu te matei.

A fogueira fora avistada e a luz difusa dava vida às sombras da noite. A espingarda do amigo estava onde ficou, menos o amigo que sumira. 

A picareta deu o primeiro golpe na vala coberta, depois outro e mais centenas deles, com a pá que se sentia pesada demais para pouca terra recolhida, cada vez mais pesada, cada vez mais um arrepio na espinha, mais um gole de cana. Exaurido pela subida e pela cachaça, além do esforço do trabalho, sentiu dobrar suas pernas. Segura seu peso deixando a mão como apoio no chão removido.

Aquela gargalhada ecoa novamente. Um tiro, depois mais três, e, nada impunha silêncio. Um terror se apodera, chave de todas as desgraças, consome o resto de força e coragem.

- Querias meu tesouro, não é? Terás o que viestes buscar: a morte.

E como se vivo ainda fosse, segurou o pescoço do peão e torceu até ouvir-se um estalo, mais alto que aquele primeiro. A gargalhada continuou enquanto o corpo morto era arrastado e colocado sobre outros quatros só em ossos. “Mais dois guardas para o tesouro, dizia a voz que aos poucos vai se fundindo ao musgo que cobre a pedra maior. Um vento nascido do nada apaga a fogueira e só um fumo de fumaça passa por entre as árvores, quem sabe será a próxima trovoada, quem sabe.

Seu Vadinho deu ênfase nesta parte, olhando para o céu, quero dizer, um olho para o céu e o outro para nossas faces brancas, joelhos tremendo, e o marimbá já era brasa como as brasas da fogueira. Nisso veio meu pai e, como não o tínhamos visto, solta um grito...

Dois desmaiaram, um se borrou todinho ali mesmo. Eu que até então já passara por um causo semelhante, apenas soltei um pum, e cai de lado. 

Ecoam as gargalhadas na minha lembrança de guri, desbravador de causos ditados nas noites de canto de praia. Ainda sinto o cheiro bom do marimbá assado na brasa, ouço a voz do seu Vadinho como um quebrar de onda nas rochas, onde a espuma é seu riso largo.

__________________________________________________________________________________

SOBRE O COLUNISTA: Com 45 anos dedicados a criação de histórias e a produção de livros, Dario Cabral da Silva Neto, de 60 anos escreve poesias e se dedica ao desenvolvimento de romances. Dos 21 títulos já escritos, nove foram publicados, o mais recente "Redescobrindo a Vida".

Entre 1973 e 2000, Dario era, exclusivamente, poeta, mas em 2000, decidiu se transformar em romancista. Entre as surpreendentes obras, que são vendidas por R$ 30, estão os clássicos Catador de Sonhos, Uma Questão de Amor, A Ravina, Pétalas de Amor, O Segredo de Melissa e a Caminhada do Zé Mundão.

Os livros escritos por Dario não têm foco religioso, mas trazem mensagens espiritualizadas. 

Para adquirir as obras de Dario basta realizar contato com o escritor pelo Messenger do Facebook (in box) ou pelo telefone (48) 999378198. 

    Palavras-chave
  • Imbituba
  • ouro
  • ganância
  • Maquiné
  • Dario
  • coluna
  • ensaios
  • textos
  • Cabral
  • Neto
  • colunista
  • famílias
  • Costa
  • Oliveira
  • Vadinho
  • fantasma
  • causos
  • fogueira
  • Morro
  • lagoa
  • Mirim
  • Tweet
Atenção

As opiniões de nossos colunistas não expressam necessariamente a opinião do Portal AHora e são de responsabilidade dos mesmos. O espaço é aberto para a expressão pessoal, independentemente de credo, linha de atuação ou posição política, de acordo com a forma que cada um de nossos colunistas vê e sente o mundo.


As melhores publicações e novidades no seu e-mail.

logo

Informações, negócios e cultura local atualizados diariamente.

Fale Conosco

48 9 9115.3099
48 9 9998.8885
Inbox no Facebook

portalahora@gmail.com

Localização

Imbituba - SC Brasil