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Uma coluna qualquer: A pesca de miraguaia na Barra da Ibiraquera Artigos

Uma coluna qualquer: A pesca de miraguaia na Barra da Ibiraquera

# por Dario Cabral Neto 30-09-2018 há 2 semanas 480

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Todos os personagens aqui descritos são imaginados. Qualquer semelhança com pessoas residentes no bairro é mera coincidência, embora a história seja verdadeira. 

Conhecemos a Lagoa e Barra da Ibiraquera, conhecemos seu desenho, suas praias, seus sacos, riachos que a alimentam.  Conhecemos muitas histórias dos seus moradores, nativos pescadores, donos de engenhos, isso nos tempos idos.

Nossa história se passa neste tempo já perdido, já esquecido, que nem moldura possui, senão em algumas saudades que se libertam no pôr de sol, ou nas manhãs cujas madrugadas foram alentos para as lágrimas que alimentavam a lagoa.

Correr os olhos no espelho d’água, sem um grama de vento, onde canoas pintadas em telas mostram-se em duas linhas, verso e anverso, côncavo e convexo. Os mergulhões pontilhando este espelho com o negro das suas cabeças, no alçar voo desenham linhas pontilhadas com suas asas. Até mesmo os calões abandonados são marcos harmoniosos neste espelho d’água.

Caminhar nas noites com uma lamparina, facho ou lanterna, buscando o siri-mole, camarões e alguns peixes. Era e é diversão certa, ontem e hoje.

Os namoros regados por estas imagens, nascer e pôr do sol, ver-se espelhado nestas águas, as juras de amor e os versos compostos olhando-se nos olhos. Sob as sombras dos bambuzais que pontilham águas, ou a grama que se estende como tapete nas tantas praias de lagoa, toalhas esticadas, corpos deitados nos infinitos piqueniques, os sorrisos e choros dos tantos filhos nascidos sobre estas paisagens.

Figuras de imagens como bordas emolduradas pelo capricho Divino, o canteiro de limo pós-canal da ponte, celeiro de carapicús, escrivães ou gordinhos, peixes dali.

Foi numa destas visitas à Lagoa que ouvi esta história, lembro-me da canoa riscando água, do barulho do remo na tração, do movimento perigoso do vai e vem da borda, das cores tão vivas, cobrindo a madeira esmeramente escavada com mãos de artesões nativos.

Foto: Chico Ferreira/Flickr

A lata com caçacas (filhotes de camarão) pescados com peneiras nas bordas da lagoa, agora corria para frente e para trás na pouca água do fundo da canoa, os caniços curtos,  as garrafas com água, chapéu de palha, e toda vontade do mundo expressa no sorriso de guri. Pescar os peixinhos descritos acima.

Entre as paradas e tentativas da pesca, a história nasceu.

Orlando, pescador nativo, já de idade boa, patrão de canoa, chapelão de palha, camisa de botão, calça com pernas dobradas até os joelhos, ar sério de quem conhecia aquelas águas como a palma da sua mão. Mandava força tênue nos braços e o remo rasgava água, desenhava linhas carregadas de vida e histórias.

A parada na margem do canal, quilha arrastando no limo, ficando a falha deste para que pudéssemos pescar.  Caniços prontos, carçacas escorregadias colocadas no anzol mosquitinho, o silêncio crescendo na espera da fisgada. De repente...


- Já contei para vocês como se pescava miragaia grande nestas águas? Corta o silêncio numa voz rouca, o patrão Orlando.
- Não mais que dez vezes, respondi malcriado e sabendo que o remo viria nas minhas costas com um bocado de água fria, acrescido com a palavra bem frisada... Palhaço!

Gargalhadas a parte o olhar sério volta a ver do passado, como um livro aberto, mostrando imagens e texto.  Orlando começa sua ladainha.

- Eu era moleque que nem tu, Bininha; (não lembrou meu nome e fez a referência ao meu pai Bina) seguia os passos do meu falecido avô Dodó, na pesca do camarão, da tainha, e da miraguaia, Meu vô Dodó conhecia estas bandas por cima e até por baixo, cada vala, borda de pedra, coroas, tudo, tudo.

Um dia ele passou na casa do meu pai, genro dele, Antônio, convidando para pescar miraguaia, tava sentindo a sorte coçar suas entranhas, a noite de lua cheia ajudava na visão, na escola do ponto, tudo fascinava minha imaginação, na pergunta muda; que é miraguaia?

Na afirmação do meu pai minhas súplicas se fazendo em manha, o olhar dele para minha mãe como quem pergunta se é hora d’eu aprender, o pingo de tristeza no brilho do olhar dela como resposta, ele se vira pra mim falando da maneira dele – se tu fizeres merda, te lanho o lombo com a fieira.

E agora para passar o dia, ansiedade a flor da pele, sai com minha mãe para a venda e todo o caminho ouvindo sermão, conselho, cuidados devidos, que quando voltamos fui direto para a lagoa mergulhar a cabeça na água fria. (ria-se de si mesmo Orlando). Hoje sinto tanta falta deles, mas deixa a vida curar suas feridas.

Café da tarde com farofa de banana, o mistura boa Bininha, até sinto o gostinho doce da “mardita” banana figo de quatro quinas, o leite da mimosa, gordo e saboroso, para arrematar; um punhado de cuscuz. 

- Tudo bem e a pescaria, pergunto.
- Calma sou eu quem tá contando a história, então não te mete e nem me atrapalha as ideias. Olha que te taco o remo.

Seis horas e nada do vô aparecer, fui perguntar para meu pai lá no curral, nos fundos da casa, ele riu e falou que só sairíamos lá pelas dez da noite e que era bom eu me banhar e dormir um pouco.

Que dormir que nada, revirava nas cobertas, olhava pras estrelas que começavam a pontilhar o céu, uma riscava e eu pedia, outra piscava e eu pedia, cochilava, acordava, uma lástima de sono, e se sonhava vinha aquele bicho estranho querendo me pegar.

Quando das dez da noite, meu pai chamou, eu reclamei, tinha acabado de dormir mais pelo cansaço do que pela vontade, ele riu e puxou a coberta, acordo e salto da cama, procuro as chinelas, lavo a cara na bacia do tripé de madeira, olho a mesa posta café e farofa de banana, avanço faminto na gula dos olhos para a banana, maior que a própria vontade.

Pego o casaco grosso, e a bolsa com as garrafas com café, a lata de farofa. Coloco no ombro e grito para meu pai – To pronto!

Dodó, meu avô, solta uma gargalhada, não é meu neto, é meu neto macaco, vai gostar de farofa de banana figo lá pra banda da barra.  Sua mão passava na minha cabeça espalhando meu cabelo já tão despenteado.

Descemos a colina sentindo o orvalho nos pés, a lua brilhava em dois pontos; na lagoa e no céu, era tudo prateado, liso como vidro, a canoa calada esperando remo, querendo água. Meu pai confere tudo, cordame de tucum torcido e forte, os anzóis extras, o chumbo, as iscas, as boias, a cambuca para extrair água da canoa, a lata grande onde coloquei a comida, tudo pronto. Embarco primeiro, vou para proa, depois meu pai no meio bordo, por fim meu vô no patrão de proa, a canoa começa a riscar o espelho de prata, nossas imagens refletidas na água sob a luz da lua, era um tremer desfocado no balanço.

Uma meia hora de remo, passado a curva grande, chegamos ao canal fundo, meu vô Dodó pediu silêncio, deixou a canoa parar com a ajuda do remo de revés, espera observando tudo em volta da canoa, movimento de água, indicando peixes, uma ondulação qualquer, nada, de repente meu vô retira o remo da água e coloca sua ponta no fundo da canoa e o outro extremo no ouvido, nada, repete a operação só que agora com o remo na água, um sorriso largo aflora, ele retira o remo com cuidado, aponta para baixo com o dedo.

Meu olhar incrédulo pergunta o que tinha acontecido, meu pai coloca o dedo na boca pedindo silêncio, me calo, claro.

A isca colocada no anzol e depois na água deixando a fieira deslizar para o fundo do canal lentamente. Chega à marcação da boia que também vai para a água, ficando apenas o suficiente de fieira para dar a fisgada, o tempo para.

Peixe Miraguaia

A espera é chata e ao mesmo tempo intensa, meu pai sente que tocaram no anzol, fica atento, vejo a musculatura da sua face rija, o olhar na água, e seu braço é puxado para baixo, me assusto, ele reage e puxa com toda a força sente o bicho preso, olha para meu vô e larga a fieira, deixando a boia livre.

Meu vô solta um grito libertando a adrenalina, segue meu pai e eu me assusto; cagão que era, nada entendia, só olhava a boia seguir ligeira na plenitude daquele espelho d’água, banhada pela luz da lua.

Atrevo-me a perguntar por que meu vô colocou o remo no ouvido.

- Para ouvir o ronco da miraguaia, desta maneira se sabe que ela esta debaixo da canoa lá no fundo do canal.  Assim evita de se colocar a isca longe e demorar a noite toda para se pescar e até nada acontecer.

A boia seguia e nós seguíamos no seu encalço, como a quantidade de fieira era boa, a boia não afundava, permitindo ao peixe a sua corrida, quando parava meu pai a catava com o bucheiro e sentia se o peixe ainda estava preso, outra corria desta vez a boia era a canoa, sentir a corrida do peixe rebocando a canoa era mágico.

Trocamos de lugar meu pai e eu, assim a proa ficava livre e ele fazendo força querendo cansar o peixe, em dado momento a canoa foi diminuindo a velocidade, meu vô controlando a direção com o remo de patrão, meu pai puxando fieira, uma, duas e três braças, sentia que a miraguaia queria um pouco mais de corrida largava as mesmas braças de fieira até que a boia voltasse para a água.

Nova perseguição, onde a paciência é testada, nova parada e enfim mais braças de fieira recolhida, e a sombra enorme de um bicho, na minha visão de guri, se fez mostrar.

Meu avô avalia o peso e o risco de emborcar a canoa, vai com cuidado levando rumo à coroa, até que sente a quilha arrastar na areia para só então meu pai saltar arrastando a miraguaia com seus quarenta quilos de corpo.

Peixe colocado na canoa com o esforço deles e do meu só os olhos esbagulhados, era grande, entre risadas e suor, aprumou a canoa para a margem de casa, meu avô deu no remo lentamente, era só apreciação da paisagem naquele amanhecer avermelhado refletido nas águas da Ibiraquera, moldura de sonhos e de histórias, bordados de bambuzais e amores nos gramados, nos piqueniques, nas luzes que iam se apagando nas casas de beira e as garças com seu voou matinal enfeitando praia na cata do café da manhã.

Com este olhar de magia cato a bolsa e dela a lata seguro a colher que afunda na farofa, embucha, mas um gole de café morno ameniza a descida.

Ecoa duas gargalhadas nas águas da Lagoa, meu avô e pai olhando minha cara, ora de fome ora de medo daquele peixão na proa.

- Cada vez que o senhor conta esta história nós não pescamos nadinha, esqueci-me de colocar a isca no anzol.

Orlando joga água com o remo em mim.  Como fazia seu avô nele.

Coloco o caniço na água e a ponta no ouvido, não ouço nada, olho para Orlando e só vejo seu sorriso estampado. 

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