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Uma coluna qualquer
Dario Cabral Neto


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Sempre que vou e lembro-me de um lugar, procuro a visão do hoje e do pretérito. Sentar à sombra de uma árvore, olhar o todo e sentir sua energia. Procuro dividir minha visita em alguns pontos: passado com sua energia, o cenário não transformado e o presente com suas características, assim consigo ter um cenário completo, se verdadeiro ou não, é ocasião ou ponto de vista, ficando para cada um a sua crítica. 1031

Maria e suas flores Amanhece o dia na pequena Vila de São Tomás, uma cor entre o azul e o cinza estampa de um céu indeciso, o ar é quente, pássaros cantam buscando pares, buscando alimento. Uma revoada de cupins anuncia a chuva tão perto. Despertar é tão custoso quando se está enfermo, a febre não baixa, a mesa ainda posta divide seus farelos com algumas formigas, a pia com a louça desfaz-se do brilho pedindo água. 1013

Dizer que era uma casa de amor; as imagens citadas o dizem por si, o cheiro doce e agradável do bolo recém-assado fugia pela janela indo de encontro daqueles que passavam na rua estreita que levava ao centro da vila. 1010

Os anos 1970 foram de aventuras, buscávamos aprendizado. Quando não era desbravar o banhado da Lagoa da Bomba, era outro lugar da cidade. Numa manhã de domingo, estávamos prontos, mas tudo começou uma semana antes, quando um dos da minha gangue (risos) veio com uma ideia louca: 1043

A porta se abre, rangendo feito um animal ferido, a luz que entra é uma mistura de luz e poeira, daria para tocar de tão densa. A sombra delineava a silhueta disforme de um ser humano. Um olhar para dentro mostra uma casa desarrumada, suja, escura e sem vida 1124

Na cozinha João conversava com sua esposa, Marina. As coisas não iam bem e nem foram durante o ano. Agora, mais ainda preocupados, buscavam um no outro o conforto e forças para os dias negros que estavam por vir. Desempregado, João não mais tinha o que receber do seguro-desemprego. Marina, fazendo unhas, não supria as necessidades. 1229

Sabe quando o bolso aperta, o carro fica na garagem, sem bicicleta e, mesmo que a tivesse, pedalar seria complicado? Tomo o circular e sigo numa proposta de venda de um dos meus livros, “A Caminhada de Zé Mundão”. Olhar pela janela é como seguir quadro a quadro um filme no qual presente e passado começam a se apresentar. A pergunta é feita ao senhor que esta ao meu lado: “o senhor sabe por que Nova Brasília? “Nem imagino”, é sua resposta. 1251

Um porto para suprir as necessidades daqueles que transformaram Imbituba de vila à cidade. Um hidroavião fazendo ponte no Portinho da Vila, coisa chique, hoje já tão esquecida nas rodas de conversas à beira da Lagoa do Mirim. O barracão com guincho; recuo de barco e avião, guardião da história, cenário em cascalho embranquecendo qual tapete o recanto dos piqueniques, namoros, pescarias fartas em noite de luar. 1313

scolho uma trilha, mochila nas costas, cajado, chapéu e pé na estrada. A princípio asfalto, calçamento em pedras, olhar as casas que o tempo desbota tintas, noutras o zelo do gostar de jardins, nas flores tão bem cuidadas. Passo firme neste início de caminhada, o calor não incomoda, um sorriso de quem diz a si mesmo vai ser complicado, caminho longo dando a volta no Morro do Mirim. 1206

Seguia o trilho em direção a Vila Nova. O cenário sempre foi mais belo e cheio de novidades, a Lagoa da Bomba, Barra do Araçá, o túnel logo adiante, uma subida forte no morro do cemitério, o pasto com seus gados ariscos, a pequena lagoa no pasto lá embaixo e, enfim, a praia; já depois da Barra do Araçá. 1311

Há muito tempo o morro de Itapirubá perdera sua capa de vegetação. O pasto nativo por baixo dela era bom para criar as ovelhas, e tudo está quase igual como quando ainda guri. As casas eram poucas, espalhadas na planície e duas ou três no morro. As ruas em desalinho seguiam o espaço das casas, areia ou barro, eram apenas linhas disformes. 1319

Arfado ar de desejo e saudade, Calo por instantes meu pensar em ti, Desprendo lágrima cativa em borrão de tinta, Inflo-me de ar a plenos pulmões, calo o quê de voz... Tento ainda ouvir, quisera poder ser tua voz no vento, No entanto, apenas silencio meu desejo, ainda não é tempo... 1013

Deixando a história para os historiadores, vamos para o que os livros não falam: As grandes construções, antigas e modernas, deixam segredos escondidos à beira do caminho. Não é interessante saber quantas vidas foram ceifadas na sua construção. 1234

"Quando Imbituba buscava água para suprir as necessidades da pequena população decorrente das investidas de Henrique Lage, o morro da antena era a melhor opção, rasgou-se a mata que cedeu graciosamente espaço para a estreita estradinha até o riacho alimentado pelas águas do morro". 1787

Conhecemos a Lagoa e Barra da Ibiraquera, conhecemos seu desenho, suas praias, seus sacos, riachos que a alimentam. Conhecemos muitas histórias dos seus moradores, nativos pescadores, donos de engenhos, isso nos tempos idos. 1226

Passado o túnel, tem uma subidinha, uma curva média, no seu início; tem-se que passar entre duas pedras e logo ali pertinho, de vista para o mar, eis a pedra da cruz, cercada de mato baixo, invisível aos trilheiros. Uma cruz com extremidades arredondadas, cunhada na pedra com ponteiros, na base a inscrição; “M D S” e a data “19-12-05”. 1425

Ordem dada, ordem cumprida e Sebastião acende o pavio, seu braço faz o arco, torce o tronco na alavanca, o arpão segue veloz e certeiro no costado da baleia, que sente o tranco da dor, forçando o mergulho, sua nadadeira esquerda que atinge dois remos, que se quebram ferindo Alirio. Outra ordem é gritada... - Passa um remo de estibordo para bombordo, anda não demora. 1244

De longe, sentia o cheiro da farinha torrada, criava coragem e ia me chegando, de mansinho, um café com biju, cuscuz, ou até mesmo um punhado de farinha com açúcar servia para matar o desejo. 1046

Meus passos são os mesmos passos sem medidas e cheios de coragem, atravessar aquele portão com entrada em pedras, o telhado enfeitando mais que protegendo a avenida em cascalho, tantos pés de eucaliptos margeando-a, o ar sombreado pelas copas tão altas que a vontade de ser pássaro vinha à mente de menino. 1206

O Canto mudou muito. Tem estacionamento, água encanada, certa segurança, um lindo visual para quem vem de longe ou para os daqui que buscam momentos mágicos. Bom, lembro-me de como era complicado chegar lá, areia quente, cachorros da Dona Rosinha Saruga, escuridão, etc. 1029




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