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Uma coluna qualquer
Dario Cabral Neto


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Foto de capa: No calçadão da Rua Nereu Ramos, anos 70, onde é hoje o Banco do Brasil. Residências do Sr. Osório e Tobias Tolentino (que aparece na foto com Dona Maria) 1095

Vou crescendo, voltando ao que sou hoje, mas nada consegue apagar a vila dos pescadores e outros lá da beira da praia. A visão das bicicletas com robalos e corvinas pendurados no guidão, o grito chamando à atenção, o apelido feio e o palavrão de troco. O entardecer me toma e desembrulha a saudade, o vazio do pouco que sobrou cá embaixo é o esplendor colorido das casas lá de cima. 1523

Eu não era um guri religioso. A senhora foi até a pia de água benta, molha os dedos e faz o sinal da Cruz. Faço o mesmo, mas não naquela perfeição, digamos que desenhei uma mandala entre cabeça e peito, muito longe de ser comprado ao sinal da Cruz. 1177

Quando a barragem do Rio Doce rompeu, escrevi um poema, senti e imaginei tais sofrimentos como se comigo fora. Tenho filha especial, é impossível imaginar como poderia sobreviver buscando escapar de tal catástrofe. Seríamos colhidos pela morte é certo. Agora busco nesta proposta compreender, as razões de tanta imperícia, negligência, redundante descaso com a Vida Humana e com a Natureza. 1541

Uma paradinha no Bar “Tomei Café Agora”, estava fechado, aproveitei a sombra, apertei o nó do cordão do meu chapéu de palha, verifiquei as garrafas, reclamei do pneu traseiro murcho, sem remédio remediado está. Sigo até a parte dos fundos do terreno dos donos do bar, que são amigos de meu pai. Coloco a Monareta encostada na cerca e com a canoa de coqueiro mais o gongá. Adivinhem? Refiz os laços da minha conga, pé na trilha que ainda falta um bocado.​ 1689

Sempre que vou e lembro-me de um lugar, procuro a visão do hoje e do pretérito. Sentar à sombra de uma árvore, olhar o todo e sentir sua energia. Procuro dividir minha visita em alguns pontos: passado com sua energia, o cenário não transformado e o presente com suas características, assim consigo ter um cenário completo, se verdadeiro ou não, é ocasião ou ponto de vista, ficando para cada um a sua crítica. 1484

Maria e suas flores Amanhece o dia na pequena Vila de São Tomás, uma cor entre o azul e o cinza estampa de um céu indeciso, o ar é quente, pássaros cantam buscando pares, buscando alimento. Uma revoada de cupins anuncia a chuva tão perto. Despertar é tão custoso quando se está enfermo, a febre não baixa, a mesa ainda posta divide seus farelos com algumas formigas, a pia com a louça desfaz-se do brilho pedindo água. 1573

Dizer que era uma casa de amor; as imagens citadas o dizem por si, o cheiro doce e agradável do bolo recém-assado fugia pela janela indo de encontro daqueles que passavam na rua estreita que levava ao centro da vila. 1157

Os anos 1970 foram de aventuras, buscávamos aprendizado. Quando não era desbravar o banhado da Lagoa da Bomba, era outro lugar da cidade. Numa manhã de domingo, estávamos prontos, mas tudo começou uma semana antes, quando um dos da minha gangue (risos) veio com uma ideia louca: 1167

A porta se abre, rangendo feito um animal ferido, a luz que entra é uma mistura de luz e poeira, daria para tocar de tão densa. A sombra delineava a silhueta disforme de um ser humano. Um olhar para dentro mostra uma casa desarrumada, suja, escura e sem vida 2080

Na cozinha João conversava com sua esposa, Marina. As coisas não iam bem e nem foram durante o ano. Agora, mais ainda preocupados, buscavam um no outro o conforto e forças para os dias negros que estavam por vir. Desempregado, João não mais tinha o que receber do seguro-desemprego. Marina, fazendo unhas, não supria as necessidades. 1362

Sabe quando o bolso aperta, o carro fica na garagem, sem bicicleta e, mesmo que a tivesse, pedalar seria complicado? Tomo o circular e sigo numa proposta de venda de um dos meus livros, “A Caminhada de Zé Mundão”. Olhar pela janela é como seguir quadro a quadro um filme no qual presente e passado começam a se apresentar. A pergunta é feita ao senhor que esta ao meu lado: “o senhor sabe por que Nova Brasília? “Nem imagino”, é sua resposta. 1361

Um porto para suprir as necessidades daqueles que transformaram Imbituba de vila à cidade. Um hidroavião fazendo ponte no Portinho da Vila, coisa chique, hoje já tão esquecida nas rodas de conversas à beira da Lagoa do Mirim. O barracão com guincho; recuo de barco e avião, guardião da história, cenário em cascalho embranquecendo qual tapete o recanto dos piqueniques, namoros, pescarias fartas em noite de luar. 1486

scolho uma trilha, mochila nas costas, cajado, chapéu e pé na estrada. A princípio asfalto, calçamento em pedras, olhar as casas que o tempo desbota tintas, noutras o zelo do gostar de jardins, nas flores tão bem cuidadas. Passo firme neste início de caminhada, o calor não incomoda, um sorriso de quem diz a si mesmo vai ser complicado, caminho longo dando a volta no Morro do Mirim. 1369

Seguia o trilho em direção a Vila Nova. O cenário sempre foi mais belo e cheio de novidades, a Lagoa da Bomba, Barra do Araçá, o túnel logo adiante, uma subida forte no morro do cemitério, o pasto com seus gados ariscos, a pequena lagoa no pasto lá embaixo e, enfim, a praia; já depois da Barra do Araçá. 1517

Há muito tempo o morro de Itapirubá perdera sua capa de vegetação. O pasto nativo por baixo dela era bom para criar as ovelhas, e tudo está quase igual como quando ainda guri. As casas eram poucas, espalhadas na planície e duas ou três no morro. As ruas em desalinho seguiam o espaço das casas, areia ou barro, eram apenas linhas disformes. 1456

Arfado ar de desejo e saudade, Calo por instantes meu pensar em ti, Desprendo lágrima cativa em borrão de tinta, Inflo-me de ar a plenos pulmões, calo o quê de voz... Tento ainda ouvir, quisera poder ser tua voz no vento, No entanto, apenas silencio meu desejo, ainda não é tempo... 1119

Deixando a história para os historiadores, vamos para o que os livros não falam: As grandes construções, antigas e modernas, deixam segredos escondidos à beira do caminho. Não é interessante saber quantas vidas foram ceifadas na sua construção. 1396

"Quando Imbituba buscava água para suprir as necessidades da pequena população decorrente das investidas de Henrique Lage, o morro da antena era a melhor opção, rasgou-se a mata que cedeu graciosamente espaço para a estreita estradinha até o riacho alimentado pelas águas do morro". 2124

Conhecemos a Lagoa e Barra da Ibiraquera, conhecemos seu desenho, suas praias, seus sacos, riachos que a alimentam. Conhecemos muitas histórias dos seus moradores, nativos pescadores, donos de engenhos, isso nos tempos idos. 1378




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