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Uma Coluna Qualquer: escritor imbitubense Dario Cabral Neto descreve Sobre Sons e Sombras do Morro do Maquiné Artigos

Uma Coluna Qualquer: escritor imbitubense Dario Cabral Neto descreve Sobre Sons e Sombras do Morro do Maquiné

# por Dario Cabral Neto 19-11-2018 há 3 semanas 873

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Sobre Sons e Sombras

Percorrer Imbituba com as mais variadas formas de transportes é um prazer que marca, deixa impressões e saudade, tanto para quem é de fora como para um nativo. Sair e sentir o que há nas trilhas, bairros, praias, morros com suas cachoeiras, lagoas e prados é um descobrir vida, sons e sombras.

Volta e meia saio sem destino, retiro espiritual ou apenas queimar calorias, no entanto, sempre com o olhar atento gravando imagens mágicas que me permitem escrever sobre esta terra que tanto amo.

Escolho uma trilha, mochila nas costas, cajado, chapéu e pé na estrada. A princípio asfalto, calçamento em pedras, olhar as casas que o tempo desbota tintas, noutras o zelo do gostar de jardins, nas flores tão bem cuidadas. Passo firme neste início de caminhada, o calor não incomoda, um sorriso de quem diz a si mesmo vai ser complicado, caminho longo dando a volta no Morro do Mirim.

São trechos de estrada antiga, esquecidas pelo novo traçado da BR-101, vilas sob as sombras das árvores do morro na sua base, casas coloridas, roseiras cobrindo muros na sua vontade de mostrarem-se, coqueiros centenários conversando com o vento, pássaros e sons de canto, canto que encantam, amenizam os passos dados, diminuem a caminhada neste embalo do ir e observar.

Cada curva deixa um quê de mistério, ar bucólico do interior, sítios e pequenas lavouras sobem a encosta do morro.  Há um silêncio neste interior, uma força viva que acompanha nesta trilha, quem sabe meus passos são de passado ou de um presente que pede a reflexão.


As pedras que escondem segredos dos tempos idos, para alguns uma riqueza escondida num tonel de ouro, para outros a forma singular de um marco no caminho. 

Caminhos ora cobertos por sombras, ora por sons dos cantos dos pássaros, e para aqueles que podem ver além, sons das vozes do tempo. Concentro minha atenção na estrada e retiro todas as casas; estreito o caminho para uma trilha serpenteando o morro, o verde batendo no meu ombro, uma fonte que ressoa entre pedra e mata. Cascata num risco de água, que guarda história...

A figueira exuberante se transforma em poleiro de orquídeas, bromélias, ninhos, frutos que saciam a fome dos pássaros, sombra para os que passam. 

O vento encana neste corredor aliviando o calor, são tantas as imagens que não é possível olhar apenas adiante e adiante o caminho se abre para a BR –101, o primeiro trecho vencido, o acostamento revela o tapete negro, depois da subida outra entrada para a trilha.

Novas casas, outras antigas, a igreja construída no esforço da fé, o túnel para segurança do ir e vir àqueles que se fazem presente nos dois lados da BR, mas eu sigo a estradinha de barro, barranco revelando sedimento do tempo nas pedras encravadas no barro duro.  Tão perto e tão diferente um trecho do outro, neste ouve-se algum barulho de roçadeira, um cão ladra, quem sabe me considera carteiro, alguns jardins precisando de manutenção, outros vivos e floridos se dão ao olhar de quem passa.

Muros altos guardando o tão suado motivo de propriedade, um beco indo para o morro, esconde o real caminho da labuta, a lavoura, os pomares, a água represada numa caixa coletiva, espaços e mais espaços sem graça, banhados fazendo um ou outro gado atolar às canelas, vejo-me observado por um deles, olha e mastiga, mastiga e olha paciente da fome e da grama alta.

.Garças e noivinhas fazem manobra e pousam nas valas, a liberdade do comer quando se tem fome, enfeitando de branco o verde ralo e queimado das sobras de outro verde mais profundo, a mão do homem é solvente e ao mesmo tempo tinta nesta caminhada solo, sem se estar só.

Meu peito arde um pouco numa gota de saudade, desejos não saciados, sons que se libertam nesta atmosfera bucólica dos passos no barro batido. 

Qualquer dia investigo o porquê deste som de violino cigano me acompanhando sempre, arco serrando as cordas em harmonia e disparando o choro na música tão profunda. Mas isto é meu sentir, creio; olhar adiante e além das casas me pergunto; o que busco?

O morro vem de encontro com a estrada, o verde empoeirado pede a chuva, pena penso da minha má sorte, ver o verde lavado seria ótimo para meu espírito. Uma casa com suas janelas abertas, deixando escapar um cheirinho de comida bem feita, sorte dos que estão por vir saciar-se nesta casa. 
Neste trecho da caminhada, metade do caminho foi feito, não a metade da distância esta ainda falta muito, dos três trechos, dois concluídos. Tudo é perto, morro e lagoa se namoram o tempo todo, um vento adoça as copas das árvores num carinho diferente do de lá de onde moro. Tem um ar úmido sombreado de morro, tem o calor no caminho aberto, tem o frescor nos corredores de vento. 

Sento-me à sombra que se dá plena ao meu cansaço, a água é bem vinda, observo minha caminhada como busca e não como caminho a ser transposto. Busco a harmonia sempre, busco o conhecimento perdido no tempo, busco as vozes do passado no mesmo caminho tantas vezes singrado nas idas e vindas entre as vilas de outrora. 
Uma parada boa, levantar foi com custo, é... A idade chega, os joelhos reclamam, mas seguir é preciso, absorver o que se tem que absorver.  

Nesta última etapa a mais longa, é uma mistura de terrenos, arenoso, de morro, de plano alagado. Casas esparsas em grandes propriedades, outras nem tanto, acho que é a mais recente na ocupação humana. 

Um pasto à minha esquerda revela um riacho, seria este o riacho que leva o nome de um padre, não lembro o nome. num espaço rompido na cerca, enveredo-me até o riacho, nada mais que uma vala, areão grosso, bem que podia encontrar alguma pedra diferente, seria eu hoje perguntando ou meu eu passado de bateia sentindo saudade?

Cardumes de piabas, delícias das garças, o resto tudo sem graça, pasto apenas, vazio de gado, vazio de casa, vazio apenas. Volto para a estrada e sigo neste resto de caminho já tão cheio de imagens. Como ficam estranhos os eucaliptos altos e majestosos afrontando o morro na sua cobertura rala! Seria vergonha desta mácula, que o caminho se afasta da encosta? A vila seguinte se mostra cheia de vida, sons e sombras se espalham, cheiro de combustível, cheiro de vida, areia sobre a estrada, aqui e ali alguma harmonia, na desarmonia do caminho. 

Mesmo assim bela desarmonia, bela concentração de vida, finda a senda no olhar adiante de mais asfalto, mais concreto, paro e olho para trás e sinto que o vento se despede acenando nas copas das árvores. Os sons das galhadas emitindo vozes, o serpentear do caminho é um alento, um abraço dado neste tempo de passos. O suor é vertente em mim, espero um pouco, quero aprisionar em mim todas as imagens deste caminhar, meu eu se deixa calar e o eu olho com saudade toda saudade que deixei neste processo. 

Passado e presente sempre estão colados. O moderno se adianta na velocidade dos carros e caminhões lá no asfalto, e aqui os passos na morosidade do passado. em relutar crescer. Arfo o ar um pouco mais na esperança das forças voltarem. Mais alguns passos, chego enfim, ergo meu braço num aceno de socorro (risos)! Que sorte a minha, pára um circular, entro e a janela passa a ser um filme mostrado em quadro a quadro. 

Voltar é reconfortante, é singular quando se caminha buscando este elo entre presente e passado. Um sorriso se abre; é uma pena, as imagens são singulares e particulares, mas quem sabe alguma se deu conta e se quer mostrar.
Até outro dia Mirim, até outro dia, Maquiné.

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