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Conto: Com sua Monareta, escritor Dario Cabral Neto percorre a Vila Esperança e surfa as Dunas da Ribanceira' Artigos

Conto: Com sua Monareta, escritor Dario Cabral Neto percorre a Vila Esperança e surfa as Dunas da Ribanceira'

# por Dario Cabral Neto 26-01-2019 há 6 mêses 2214

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Dizem que encanto é um quê percebido, uma parte de um todo, aquilo que se destaca; ação ou efeito de encantar-se, encantamento ou o seu efeito.  Portanto, meu encantamento começa ao descer pela estrada de acesso à praia da Ribanceira, asfalto, uma linha serpenteando como promessa de boas imagens. 

Assim que se avista à praia, logo se nota a majestosa área de Duna. Um encanto de imagem, o ar salubre da praia orvalha a ravina, nubla neste alvorecer de dia aliviando este pedaço de deserto.

Agraciado pelo Bairro em si, uma promessa de crescimento, um berço de nobres visitantes cetáceos e muitos outros que, na Graça Divina, pude gravar na memória.  Sabe aquele ditado? – Só se descobre quando se dá ao caminho.

Muitos lembrarão das imagens desta praia, fixados no presente, como fiz até este parágrafo. Convido-os aos passos de outra era, quando o pó cobria de ocre os butiazeiros, quando o vento nordeste levantava crista na navalha da Duna, fazendo arco brincando de castelinhos.

Imaginem-se ainda adolescentes, catando canoa de coquinho- catarro, o que me rendeu  um trabalhão para cortar, muitas vezes levando bronca dos senhores das terras.  A Monareta equipada, gongá com duas garrafas de vidro de Coca com água, estalando quando passava pelas costelinhas da estrada.  Rezava para não cair... Está em estudo na NASA o porquê de se arrebentar tanto numa queda de bicicleta. Coisa incrível! Pode ser quase parando, mas dá a impressão de se ter caído a cem por hora. Voltemos ao texto.

Uma paradinha no Bar “Tomei Café Agora”, estava fechado, aproveitei a sombra, apertei o nó do cordão do meu chapéu de palha, verifiquei as garrafas, reclamei do pneu traseiro murcho, sem remédio remediado está. Sigo até a parte dos fundos do terreno dos donos do bar, que são amigos de meu pai. Coloco a Monareta encostada na cerca e com a canoa de coqueiro mais o gongá. Adivinhem? Refiz os laços da minha conga, pé na trilha que ainda falta um bocado.

Cortando caminho por aqui e por ali chego à parte sul das Dunas. Impossível não ficar admirado com tamanha beleza, areia branca e fina! Quem surfa saberá do que falo: ondas gordas estacionárias e outras que empurradas pelo vento sobem suavemente e depois se crispam num vértice. Olhava tudo aquilo boquiaberto, maravilhado, tentei, mas é complicado adiantar o passo na areia. A calma é necessária! 

Naquelas gordas Dunas que, servindo de pista para o vento, têm uma maior firmeza, aproveito para subir, subir, arfando o ar a plenos pulmões, percebo que só cheguei num ponto que não dá para desistir. 

O sol esta ameno, são oito horas apenas. A areia ainda não esquentou, subo mais um pouco, outra duna gorda. De cima, avistei o mar, que maravilha é ver tanta água relativamente perto, entretanto, longe o suficiente para mexer com a mente. A solidão destas aventuras exprime um conceito de branda loucura.  Juventude não liga para isto.

Sentado, olhando o mar enquanto descanso, imagino como seria a uma ou duas centenas de anos atrás. Será que estas dunas estavam da mesma maneira? Imagino a fartura de peixes pela maré, entrada e saída  da barra, costeando caminho, seguindo instintos. E a vegetação? Seriam maiores? Teria mais vida a restinga? Pensamentos de guri, fugindo do cansaço. Nesta época as Baleias caçadas e ariscas, não visitavam com tanta frequência nossas praias, passariam alguns anos depois da proibição de caça.

Um grupo de pessoas começa a subir as Dunas lá no meio, pequeninos pontos caminhando na areia, me desperto deste sonho de passado, olho adiante meu objetivo, a Duna mãe, grande e inclinada o suficiente para me fazer descer de canoa de coqueiro catarro, força nas pernas e desejo latente subo pela quina sentindo nas pernas a areia em movimento.  

- Perfeito; cheguei! Ainda olho a distância do grupo de pessoas e meu paraíso particular, como egoísta que sou (quem surfa é egoísta, toda onda é sua... Risos). Tiro do gongá uma barra de parafina, passo na base da canoa, onde o contato com a areia será feito, olho concentrado aquela onda arenosa, forço o corpo para frente, balanço as pernas mais um pouco, a canoa se inclina, forço mais um pouco e desço a princípio lento, a fofura da areia abraça a canoa, meu peso reclama e liberta-me deste braço e desço ligeiro, buscando um dos lados, opção feita “back side” (costas para a onda) sigo procurando alongar ao máximo minha onda de Duna. O tempo passa ligeiro é certo, eterna é a imagem do fato, descer e descer, quando a base se aproxima força a perna que controla a direção e a canoa vira seguindo meu desejo, faz uma curva e subo alguns metros, caindo de costas na “onda” de areia. 

Espetacular! Não suporto o silêncio e liberto meu grito de vitória. Olho para cima e não acredito! Uns dez metros de Duna, eterna areia em movimento, a canoa rachou um pouquinho no corte feito pelo facão, vai dar para descer umas vezes mais. 

Subir é um inferno, não quero estragar a pista, dou a volta e subo vencendo a distância até o cimo. O grupo bem mais perto; jovens que nem eu, moças e rapazes, um guarda sol foi aberto, quase todos na proteção da sombra, eu ali empanado em areia, sentido a sola do pé chiar, nem me dou conta, desci mais duas vezes e cansei. 

Não preciso dizer que sorvi toda a água das garrafas, metade gelo, metade para a volta, uma longa caminhada se não conseguir arrumar o pneu da Monareta, mas, na mente, eternamente descerei a Duna.

Como sempre faço; meus passos trazendo-me para o hoje. Mostrando que tudo é perto, que tudo se modifica, que tudo se conquista, que tudo se não cuidado some, que tudo que some fará falta, antes que aconteça lembro-me do ultimo abraço feito nas Dunas, das lutas dos afrontamentos, que tudo pode ser preservado, protegido, visitado, estudado e aprender com tudo isto. 

Vivemos num mundo de dualidades, somos e sofremos as causas dos nossos desrespeitos, a árvore que cortamos será a poeira dentro das nossas casas, a restinga consumida será a fome da maré alta, compartilhar é a medida.  Não somos eternos, mas o que fazemos pode ser. A onda de areia surfada por um adolescente se torna num texto, o butiazeiro queimado uma marca manchando morro, acabando com ecossistemas próprios, secando vertentes, erodindo encostas, e não engordando o gado.

Somos imagens gravadas na lembrança, cada um o é, cada um o sabe, não adianta destruir pelo lucro e depois abandonar indo de encontro com outra fonte, não adianta, estas imagens ficarão gravadas, serão cobradas. 

Desfaz-se o abraço lá na Duna, saem carretas nuas, o vento sopra neste desalento do reconstruir e depois, mais tarde, quem sabe, outro moleque será lembrando descendo a Duna mãe, cheio de alegria e lembranças eternas. 
Parece que o mar entende o que digo, pois na minha volta canta sua canção de beira mar, quebrando ondas na areia da praia, como qual o vento fez lá na Duna. 
Problema pela frente; não consegui arrumar o pneu da Monareta.
Até mais, Ribanceira!

Com 45 anos dedicados a criação de histórias e a produção de livros, Dario Cabral da Silva Neto, de 60 anos escreve poesias e se dedica ao desenvolvimento de romances. Dos 20 títulos já escritos, oito foram publicados.

Entre 1973 e 2000, Dario era, exclusivamente, poeta, mas em 2000, decidiu se transformar em romancista. Entre as surpreendentes obras, que são vendidas por R$ 30, estão os clássicos Catador de Sonhos, Uma Questão de Amor, A Ravina, Pétalas de Amor, O Segredo de Melissa e a Caminhada do Zé Mundão.

Os livros escritos por Dario não tem um foco religioso, mas trazem mensagens espiritualizadas. 

Para adquirir as obras de Dario basta realizar contato com o escritor pelo Messenger do Facebook (in box) ou pelo telefone (48) 999378198. 


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