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Coluna do professor Viegas: Artigos

Coluna do professor Viegas: "Lula no Largo da Catedral de Florianópolis: deu praia, mas os guarda-sóis estavam na praça"

# por Viegas Fernandes da Costa 26-03-2018 há 3 semanas 695

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Prelúdio: tensão na estática e festa no Largo

A primeira sensação, quando cheguei ao Largo da Catedral em Florianópolis para assistir ao ato público em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, foi a tensão que parecia se espalhar na estática. O relógio indicava 10 horas da manhã de sábado e já havia algo em torno de mil pessoas concentradas na frente do palanque. Policiais militares e da tropa de choque se concentravam junto à Praça XV, isolando um pequeno grupo de manifestantes, alguns vestindo a camiseta do candidato Bolsonaro, outros blusas pretas ou com as cores da seleção brasileira de futebol. Um helicóptero da polícia militar dava rasantes sobre a concentração e, passados alguns minutos, chegaram soldados montando cavalos e outros conduzindo cães. 

Corria a informação de que manifestantes contrários à presença de Lula na capital catarinense estavam concentrados na Beira Mar Norte, região da cidade que concentra os apartamentos da classe média alta florianopolitana, e que estas pessoas estariam saindo rumo ao Largo da Catedral. Nas ruas e vielas que davam acesso ao local do ato em favor de Lula, pessoas vestidas de vermelho ou que carregavam bandeiras e símbolos do Partido dos Trabalhadores e outros movimentos de esquerda eram hostilizados. Ouvi relatos de amigos e amigas que festejavam o fato de terem conseguido chegar ao largo depois de atravessarem pequenos grupos de homens vestidos de preto que os xingaram e ameaçaram. 

Apesar das tentativas de intimidação o público diante do palco foi crescendo, tomando as escadas da catedral, as ruas e a praça XV, como um líquido que se espalha sobre uma superfície. No céu, as nuvens foram cedendo espaço ao Sol, e o calor aumentava, fazendo a praça ferver. Não demorou para que um drone carregando um pequeno boneco de Lula vestido como presidiário começasse a sobrevoar a multidão e que um homem sobre a cobertura do Banco do Brasil começasse a jogar objetos sobre as pessoas reunidas no ato. Ao longe, ouvíamos os apitos dos apoiadores de Bolsonaro, e nas imediações do Palácio Cruz Sousa manifestantes anti-Lula jogavam frutas podres e garrafas de água contra as pessoas que se concentravam para o ato, atingindo inclusive jornalistas que cobriam o evento. Ficava claro para todos quem ali estava incitando a violência.

Tudo indicava que se trataria de dia difícil, quiçá com confrontos, principalmente depois dos acontecimentos envolvendo a caravana de Lula no Rio Grande do Sul, onde latifundiários obstruíram rodovias com tratores e ignorantes autoritários violentaram militantes de esquerda, havendo quem fizesse uso do chicote para açoitar a democracia e o direito à cidadania. Mas aos poucos a mobilização foi acontecendo e os manifestantes que tentavam provocar as pessoas que participavam do ato no Largo da Catedral foram isolados pelos policiais e empurrados para longe. Embora barulhentos e exaltados, estes manifestantes vestidos uns com camisetas pretas, outros com o uniforme da seleção brasileira e alguns com a cara do Bolsonaro estampada no algodão ordinário, eram poucos e estavam desarticulados. Estavam ali não para defender uma causa, mas apenas para tentar promover tumulto, o que demonstra a índole das bandeiras que desfraldam. 

Já no Largo da Catedral, a cor vermelha tingia a paisagem. Apesar da hora que avançava (Lula estava na Assembleia Legislativa recebendo o título de cidadão catarinense) e do calor esturricante, o número de manifestantes aumentava e já era de milhares. Homens, mulheres, crianças, pessoas idosas! Ao meu lado, uma mãe amamentava o filho de colo. Adiante, a menina pulava sobre os ombros do pai. No palco, entre uma e outra fala de militantes e políticos (destaque aqui para a manifestação de apoio ao direito de Lula se candidatar à presidência da República feita por um dirigente local do Partido da Causa Operária), apresentações musicais, a presença do Movimento Negro Unificado, antigos jingles de campanha e a lembrança da execução da vereadora carioca Marielle (PSOL). 

O concerto: promessas e caminhos.

Quando Lula subiu ao palco já eram quase 14 horas. O calor se fazia imenso, a praça fervilhava e muitos que trocaram a praia pela praça protegiam-se sob guarda-sóis. Vi pessoas chorando de emoção, outras transbordando felicidade. Após o ato de filiação do desembargador aposentado Lédio Rosa de Andrade ao PT (possível candidato do partido ao governo de Santa Catarina) e dos pronunciamentos de lideranças partidárias, dentre estas Fernando Haddad, provável candidato à presidência da República caso se confirme a inelegibilidade de Lula, o ex-Presidente iniciou seu discurso, carregado de referências a sua biografia, reafirmando sua inocência diante das acusações que a Justiça lhe imputa e apresentando propostas de governo, ponto alto do discurso.

Em sua fala de meia hora, Lula prometeu que se eleito federalizará o Ensino Médio e isentará do pagamento do Imposto de Renda as pessoas com rendimentos de até cinco salários, taxando as grandes fortunas. Comprometeu-se em restabelecer o protagonismo internacional do Brasil, privilegiando as relações com os países africanos e sulamericanos, e com a demarcação de terras indígenas e quilombolas. Reafirmou ainda os princípios do respeito à diversidade, a defesa à educação, à profissionalização e ao trabalho e a emancipação das mulheres por meio do acesso ao trabalho e à renda. Afirmou ainda a revogação de medidas assumidas pelo Governo Temer.

Ao final, a dispersão foi tranquila. Ainda havia alguns manifestantes anti-Lula pelas imediações da praça, e eu mesmo com minha esposa fomos hostilizados por um grupo de três senhoras vestidas de amarelo (minha esposa e eu vestíamos camisetas vermelhas sem qualquer símbolo que indicasse filiação ao PT ou outro movimento de esquerda). Mas seguimos nosso caminho em busca de almoço. Foi um sábado bonito em Desterro, de esperança. Independente das simpatias ou antipatias nutridas em relação a Lula, fica a impressão de que a população começa a se mobilizar em torno de bandeiras e movimentos que rompam com a lógica de governo imposta pelas elites econômicas no Brasil e que o conservadorismo que se autointitula de extrema direita, embora barulhento e violento, é minoritário no país.

Manifestantes anti-Lula  Foto: Luca Gebara/Jornal Desacato
Manifestantes anti-Lula Foto: Luca Gebara/Jornal Desacato


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