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"Recomeço": Confira o conto de ano novo do escritor imbitubense Dario Cabral da Silva Neto

# por Dario Cabral Neto 26-12-2018 há 3 semanas 1067

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Recomeço

Ato 1

Há momentos em que precisamos parar, quando os pensamentos começam a cobrar do corpo mais que o corpo tem para dar. Olhar adiante já não é a visão da porta ou a prancha que nos faz flutuar, buscando proteção no vazio que se forma em torno de nós, pois nada é por acaso, tudo tem um por quê. 

A porta se abre, rangendo feito um animal ferido, a luz que entra é uma mistura de luz e poeira, daria para tocar de tão densa. A sombra delineava a silhueta disforme de um ser humano.  Um olhar para dentro mostra uma casa desarrumada, suja, escura e sem vida.

Perguntar como se chegou aqui, foi à única voz que se ouviu, voz muda na redundância, sem som. Alberto joga sua visão para o chão, onde a luz faz caminho. 

Duas latas de cerveja recebem e devolvem a luz que tanto falta neste lar.  Uma força estranha congela o tempo, a mão solta a porta, o corpo não obedece aos desejos e a mente torturada no limite liberta as imagens que contam esta história.

Uma vez alguém falou que Dezembro é o mês da balança, ponderamos o que fizemos, ou não, durante o ano, quantificamos a fortuna adquirida e ou perdida. É o mês do pensar. Não foi diferente para Alberto que no alto dos seus 50 anos, uma estrada longa percorrida, aventuras e desventuras poderiam ser descritas, mas estamos sugerindo este ano.

As promessas feitas em janeiro foram sopradas para longe com o vento do desânimo e os outros meses em cada início fizeram-se par com janeiro. Na metade do ano, as janelas receberam travas, vidros depósito de sujeira e pó não permitiam à luz o seu ato de boas vindas. 

Sem emprego, sem família, poucos amigos, compõem o resto do perfil. Alberto olha a luz que agora entra, melhor, invade seu casulo escuro.  Dezembro está no final, o Natal passou na escuridão do medo, no silêncio que gritava em seu peito, passou...

- Não aguento mais isto. Falou para a luz e para o pó que flutuava liberto do covil.

Arfou o ar que entrava, percebeu que o peito doía neste ato. Ar puro era veneno. Arfou mais fortemente o ar, mais e mais até que tossiu. Não eram lágrimas que escorriam pela face e sim esforço do espasmo da tosse. As costas da mão serviram de lenço, duas, três vezes, até que a pele sentiu a aspereza do pó e sujeira contra si.

A porta permaneceu aberta, Alberto segue seu caminho pelo corredor estreito, uma ou outra porcaria deixada pelo chão era chutada ou amassada, na sala que outrora havia vida em lembranças nos quadros pendurados hoje espectros prisioneiros nestes quadriláteros sem lembranças, deixa o corpo cair na poltrona, sobe uma nuvem de poeira, parece comprovação da física; dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no tempo e no espaço. Saí o pó senta-se Alberto. 

Uma fresta na janela permitia um ponto de luz, que naquele momento e naquele ângulo, iluminasse sua face.  Uma vontade de mais luz nasceu em Alberto, foi até a janela e abrindo a cortina pesada deu chance à luz o seu entrar.

Parecia que Alerto estada no cimo de um monte olhando a sua volta todos os relevos que compõe sua morada, sua visão encontra a porta do quarto de banho, na 'sobrevisão' uma cascata desce a montanha.  Passos indecisos, porém, impelidos por uma vontade maior, são dados, um cheiro de azedo e urina afetam sua narina, Alberto torce o nariz, num espasmo de vontade louca tira as roupas e entra no box, abre ao máximo a válvula dando a água toda a liberdade e desta ao banho  demorado entre arrepios e gemidos, reclamações; toma seus banho.

A toalha seca neste ato desesperado e não mais serve ao seu propósito, meio úmido vai até seu quarto, puxa a gaveta da cômoda, retira roupas de baixo, no guarda roupas uma calça limpa, a última, de três que ainda tem; uma camiseta azul marinho. Vestido busca o espelho desfocado, penteia os cabelos em desalinho, liberta um sorriso ainda vivo.
A mesma porta que permitiu a entrada da luz, agora se abre para Alberto que toma rumo incerto, um caminho ditado pelo coração enchendo-se de luz.


Ato 2

Bruna com seus 46 esmera-se na lida de casa, um pilha de roupas para passar, seria sua sobremesa, após as louças, depois dos vidros, seguradamente a grama e o jardim viriam primeiro.  Olhar os vidros limpos e sem manchas dava alento a sua necessidade de imagem refletida, prendia-se nesta caixa de esmero para não enfrentar o que depois do quintal lhe era prometido. 

Devemos também dizer que este ano não foi um bom ano para Bruna, acontecimentos alheios a sua vontade foram ocupando espaço e um murinho de pequenos tijolos foi construído, aprisionando seu coração. Os sentimentos de afeto eram seu carma, apaixonara-se por um rapaz e não dera certo, outros vieram e se foram da mesma maneira. 
Ocupar-se seria o remédio, pensava e neste não querer pensar o ano se fora, uma ou outra amiga vinha e convidava para sair, sempre uma desculpa, desculpas que se tornavam amarras cada vez mais apertadas.

Nesta manhã Bruna acordou diferente, levantou e logo foi ao banho, arrumada e perfumada, sorveu seu café com bolachas com recheio de marmelada, separa algumas verduras e busca algo diferente para seu almoço. No espaço de tempo entre acordar e preparar o almoço, Bruna ainda num ato de coragem e saudade liga seu computador...

- Há quanto tempo não conversamos meu amigo? Fala para o aparelho, permitindo um fio de sorriso.

Busca músicas que não costuma ouvir, Cantos Gregorianos em três atos, as vozes ecoam pela casa da mesma forma que na nave da igreja, volitam pensamentos novos. Fazer o almoço depois daria a sim mesma um espaço de sono num cochilo salutar pós-almoço.  

Quatro horas bate uma vontade de sair, sente a chave torcer e descobrir o segredo que prende a si. Olha os dois lados da rua, busca um caminho conhecido, a praia, caminhar seria bom e o é.

A orla se estende aceitando passos, vozes e risos, aceitando regatos que se entregam ao abraço do mar, aceitando dunas que o vento lhe presenteia, aceitando vida nas ondas que se espraiam num véu de espuma. 

Cada passo de Bruna é um para mais longe da sua gaiola dourada. O vento fresco dança e brinca com seus cabelos, leva seu perfume adiante como quem abrindo caminho entre outros perfumes.  Vem onda lamber seus pés, leva onda passos desmarcados na areia.

Seria o oposto de tudo se o ano não tivesse sido tão ruim, lembra num quê de tristeza. Corre os dedos pelo cabelo que tapam seus olhos, liberta um sorriso de nuvem, Bruna sente que alguma coisa a impele no caminho, neste sentir tudo tão distinto dos sentimentos na sua dourada casa. 

No céu nuvens desenham doces ursinhos, sorrir ao imaginar-se buscando estes efeitos nas nuvens, sorri olhando o mar que se permite encher e vazar, redesenhando orla, refazendo dunas.

E neste caminhar de coisas novas deixa seus passos guiarem seu corpo e mente, segue destino, alheia ao muitas vezes pedira. Alegria.


Ato 3

Dizem ser a reta a menor distância entre dois pontos, embora toda reta é feita de pontos. Assim, de um lado Alberto se dá ao caminho seguindo uma vontade mais forte que a sua vontade, do outro, Bruna no mesmo caminhar, cada qual com sua capacidade de ver e sentir, dualidade distinta tão necessária à vida. 

Os passos de ambos são desenhos na areia, Alberto descalço, calça dobrada até as canelas, Bruna deixando banhar os pés em ondas lascivas. 

Nem um e nem outro percebem o quanto já liberto foram, não percebem que o ruim é muitas vezes o não permitir-se seguir adiante, é o ato de covardia passiva, insensível que poda direito de luta, de guerra, de confronto.   

A distância entre ambos diminui a cada passo, espaço quântico entre dois pontos é a dobra do sentimento.  Vai um de encontro ao outro, outro de encontro com um. 

Mais e mais a distância é consumida, dois pontos distintos, dois seres nos extremos, mais perto, mais e mais.
Como contagem regressiva, a vida conta segundos, os olhos já se veem, mas não se reconhecem, os corpos já são percebidos, mas não se sentem, os perfumes se misturam, o vento cala sua voz, o mar silencia suas ondas, o sol dispersa nuvens, os olhares se cruzam... Uma vontade de dizer oi! Uma vontade de responder: olá!

Os passos param, os corações se aceleram, os olhos se procuram...

- Oi! Brota de Alberto na simplicidade infantil do amor.
- Ola! Responde Bruna na meiguice de menina.

E foram tantas as palavras, que um seguiu com o outro a distância de um e de outro, foram tantas as vezes que se deu em passos, que as mudanças vieram céleres, Alberto livrara-se da escuridão no lar, limpou, pintou, lavou, floriu, buscou imagens novas nos quadros tantos, reformou guarda roupas, do pouco das reservas fez tudo à vida voltar, uma vontade de trabalhar de ser útil... 

Bruna via sua casa de maneira diferente, estava limpa, sempre fora assim, mas desta vez havia um brilho no olhar, uma busca de ar, de perfume, saia mais, caminhava mais, vivia mais...

Dezembro se dá para janeiro, entre os fogos de artifício, um casal de mãos dadas, olha o céu, trocam juras de amor, prometem novas promessas, abraçam-se com mais carinho. 

Não é o que passamos durante o ano que dita destino, é a vontade de lutar dentro de nós que dita caminho, momentos bons e ruins são o tempero da vida e motivo de aprendizado. 
Não há dor que um dia não tenha conhecido a alegria e nem tristeza que não tenha nascido no desencontro da harmonia. Somos dualidade, somos feitos de dois pares, assim somos filhos e pais, amigos e irmãos, conhecidos e amados.
Sempre haverá um fim e um recomeço, fim neste caso; de um ano cheio de provações, recomeço na boa aventurança do sentimento amor. 
Que haja recomeço neste ano que desponta no horizonte, que encontremo-nos de mãos dadas sob a luz dos fogos de artifício, ou sobre o olhar compartilhado e até mesmo, quem sabe, num encontro de eterno amor.
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