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Uma coluna qualquer
Dario Cabral Neto


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De todos os textos que escrevi, este foi com certeza o mais estranho. Estranho porque o medo ainda cala as pessoas, fragmentando o que presenciaram. O tempo só deixa a imagem principal, apaga os fatos periféricos e assim a investigação tomou-me mais tempo. Um bom número dos frequentadores da Chalana, uma boate à beira mar no bairro Vila Nova, ponto de encontro da juventude mais simples, sem muito recurso. Para lá iam se divertir, eram os anos setenta. 2237

Nisso, do nada, uma bola do tamanho da de basquete aparece, do nada, repito, com um brilho entre o verde e o azul. Aparece ali na Ilha de Terra, lado oeste, ou seja, bem na nossa cara. Aqueles dois que puxavam fumo, falaram em uma só voz: "Ô, fuminho bom!" Os demais olharam diretamente para mim, como se eu fosse o responsável. Devolvi o olhar e acrescentei aquele movimento de ombro, dizendo que nada tinha com isso. A bola de fogo azul esverdeada fazia um movimento em arco. Como se amarrada em um pêndulo, ia e voltava, lembrando o movimento daquelas barcas de parque de diversão. 869

Fazia algum tempo que não via Seu Vadinho, pois ele falecera. As noites ficaram sem fogueira e sem histórias, sem os medos, sem os amigos que sumiram nas ondas. O Canto perdera seu encanto... Um pouco surpreso, mas sem medo, surpreso por saber-me capaz de sentir que a vida não acaba com a morte. Chorei minhas lágrimas, O cheiro ia longe, chamando, chamando... Vi se aproximar um senhor de estatura mediana, beirando os setenta anos, veio sorrindo, veio pelo cheiro, deu boa noite, e respondi o cumprimento. Apontou para uma das pedras, fiz um sinal que sim, e ele sentou-se... 839

De repente, Gercino vê diante de si uma luz amarela esverdeada, que foi crescendo e tomando a forma de uma grande “tampa” (não vinha na mente outra palavra para descrever). Correr não podia, pois suas pernas ficaram tremendo e grudavam na areia. As ondas começaram a recuar e fazer um barulho estranho. Uma luminosidade amarelada tomou conta destas, que pareciam ferver. 1271

O mais velho via que um rapaz acocorado no calombo da pontinha pedia socorro sem parar. Quando o amigo deu-lhe as costas, ainda viu o rapaz se atirar e grudar-se no pescador. Sabia que não era real, sabia se tratar do espírito de daqueles desafortunados, sabia que deveria fazer alguma coisa; mas o quê? 916

Muitas versões existem desta natureza sombria, assustadora, e, por incrível possa parecer, alegre e linda. Falo da Dama de Branco que aparece nas estradas, sem mais nem menos, em algumas ruas em penumbra de madrugada e também na praia. Às vezes, arrependo-me de acender a fogueira e de convidar amigos para saborear um marimbá na brasa porque sempre aparece Seu Vadinho. 1192

Gritos de mulheres e homens em desespero, mortes bobas pelo desrespeito e pela ganância do poder dizimaram os Oliveira. Na contrapartida, nesta lei de retorno, velhice e doença cobraram seu quinhão nos Costa, ficando nas duas terras seus tesouros enterrados, servindo de mácula e maldição. Dizem que na terra lavada em sangue nada nasce, nem brota. A natureza foi cobrindo com seu manto em luto todas as casas, a caixa, que outrora servia no abastecimento, ruiu, refazendo seu curso em direção à lagoa do Mirim. Apagou o que restava de civilização naquela região. 1268

Facão numa das mãos, um pedaço de lenha como tocha na outra e segui o som. “Por que fui fazer isto, meu Deus?”. Ali no caminho, um cavalo e seu cavaleiro, uma figura horrenda, toda negra. Notei detalhes em prata no aparato da montaria, na vestimenta deste e, creiam: não tinha rosto. Um chapéu escondia a face. O cavalo ergue suas patas dianteiras e gira, mostrando o que arrastava: um caixão para defunto, em madeira tosca, pesado, a corda tramada em sisal, grossa. Fiquei paralisado, com olhos esbugalhados. Não suava, pois já tinha feito isto no primeiro segundo. 1158

Na esquina o Bar do Juvenil, a Agência Santo Anjo, ponto e rodoviária... residência do senhor hoje centenário Eduardo Elias, com seu taxi dos anos 1960... Neste trajeto tão curto, tão cheio de espaço vazio, era quase obrigatório passar pela loja do “seo Zélio”, o refeitório da Cerâmica, que já foi sede da Banda. O Bar do Julinho, com seu Senadinho, onde crônicas acaloradas aconteciam com os Políticos da Cidade... A Loja da Dona Maria Dalva, com suas peças de fazenda, clientela cativa. A cigarraria Central do Maneca Hipólito... No outro lado aparecia o prédio do Senhor Geraldo Senna... 1550

Quem somos? Perguntou o mendigo. O que estamos fazendo aqui?Perguntou o andarilho. Quem você pensa que é? Perguntou aquele que nada tem, mas que pensa que tem. Sempre haverá um pôr do sol esperando pelo nosso entardecer. Crisálidas se abrirão e lindas borboletas estarão pairando sobre flores de muitos jardins, jardins sem donos, jardins de praças cheias de bancos vazios, jardins com enamorados rolando de um lado para outro o seu skate. 782

Olhamos o banheiro com aquele olhar de dúvida, um silêncio sepulcral, outro mais profundo elevado aos céus, passos contados, um olhar furtivo ao espelho, barba por fazer, cabelo desgrenhado – é um banho vai me dar o que preciso... “Ixe”. Não tem água, “@*#@#*???////” (palavrões). Volta, coloca parcialmente uma roupa e vai à rua desfazer a manobra das válvulas. Volta, abre a do chuveiro e lá vem os pingos, parecendo ácido sulfúrico de quente. 1539

Então percebo nossa cidade, amada cidade das ondas, das dunas, dos lagos, do turismo aquático, dos bairros de pousadas, dos mirantes cuja visão é lançada ao mundo. Percebo que tudo é ilusão, que existe, sim, uma grande prostituta chamada Imbituba, onde cafetões vendem seu corpo e dele fazem negócio. Antes de colocarem-me na cruz e jogarem ovos; pensem... 1916

Faço uma pergunta... Quem de vocês já teve um amigo zombeteiro, safado, brincalhão, gozador, um M A L A? Pois é, na pequena vila de Esperança morava Malaquias, como o nome sugere; um MALA. Vivia pregando peças nos amigos, ora fazendo trote, ora buscando meios de fazer mais uma vítima. 1471

Os vidros opacos que davam aos olhares do interior que buscam no lado de fora imagens de caminho, agora tijolos tapam as janelas e portas, amparo para a saudade, olfato dos cheiros de carvão fumegando, estalos do carrinho nos trilho do túnel, levando cinzas da luz ofertada as casas de um passado tão recente. 1512

“Tudo, mas tudo que neste texto relato é a mais pura ficção, mas claro alguém vai se identificar com o texto, isto - não é culpa minha.” 1508

Verão de 1975 foi de maravilhas para todos que estavam em Imbituba. Época mágica, ondas grandes, água clara e quente atraiam turistas aos montes. Todos ganhavam, acrescento que todos os nomes aqui descritos são ou conhecidos ou fictícios. 2274

Foto de capa: No calçadão da Rua Nereu Ramos, anos 70, onde é hoje o Banco do Brasil. Residências do Sr. Osório e Tobias Tolentino (que aparece na foto com Dona Maria) 2341

Vou crescendo, voltando ao que sou hoje, mas nada consegue apagar a vila dos pescadores e outros lá da beira da praia. A visão das bicicletas com robalos e corvinas pendurados no guidão, o grito chamando à atenção, o apelido feio e o palavrão de troco. O entardecer me toma e desembrulha a saudade, o vazio do pouco que sobrou cá embaixo é o esplendor colorido das casas lá de cima. 2174

Eu não era um guri religioso. A senhora foi até a pia de água benta, molha os dedos e faz o sinal da Cruz. Faço o mesmo, mas não naquela perfeição, digamos que desenhei uma mandala entre cabeça e peito, muito longe de ser comprado ao sinal da Cruz. 2028

Quando a barragem do Rio Doce rompeu, escrevi um poema, senti e imaginei tais sofrimentos como se comigo fora. Tenho filha especial, é impossível imaginar como poderia sobreviver buscando escapar de tal catástrofe. Seríamos colhidos pela morte é certo. Agora busco nesta proposta compreender, as razões de tanta imperícia, negligência, redundante descaso com a Vida Humana e com a Natureza. 2295




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